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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Contemporânea

Contemporanea

Specimen

2ª série

Número 1

2ª série

Número 2

2ª série

Número 3

2ª série

Número 4

2ª série

Número 5

2ª série

Número 6

2ª série

Número 7

 

2ª série

Número 8

2ª série

Número 9

2ª série

Número 10

Suplemento
 

3ª série

Número 1

3ª série

Número 2

3ª série

Número 3

 

 

"Revista feita expressamente para gente civilizada - revista feita expressamente para civilizar gente"

Esta é uma revista que pretende ser contemporânea. Curioso título para uma revista que dura tanto tempo e tem um mau começo. No primeiro artigo, uma carta aberta 'a um esteta', há um curioso passo que define a direcção da revista, e explica em grande parte o seu nome: esta é uma revista, não de futuristas, epíteto negativo, sobretudo para a geração que este 'esteta' representa, mas de 'contemporâneos', jovens do seu tempo e que querem promover Portugal. 

O número espécime, desde logo, é dividido em três partes, com três capas diferentes (uma, a principal, de Almada e as outras duas de Jorge Barradas) e demonstra ser muito absorvido pela guerra, um ano antes da entrada de Portugal na ofensiva aliada. Este é o tema de muitos dos artigos, tal como está impressa noutras publicações, ainda que de forma mais indirecta, como é o conhecido caso de Orpheu.

Para além do paralelo óbvio que podemos estabelecer com esse cometa absorvente que foi Orpheu, não podemos ler o número espécime sem perder de vista outra publicação efémera, com um número único, desse mesmo ano: o Eh Real!, mais panfleto político do que propriamente revista cultural, que sobreviveu ao tempo pela inclusão do artigo de Pessoa intitulada 'O Preconceito da Ordem". Neste sentido, no primeiro número da revista de José Pacheco é curiosa a foto-reportagem sobre a laicização do governo (p.16) - no entanto, apresentada com uma postura ideológica diametralmente oposta à de Eh Real!, isto é, claramente a favor da ditadura de Pimenta de Castro (uma das razões para o projecto Contemporânea sair gorado logo . Por outro lado, o número espécime também faz lembrar no seu grafismo a Ilustração Portuguesa, uma publicação periódica bastante influente, magazine de variedades, e da qual iria ser director 'um dos de Orpheu', António Ferro (entre 1921 e 1922, altura em que aliás sai a primeira série de Contemporânea), com longas pranchas de ilustração (compare-se desde logo a capa de Almada para o espécime). 

 

De salientar igualmente no número espécime uma abrangência de temas, apanágio da revista para o resto da sua existência: a mulher é foco de atenção com muitas páginas (finais) a ela dedicada, mas sempre no sentido da ideia misógina da mulher no seio do lar. Essa situação porém, pareceu ser um pouco subvertida na década seguinte, quando a publicação é retomada, como veremos.  

 

Contemporânea é obra de José Pacheco. E claro, do ponto de vista gráfico, é em grande parte responsabilidade de Almada, mas não podemos reduzir o papel que Pacheco teve como aglutinador de várias vontades e vários estilos, revelador das suas polifacetadas relações sociais. Uma breve incursão pelo seu espólio revela a sua teia de ligações, e a forma como orquestra cada número em torno de uma ideia de cosmopolitanismo (também revelada por artigos em diversas línguas).

Assim, Contemporânea é uma revista de grande regularidade entre os números 1 e 9: de maio de 1922 a março de 1923 os nove números saem mensalmente. Depois, em 1924 há só um, em 1925 sai apenas um suplemento (apenas descoberto no último quartel do século XX por Fernando Guimarães), e finalmente 3 números em 1926.

Contemporânea apresentou nas suas páginas uma polémica, a polémica dos 'Novos', como ficou conhecida, e que na sua essência se reporta à querela dos antigos contra os modernos: em jogo estava a renovação do corpo dirigente da Sociedade Nacional de Belas Artes, que era acusado de estar obsoleto e desajustado da realidade da arte moderna. Como elmo tomaram as exposições da SNBA, e o saneamento de que estavam a ser alvo os artistas da mais recente geração, que seguia a arte moderna. O suplemento de 1925, como leremos, dará conta dessa polémica em vários artigos.

 

Falávamos há pouco do papel da mulher. Se por um lado é a mulher a figura mais retratada na ilustração incluída na revista, também é à mulher que cabe um papel importante enquanto articulista e colaboradora activa. Penso em Vera Gharb (pseudónimo de Emma da Câmara Reis (1897-1968), por exemplo, num artigo incluído no número 7 da revista, sobre Satie e outros seis compositores que começavam a ser conhecidos na altura. Totalmente insólito em Portugal, a leitura deste artigo revela uma musicóloga atenta à cena musical mais vanguardista. 

Aliás a Crónica musical é uma parte bastante forte na revista, como não poderia deixar de ser. É de destacar aqui o papel de Luís Moita. Também o excelente artigo de Manuel Ramos (aqui no arquivo RIC podemos consultá-lo como colaborador da Seara Nova). Maria Antonieta Lima Cruz (1901-1957) também aparece mencionada como uma excelente musicóloga, numa crónica de Moita. 

 Gostaria de salientar ainda o artigo fragmentário de Carlos Babo, no número 6, uma 'epístola às mulheres' que não é mais do que uma exortação algo misógina contra o seu 'mistério': "E só me entristece ver-vos envaidecidas de vos atribuirem mistério onde não o tendes", como diz de forma resumida. Isto é ecoado ainda nesse número especial de Natal de 1922 por "Sur l'amour sur les femmes honnetes... et sur les autres", por Costas Ouranis, um reconhecido poeta grego. Por outro lado, no número 9, na penúltima página, onde está a súmula do ano em edições, conferências e exposições, é curioso ver o equilíbrio de género nesse último domínio: quatro mulheres e quatro homens com exposições individuais. E, mais significativamente, é sintomática a inclusão de Olívia Penteado, a grande impulsionadora da Semana de Arte Moderna em 1922, como correspondente de Contemporânea no Brasil, de acordo com as informações nas badanas da revista (nº2 e 3 da 3ªsérie), no seguimento de uma visita no ano anterior ao nosso país (também detalhada num número anterior).

Como se vê, é uma atitude complexa e discrepante a que Contemporânea dá forma, anunciando uma certa (diria ténue) emancipação feminina, mas com os pés bem assentes no presente. 

 

Apesar de apenas se revelar verdadeiramente hispanófila na sua última série (veja-se como o subtítulo muda: 'Portugal * Ibero-americanismo * Arte'),  Contemporânea demonstrou desde o primeiro número ser uma revista constituída por autores que não só partilhavam uma simpatia pelas língua e cultura espanholas (como se comprova pela página de rosto que sucede ao índice desse número), mas também com a inclusão de vários nativos da língua, na maior parte dos casos diplomatas trabalhando em Portugal e seus amigos (o modernista Ramon Gomez de la Serna aqui sendo de salientar). Esta relação luso-hispânica aliás, está bastante bem detalhada no artigo de António Saéz Delgado incluído na edição crítica desta revista, para o qual remetemos.

 

Do ponto de vista do grafismo, é uma revista claramente inserta na sua década - 20, também no que toca à publicidade. No final da primeira série (3º número, junho 1922), é curiosa a afirmação contundente e vigorosa que a publicidade não seria para rasgar visto também se tratar de arte. Nada mais rigoroso se atendermos à contribuição plástica de Almada Negreiros, desde o número espécime, e em especial quando se envolve em ilustrações publicitárias: veja-se, na entrada no número 4, a publidade aos chocolates da 'Fabrica Suissa', que, assevera o cartaz, 'são portugueses'.  Aliás, como já aludimos, é mesmo este o maior exemplo da contribuição gráfica, um dos maiores aliados do director Pacheco, retratando autores e deixando-se retratar (podemos ler, associar) com esquisos-auto-retratos a lápis.  Outros ilustradores que participam na revista incluem os portugueses Bernardo Marques, Eduardo Viana, Jorge Barradas e Stuart Carvalhais (autor de muitas das vinhetas), o espanhol Vazquez Diaz e até a reprodução de um quadro de Columbano. Aliás, outro pormenor continuador das revistas da década anterior, mas extremamente inovador, é a ilustração como reprodução da obra de arte, como acontece com alguns quadros de Eduardo Malta e esculturas de Diogo de Macedo.

 

Por outro lado, a figura de Almada Negreiros faz-se representar também na escrita, que nos primeiros números é extremamente mordaz e crítica (leia-se a título de exemplo 'O Dinheiro'), sempre envolta em questões sociais que dizem respeito ao capital monetário - e sua importância na diferenciação classista. Alguns destes textos são ainda precursores de um tipo de atitude pós-colonialista, como se lê em 'O Diamante'. Os artigos eminentemente autobiográficos de Mário Saa são também paradigmáticos do melhor que a revista produziu enquanto crítica social, em textos híbridos e verdadeiramente vanguardistas.

 

Por último, a presença de António Ferro em Contemporânea - apesar de o director e fundador e maior influência ser, sem dúvida, José Pacheco -, começa desde logo a fazer-se otar na forma como é um colaborador assíduo. No entanto, é igualmente figura defendida em algumas ocasiões (repare-se numa das últimas páginas do número 10, a recensão escrita aquando da estreia da peça 'Mar Alto'), o que aliás é bastante vincado na transição da segunda para a terceira série, com o Suplemento de 1925. Aqui, não só aparece um artigo dele sobre a nova geração brasileira (devido à visita ao Brasil onde foi apresentar 'A Idade de Jazz-Band', como é referido numa carta aberta do brasileiro Oswald de Andrade e ainda é elogiado como autor novo sobre 'obra realisada' [sic].  

 

O Suplemento de 1925, aliás, que mereceu um estudo abrangente de Fernando Guimarães, publicado há 25 anos na homenagem do CNC a Contemporânea ('Almada, Pacheko, Contemporânea'), é um caso curioso no contexto da revista. Se quisermos uma fotografia instantânea do que se passava na década de 20, estas são as páginas a ler. Ao folhear o curto panfleto, quase um século depois, dois artigos se destacam no entendimento da época. Um sobre a geração nova no Brasil e outro sobre o mesmo do lado de cá do Atlântico. É no fundo um suplemento, enquanto novo número não sai (por doença do seu editor, como nos é dito) mas muito preocupado com uma teorização de nova geração, evocando porém os seus mortos, em primeiro lugar. Um pormenor interessante é que no artigo bastante enumerativo sobre os membros dessa geração não conste dela Fernando Pessoa, que não era desconhecido da revista (já nela publicara amplamente, inclusivamente em francês) nem da sua geração. 

 

Efectivamente, a doença de José Pacheco faz com que nunca consiga voltar a editar um número da revista depois da terceira série de 1926, apesar das múltiplas pistas do espólio e das provas para um décimo quarto número (que estão consultáveis nesta edição crítica). Mas o legado de Contemporânea faz dele uma figura incontornável para o estudo das interacções culturais no Modernismo português e além-mar, como estas páginas tão bem comprovam.

 

Ricardo Marques