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Fernando Pessoa - teoria literária

Esta edição digital de textos de Fernando Pessoa trata o conjunto dos escritos de teorização poética que se encontram no seu espólio e reúne ensaios, comentários, apontamentos, esboços e fragmentos sobre literatura do autor português. Os documentos são transcritos a partir do espólio de Fernando Pessoa à guarda da Biblioteca Nacional de Portugal, com a cota E3. Quanto aos fac-símiles, são acompanhados de uma lição crítica e de uma transcrição paleográfica, que se encontram disponíveis para download no campo “PDF”.

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP-E3, 72 – 15–16
BNP-E3, 72 – 15–16
Álvaro de Campos
Identificação
Ambiente

[BNP/E3, 72 – 15–16]

 

AMBIENTE

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Nenhuma época transmite a outra a sua sensibilidade; transmite-lhe apenas a inteligência que teve dessa sensibilidade. Pela emoção somos nós; pela inteligência somos alheios. A inteligência dispersa-nos; por isso é através do que nos dispersa que nos sobrevivemos. Cada época entrega às seguintes apenas aquilo que não foi.

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Um deus, no sentido, pagão, isto é, verdadeiro, não é mais que a inteligência que um ente tem de si próprio, pois essa inteligência, que tem de si próprio, é a forma impessoal, e por isso ideal, do que é. Formando de nós um conceito intelectual, formamos um deus de nós próprios. Raros, porém, formam de si próprios um conceito intelectual, porque a inteligência é essencialmente objectiva. Mesmo entre os grandes génios são raros os que existiram para si próprios com plena objectividade.

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Viver é pertencer a outrem. Morrer é pertencer a outrem. Viver e morrer são a mesma coisa. Mas viver é pertencer a outrem de fora, e morrer é pertencer a outrem  de dentro. As duas coisas assemelham-se, mas a vida é o lado de fora da morte. Por isso a vida é a vida e a morte a morte, pois o lado de fora é sempre mais verdadeiro que o lado de dentro, tanto que é o lado de fora que se vê.

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Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem portanto

 

[16r]

 

uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que não se sente.

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Os cavalos da cavalaria é que formam a cavalaria. Sem as montadas, os cavaleiros seriam peões. O lugar é que faz a localidade. Estar é ser.

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Fingir é conhecer-se.

 

ÁLVARO DE CAMPOS.

Versão dactilografada do testemunho impresso publicado por Fernando Pessoa, assinado por Álvaro de Campos, com o título: «Ambiente», in Presença, nº 5, Coimbra, 4 de Junho de 1927, p. 3.

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/2237
Classificação
Literatura
Heterónimos
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada
Fernando Pessoa, Prosa de Álvaro de Campos, Edição de Jerónimo Pizarro e Antonio Cardiello (com a colaboração de Jorge Uribe), Lisboa, Ática, 2012, pp. 369-370. [Em aparato genético.]