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Medium
Fernando Pessoa
BNP-E3, 19 – 111-112
BNP-E3, 19 – 111-112
Fernando Pessoa
Identificação
Sobre um Inquérito Literário.

[19 – 111-112]

 

Sobre um Inquérito Literário.

 

Diferença entre o género de cultura que há hoje em Espanha e Portugal. Em Espanha há um intenso desenvolvimento da cultura secundária, da cultura cujo máximo representante é um homem de muito talento; em Portugal, essa cultura não existe. Há porém a superior cultura individual que produz os homens de génio. E, assim, não há em Espanha hoje uma figura de real destaque genial: o mais que há é figuras de grande talento – um Diego Ruiz, um Eugenio d’Ors, um Miguel de Unamuno, um Azorin. Em Portugal há figuras que começam na centelha genial e acabam no génio absoluto. Há individualidades vincadas. Há mais: há um fundo caracter europeu no fundo. Como é individual, e o meio social não está organizado, a cultura portuguesa está anarquizada, cada homem de génio vivendo consigo próprio, e, o que é pior, cada um escrevendo um pouco sem disciplina. Cabe afastar alguns deste juízo – Junqueiro su-

 

[111v]

 

premamente. E cabe advertir que essa organização da cultura nacional começou, no Porto, com a Renascença Portuguesa. Em Espanha há um meio culto a mover, a influenciar, mas não há o Homem que o mova. Em Portugal há uns poucos de homens capazes (por seu valor intelectual) de mover o meio; falta, porém, o meio culto que movam. De modo que em Portugal, é preciso que apareça um homem que, a par de ser um homem de génio, para que possa mover o meio por inteligência, seja um homem de sua natureza influenciador e dominador, para que ele próprio organize o meio que há de influenciar, e ir influenciando ao construí-lo. Diz Wordsworth, num dos prefácios críticos a uma das edições das Lyrical Ballads, que o poeta tem de criar o meio que o compreenda. Assim é, quando, como no caso que Wordsworth citava, que era o seu próprio, o poeta é um grande original.

 

[111r]

 

Os escritos espanhóis não nos dão a surpresa, que o génio dá. Falta-lhes a divina primitividade, a proximidade de Deus. Têm o ar, não de criadores de civilização, mas de, quando muito, últimos cultores dela.

 

[112r]

 

Onde está o erro da Renascença Portuguesa? O primeiro é em estar no Porto. De resto, não podia ter nascido senão no Porto, de modo que, como em tudo, se repararmos bem, na própria única causa possível está o defeito inevitável. Sem esse defeito, não teria havido a causa, nem o efeito portanto.

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Toda a literatura ibérica, e a nossa não predominantemente, sofre dum provincianismo radical. Extra-pertencemos à Europa, somos uma espécie de adjacência civilizada. Na Catalunha o fenómeno que descreve toda a cultura espanhola tomou incremento especial; de aí, mais do que em Castella, confinarem ao génio muitos dos seus homens. Mas, fundamentalmente, o que há é sem dúvida um grande desenvolvimento da cultura secundária. Há um esplendido jornalismo {…} A influência da América Espanhola

 

[112v]

 

tem sido grande nisto. Em nós, nenhuma tem sido a influência do Brasil. Urge, por isso, para que criemos uma cultura secundária idêntica à da Espanha, que criemos as condições que a criaram. Urge que estreitemos inteligências com o Brasil. Urge que pacifiquemos o meio social e eliminemos a fermentação revolucionária. Urge que nos organizemos economicamente e saiamos um pouco, porque muito seria muito para nós, do nosso sonho, não de poetas (como dizem os idiotas nas conferências), mas de mandriões.

 

Razão teve o sr. António Sérgio quando insistiu nesse ponto.

 

Uma vez criado um meio culto entre nós, ver-se-á de repente esse meio culto tomar um relevo, uma importância excepcional. É que nos realizamos a absurda situação de ter criado já os dominadores, os influenciadores, as figuras-chefes desse meio, sem que houvéssemos criado o meio ainda.

 

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/2818
Classificação
Literatura
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada
Publicação parcial: Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Edições Ática, 1966, pp. 355-357.
Publicação integral: Cláudia Franco Souza (ed.), Fernando Pessoa e os Romantismos, Lisboa, Apenas Livros, 2019, pp. 87-89.