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Fernando Pessoa - Literary Theory

This digital edition of texts by Fernando Pessoa deals with the set of poetic theorizing writings from hisArchive and brings together essays, comments, notes, sketches and fragments about literature from the Portuguese author. The documents transcribed are in Fernando Pessoa’s Archive in the custody of the National Library of Portugal, with quota E3. All facsimiles are accompanied by a critical lesson and a paleographic transcription, which is available for download in the “PDF” field.

 

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP/E3, 14C – 25
BNP/E3, 14C – 25
Fernando Pessoa
Identificação
[Sobre Alberto Caeiro e Ricardo Reis]

[BNP/E3, 14C – 25]

 

As obras de Caeiro estão como que presentes: (1) a reconstrução emotiva[1] da objectividade – (2) {…}

 

Espírito mais metafísico que lógico, e antes especulativo que construtivo, há nele falhas que denotam o ambiente em que viveu.

Nada há menos pagão que a agressão à religião católica… Para um pagão não há falsos deuses, nem crenças absurdas. Há tão-somente modos inusuais de os adorar. Não é pois no culto católico, com os seus deuses que sabe ou deve praticar saber, que um pagão tem que censurar o Cristismo. Nada o há menos que a sua indiferença pela comunidade, indiferença não filosófica (de hedonismo livre-pensador) senão instintiva, de indivíduo, não cristão, que se concebe oposto ao conjunto dos homens. (Certo é que, vivendo, apesar de tudo, mais do sentimento que da razão, porque mais dos sentidos que da coordenação das suas impressões, ele sente, menos a necessidade compreender a sociedade que o cerca, e o em que ele se distingue dela, que a só repugnância por ela).

 

[25v]

 

Reis é um Horácio grego que escreve em português.

 

A princípio não se verá bem em que é Reis discípulo de Caeiro, tal é na aparência, a inconveniência já de matéria, já de forma entre as duas obras. Dissemos, nós, porém, que a |obra| de Caeiro é tão-somente a reconstrução instintiva do objectivismo. O objectivismo em Reis é igualmente absoluto, igualmente vivido, não menos {…} Há apenas, que Reis regressa formalmente à Arte pagã, a cujas produções congéneres suas odes se assemelham. Não houvesse[2] Caeiro recreado o objectivismo, |que|[3] não pudera Reis tê-lo como fundamento de uma obra[4] de que ele se não revela como teoria, como em Caeiro, senão como práctica. A relação da teoria à práctica: eis a que há então entre as duas |artes|. Há por certo outras aplicações prácticas da sua teoria, como de uma mãe pode haver vários filhos; esta, porém, é uma aplicação, e de todo se conforma com a teoria |de que se serve|.

 

 

 

[1] emotiva /temperamental\

[2] houvesse/ra\

[3] |que|/e\

[4] obra /arte\

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/3188
Classificação
Literatura
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada
Fernando Pessoa, Obra Completa de Ricardo Reis, edição de Jerónimo Pizarro e Jorge Uribe, Lisboa, Tinta-da-China, 2016, pp. 352-353.