Virtual Archive of the Orpheu Generation

Databases Fernando Pessoa

Fernando Pessoa - Literary Theory

This digital edition of texts by Fernando Pessoa deals with the set of poetic theorizing writings from hisArchive and brings together essays, comments, notes, sketches and fragments about literature from the Portuguese author. The documents transcribed are in Fernando Pessoa’s Archive in the custody of the National Library of Portugal, with quota E3. All facsimiles are accompanied by a critical lesson and a paleographic transcription, which is available for download in the “PDF” field.

 

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP/E3, 14C – 1
BNP/E3, 14C – 1
Fernando Pessoa
Identificação
Júlio Dantas.

[BNP/E3, 14C – 1]

 

Júlio Dantas.

 

O Sr. Júlio Dantas é, segundo nós, um desses poetas de 3ª ordem cuja obra é caracterizada por uma elegância de ideias e de versos e pela ausência completa do sublime, do violento e do profundo. É do género de François Coppée e de {…} – do género cujo representante mais {…} foi Campoamor. – Nos versos do Sr. Júlio Dantas tudo é gracioso, ligeiro, bonito; é tudo agradável. É um poeta de salão – um bom poeta de salão. Falando nele vêm |a pêlo| as expressões usuais que sentimos caberem-lhe bem: mimoso poeta, delicado poeta, poeta mavioso. Ele é, com efeito, tudo isto. A característica principal do seu estilo é a elegância; nesta palavra se engloba e se resume todo o seu ser literário. O que não quer dizer que não possa ser classificado de bom poeta; mas o termo que lhe convém é o de poeta elegante.

Querer, porém, elevá-lo a grande poeta, a vate, a {…} é mau serviço que se lhe presta. É preparar um Outro que[1] ainda o desconhece a achar-lhe beleza de ordem que ele não tem.

Como prosador ficam-lhe melhor (o termo é tirado da elegância do vestuário) os estudos e escritos de fidalguias passadas, nobrezas idas – todos esses marialvados {…}. Como romancista falhou; com a sua constituição mental não se fazem romancistas. Nem tem a visão imaginativa dos caracteres que lhe permita

 

[1v]

 

apanhar-lhes de golpe o psiquismo diferencial e fazê-lo viver na sua alma; nem tem as faculdades de análise que lhe permitam escrever romances introspectivos e |analíticos|. A sua outra ordem de escritos – os estudos científicos – não a podemos considerar bem feitos[2], pois que, conquanto mostrem erudição e trabalho no obter materiais, são deploravelmente falhos no elemento formal. Os materiais não estão trabalhados pelo raciocínio; os factos não o levam a conclusões claras e nítidas. O melhor estudo é talvez o de D. Duarte. Mas[3] mesmo esse não está disposto de modo a cativar qualquer inteligência acostumada a exposição científica.

Como nos propusemos a tarefa de apreciar os poetas portugueses contemporâneos, como o Sr. Júlio Dantas é sem dúvida um bom poeta destes mencionando-o, mas nestas poucas linhas que para mais não dá, atente a sua psicologia extremamente simples, aquilo a que se chamaria o seu perfil literário.

É, confessamo-lo, mais {…} que Campoamor, conquanto menos epigramático; mas essa diferença é a de português a espanhol, e de espanhol a português.

_______

 

 

[1] que /quem\

[2] feitos/a\

[3] Mas /nem\ mesmo esse não

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/3170
Classificação
Literatura
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada
Rita Patrício, Episódios - Da Teorização Estética em Fernando Pessoa, Braga, Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, 2008, pp. 402-403 [cf. Rita Patrício, Episódios - Da Teorização Estética em Fernando Pessoa, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2012, pp. 437-438].