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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Teatro

Fernando Pessoa escreveu peças de teatro, em prosa e em verso, em inglês e em português, que ficaram, na sua maioria, incompletas e fragmentadas. Em vida publicou somente O Marinheiro, no primeiro número da revista Orpheu, em Março de 1915. Existem fragmentos de um ensaio sobre o drama, além de outras páginas de considerações sobre o género, a propósito do drama Octávio, de Vitoriano Braga. A datação das peças de teatro permite perceber que a escrita do género dramático o acompanhou ao longo da vida. O facto de alguns desses textos terem tido uma escrita continuada, ao longo dos anos, contribuiu para a sua dispersão pelo Espólio.

Nos textos de reflexão sobre o género, refere muito o teatro de Shakespeare. Do teatro escandinavo, diz, numa anotação: os escandinavos, renascença do teatro (Teresa Rita Lopes, Fernando Pessoa et le Drame Simboliste, 1985, p. 125). Do teatro irlandês, comenta noutro local: Nessas peças irlandesas, o diálogo, às vezes, parece ser entre alguém que não está ali e alguém que nunca esteve em parte nenhuma (id., 126). Este comentário parece indicar uma ligação ao conceito de “teatro estático”. Existem registos que indicam a intenção de traduzir o teatro de J. M. Synge.

Sente-se a influência de Shakespeare nas peças que escreveu, em inglês, nos primeiros anos. Marino, datada de cerca de 1904, é uma história de adultério planeada para cinco actos. Sua contemporânea, The Multiple Gentleman, de que só existe um pequeno fragmento escrito em inglês e em português, é a história de personagens que se fazem passar por outras. The Duke of Parma é um texto mais longo, também em inglês, também planeado para cinco actos. Desta peça existem fragmentos em verso livre e outros em prosa e foi escrita em momentos diferentes do tempo, pois as datas dos fragmentos vão de 1918 a 1922. A peça Circo Internacional Schildroth, de que existem poucos fragmentos, é uma sátira política das instituições e das personagens da República, onde as personagens exprimem, em canções, as suas críticas ao regime. Noutra peça incompleta, com o título Monólogo dialogado, o pai Eterno, Jesus Cristo e o Espírito Santo tentam decidir qual dos três tem existência real.

A Pessoa interessa, como tema das suas peças, a revelação das almas e a tragédia do ser em relação a si próprio. Muitas delas assemelham-se, por isso, a longos monólogos. Define “Teatro Estático”, um dos conceitos que desenvolve, da  como aquele cujo enredo dramático não constitui acção – isto é onde as figuras não só não agem, porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma acção; onde não há conflito nem perfeito enredo (Páginas de Estética,  p.113). O enredo do teatro seria não a acção e consequência da acção, mas a revelação das almas através das palavras trocadas e a criação de situações (ibid.) O enredo está nos momentos de alma sem janelas ou portas para a realidade (ibid.). Identifica duas etapas no “Teatro Estático”: uma primeira em que a personagem cria somente situações de inércia e uma segunda em que viaja no interior de si próprio. Na segunda fase torna-se visionário e viaja para além do real, pelo poder do sonho. Surge, nalguns registos, a designação alternativa de “Teatro d’Êxtase”, justificada pela elevação das personagens para lá real, através do poder do sonho e da palavra.

A efabulação tem pouca importância no teatro de Pessoa. Em O Marinheiro, três veladoras em redor de um cadáver, num quarto circular de um velho castelo, falam até chegar a manhã. Monólogo a três vozes, sonham a personagem que dá nome à peça e questionam-se se não serão elas próprias o sonho de alguém. Fausto, a tragédia subjectiva, como designou Pessoa este poema dramático,é um diálogo ininterrupto do ser com o seu destino. É possível situar fragmentos nos anos de 1909, 1912, 1928 e 1933, indicando que este foi um trabalho de toda a vida. Divide-se em cinco actos, e foca a luta entre a Inteligência, personificada por Fausto, e a Vida, personificada por várias figuras, luta essa em que a Inteligência é sempre vencida. O primeiro acto trata do conflito da Inteligência consigo própria, o segundo acto do conflito da Inteligência com outras Inteligências, o terceiro acto do conflito da Inteligência com a Emoção, o quarto acto do conflito da Inteligência com a Acção e o quinto acto da derrota da Inteligência. Os seus quatro temas são os seguintes: o mistério do mundo; o horror de conhecer; a falência do prazer e do amor; o temor da morte. Num projecto, Fausto surge incluído numa Trilogia da Noite, onde representaria a consciência.

Outro poema dramático seria Jesus (Cristo), que representava a ilusão, e havia um terceiro, ainda por definir, com a indicação um dominador. A peça Mereia consiste num diálogo entre dois irmãos que ponderam a fuga da casa paterna. Salomé, A Morte do Príncipe e Diálogo no Jardim do Palácio são peças em que as personagens encarnam a figura do sonhador visionário, que se eleva até ao Desconhecido. Diálogo no Jardim do Palácio trata da dificuldade de conhecer a identidade própria, da unidade corpo-alma e o conhecimento de Deus, do terror perante a possibilidade do mistério ser revelado. Em Salomé, a personagem principal simboliza o princípio feminino, a grande Deusa das mitologias, Senhora dos homens e animais. Sakyamuni situa-se no limite entre o “teatro estático” e um teatro de mitos. Pertence a um conjunto de três peças, de que conhecemos dois títulos: Sakyamuni e Calvário, centrando-se a primeira na figura de Buda e a segunda na de Cristo. A personagem transpõe aí as sete portas da Iniciação, resiste às tentações da vida humana e aos encantos do mundo das aparências, mas hesita ao chegar ao Grande Limiar. Recusa os braços de Nirvana e decide encarnar o Mal Absoluto. Imolando-se libertará o Mundo. A ideia central de Calvário é chamar a atenção para o rosto múltiplo da verdade.

O conjunto intitulado A Trilogia dos Gigantes incluiria os três poemas dramáticos Briareu, Livor e Encelado, mas, noutros esquemas, o conjunto seria formado por Briareu, Livor e Typhon. Haveria ainda a peça intitulada Cephisa, nome da noiva de Typhon. Existem ainda outras peças com figuras míticas: Ligeia, Prometheus Rebound, Salomé. Dos mitos portugueses há Inês de Castro e O Encoberto (D.Sebastião). Auto da Morte (Sonho da Realidade ou ainda Sonho da Morte) é uma peça onde todos os deuses pagãos e cristãos discutem o direito a ser o único a existir. Um dos projectos mais antigos de Pessoa é a obra dramática intitulada Portugal. O epílogo de uma poema dramático com este título está datado de Agosto-Setembro de 1910. O Encoberto e Catástrofe são peças ligadas a este projecto. O primeiro centra-se na personagem de um cavaleiro que morreu com o rei D.Sebastião em Alcácer Quibir e que com ele caminha em busca de um país maravilhoso. Inês de Castro é um fragmento em verso livre e Leonor Teles um poema dramático que não passou de projecto.

Prometheus Revinctus, mais tarde Prometheus Rebound, surge num plano de 1914, mas pertence a este projecto um fragmento com data de 1935. No prefácio da peça, Pessoa explica que se trata de uma interpretação do poema dramático de Ésquilo e do drama lírico de Shelley. A personagem simboliza a Humanidade. Ligeia é um poema dramático em verso livre, escrito de 1919 a 1923. A personagem é poupada pelos deuses à morte e à velhice. O mortal amado por Ligeia rejeita-a, pois Amar-te / É hoje profanar-te. Ligeia simboliza a separação dos homens sem a intimidade dos deuses. Em Sessão dos Deuses, um pequeno fragmento de outra peça, Júpiter dirige-se aos seres humanos para negar a existência do deus único e da única verdade. O teatro de Fernando Pessoa, planeado como uma grande área da sua obra, ficou na sua quase totalidade incompleto, revelando, no entanto, unidade e coerência.

 

 

BIBL.: Teresa Rita Lopes, Fernando Pessoa et le Drame Simboliste, Paris,Fondation Calouste Gulbenkian, Centre Culturel Portugais, 1985; Fernando Pessoa (ed. António Quadros), Obra Poética e em Prosa, Vol. III, Lello & Irmãos, Porto, 1986; Fernando Pessoa, Teatro Estático (ed. Filipa Freitas e Patricio Ferrari), Lisboa, Tinta da China, 2017.

 

 

Ana Maria Freitas