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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Renascença Portuguesa

A Renascença Portuguesa surgiu no ano de 1912 como sociedade cultural, depois de duas reuniões preparatórias, a primeira em Coimbra (27 de Agosto de 1911) e a segunda em Lisboa (17 de Setembro); os Estatutos da sociedade foram divulgados na imprensa em Dezembro de 1911, publicados na revista A Águia em Janeiro de 1912 e revistos de forma definitiva um anos depois, em Janeiro de 1913. O núcleo original que lançou a ideia da associação – Álvaro Pinto, António Carneiro, Augusto Casimiro, Augusto Martins, Cristiano de Carvalho, Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes – sedeava na cidade do Porto e promovera já um conjunto de valiosas iniciativas locais no domínio da cultura, da arte, da educação. O grupo, ou parte dele, publicara em 1907 a revista libertária Nova Silva, fundara em 1908 os Amigos do ABC, uma associação pedagógica vocacionada para a alfabetização operária, participara activamente no jornal anarquista A Vida (1905-9) e criara em Dezembro de 1910 uma nova revista mensal, A Águia, cuja segunda série se tornaria depois no órgão da Renascença Portuguesa.

Assim como assim, o núcleo promotor do norte percebeu que a nova iniciativa era muito mais ambiciosa que todas as anteriores e tinha condições para se tornar, no momento crucial em que se dava a queda da monarquia e a proclamação da República, no movimento anímico, na alma viva do escol do novo regimen político português. É por isso de assinalar a coincidência decerto consciente entre as iniciais da República Portuguesa e as da Renascença Portuguesa.

No sentido de dar corpo às suas aspirações mais vastas, o núcleo promotor do norte, associado a colaboradores de primeira hora de A Águia, procurou afinidades noutras regiões do país, e chegou mesmo ao outro lado do Atlântico. Diz Álvaro Pinto, que foi o administrador da associação: “A formação da Renascença Portuguesa em 1912 foi precedida de interessante correspondência com alguns escritores brasileiros, quer para a formação dum Comité no Rio de Janeiro, quer para um ponderado intercâmbio que estabelecesse um conhecimento mais amplo das actividades dos dois países. A Águia divulgou constantemente produções brasileiras e a Renascença editou algumas obras de escritores do grande continente sul-americano” (in São Paulo, Cidade vertiginosa, 1937, p. 49). Ao ‘comité’ do Rio de Janeiro se refere o artigo dois do Estatuto revisto de 1913. Entretanto, encontrou em António Sérgio, Raul Proença e Câmara Reis, e logo depois em Fernando Pessoa, os parceiros ideais para alargar o projecto ao sul, cobrindo assim os centros mais importantes do país. Aquilo que unia os dois grupos, o de Lisboa e o do Porto, era um imaginário dinâmico e anti-positivista, cujas raízes tanto estavam no Antero de Quental das Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX (1890) como no Sampaio Bruno de O Brasil Mental (1898), que gizava um espírito ginasticado e aberto e se sobrepunha como alternativa de espírito àquilo que havia de esquemático no positivismo de Teófilo Braga, de resto já contestado por importante parcela da geração de 70 (Martins, Antero e Junqueiro).

Demais, o dois grupos convergiam na necessidade de aproveitar a mudança de regimen para renovar a sociedade portuguesa, responsabilizando-a pela criação de riqueza e pedindo-lhe uma exigente política de cidadania que pusesse termo a uma cultura da dependência, da insuficiência pedagógica e do caciquismo partidário e mental, que haviam caracterizado do ponto de vista ambos a monarquia constitucional a partir do rotativismo partidário fontista. Dispunham-se para isso a trabalhar em conjunto numa obra educativa que visava elevar a condição cultural do povo português, mostrando-se por aí um exemplo de dinamismo cívico.

De qualquer modo, divergiam no modo como essa renovação se devia processar: pensava o grupo do norte, inspirado pelo estado de espírito que surgira depois do Ultimatum inglês de 1890 e que levara ao levantamento republicano do 31 de Janeiro de 1891 e à Pátria (1896) de Guerra Junqueiro, que era necessário para se chegar a uma nova política de cidadania valorizar o lastro cultural português em detrimento das ideias estrangeiradas, único modo de universalizar a cultura portuguesa; contrapunha o grupo de Lisboa, tocado pelas ideias mais características  da geração das Conferências do Casino, que era necessário abandonar os carris autóctones a favor das experiências estrangeiras europeias, única via de actualização da cultura portuguesa.

Esta divergência foi de enorme importância no lançamento da associação, mostrando tensões insuperáveis no interior do grupo e impedindo mesmo que o movimento elaborasse um manifesto público consensual; foram elas que deram depois origem a arrebatadas e prolongadas polémicas nas publicações da Renascença, como aquela que de Outubro de 1913 a Julho de 1914 travaram António Sérgio e Teixeira de Pascoaes e que se mostra a questão crucial do século XX português e a que mais visivelmente transita por resolver, se não por esclarecer, para o novo século.

O núcleo do norte, tendo no seu currículo iniciativas sociais relevantes, que o ligavam ao movimento operário português nascente, era pela experiência, pela influência, muito sentida em Coimbra, e até pelo prestígio político de alguns dos seus membros – Cortesão fora por exemplo um dos raros presos políticos que a revolução vitoriosa do 5 de Outubro arrancara da prisão – credor de uma confiança e de um protagonismo que o grupo de Lisboa, menos experiente, menos preparado, e quase sem passado, não tinha condições para chamar a si. Justifica-se assim que a associação tomasse sede na cidade do Porto, atribuindo a Teixeira de Pascoaes a direcção do seu órgão e a presidência da Mesa da Assembleia Geral a um homem, Guerra Junqueiro, que representava o espírito da geração portuense de 90,  cujo o arranque fora a Liga Patriótica do Norte, espírito marcado pelo empenho na universalização dos valores portugueses por contraste com o da geração de 70, apostado na importação quase acrítica de exemplos estrangeiros tidos por avançados e modelares.

Assim, a Renascença Portuguesa, nunca recuando diante do convívio polémico das suas tendências e respeitando sempre nas suas publicações o pluralismo das opiniões, surgiu associada ao imaginário do grupo promotor do norte, muito marcado pelo saudosismo de Teixeira de Pascoaes, que merecia o apoio do criacionismo de Leonardo Coimbra e do historismo de Jaime Cortesão. Quer o saudosismo de Pascoaes, quer o criacionismo de Leonardo, podem ser vistos como as configurações finais a que as diferentes actividades do grupo nortenho haviam chegado, mostrando o primeiro um evolucionismo metafísico e libertário, de sinal antipositivista, antidogmático e anti-estrangeirado, o que neste último caso estava muito longe de significar nacionalismo, tradicionalismo ou isolacionismo, como logo depois se viu pela violentíssima doutrinação anti-saudosista de António Sardinha (ainda com o nome de António Monforte) e Alfredo Pimenta mas também pela leitura anti-tradicionalista do saudosismo feita por Fernando Pessoa.

Foi o alinhamento anti-estrangeirado do saudosismo, habilmemente explorado pelo seu mentor nas conferências-manifestos que fez entre 1912 e 1913 no âmbito da divulgação dos ideais da Renascença Portuguesa, que levou o grupo de Lisboa a entricheirar-se nas suas diferenças, abrindo as hostilidades contra Pascoaes, mas também contra Cortesão, e que mais tarde, no quadro do desgaste interno da República e da ascenção do tradicionalismo autoritário do Integralismo, levará à dissidência de 1921 e à criação em Lisboa da Seara Nova. A excepção de vulto será Fernando Pessoa que, estando em Lisboa, alinhará pelas teses do saudosismo, iniciando em Abril de 1912 a publicação na revista A Águia dos cinco artigos de A Nova Poesia Portuguesa, onde, dilucidando os traços poéticos e filosóficos do saudosismo, rasga novas e abertas perspectivas ao movimento. São todavia conhecidas as posteriores divergências de Pessoa com a Renascença Portuguesa, que vão da crítica a Afonso Lopes Vieira em Março de 1913 à longa carta de ruptura a Álvaro Pinto (12 de Novembro de 1914). Em 1915, numa conhecida nota de apresentação de Orpheu, Pessoa dirá, com carga reactiva, que a arte moderna tem de ser maximamente desnacionalizada. Ainda assim, esta desnacionalização não equivale a estrangeirização e menos ainda a imitação do estrangeiro. Mais tarde, em duas peças da maturidade, “O Provincianismo Português” (in Notícias Ilustrado, 12.8.1928) e “O Caso Mental Português” (in Fama, 1.11.1932), Pessoa desfará as dúvidas, regressando ao tópico não-estrangeirado do saudosismo. A tese do provincianismo português – “Paio Pires a falar francês é um documento doloroso” – dá assim seguimento vinte depois ao pensamento saudosista da sua estreia inicial com os textos publicados em A Águia.

Independemente das oposições internas e da sensibilidade particular de cada grupo, os associados da Renascença Portuguesa encontraram outrossim na associação um espaço tolerante de aceitação que facilitou uma colaboração activa de todos eles e lhes permitiu uma convivência profícua, que visou sobretudo a promoção da cidadania responsável e da elevação cívica da sociedade portuguesa. Estão neste pé um conjunto de notáveis actividades sociais e pedagógicas, com especial destaque para a acção editorial da associação, que foi durante vinte anos uma das mais fecundas e brilhantes do país, e para a actividade pedagógica, com a criação de quatro Universidades Populares (Porto, Coimbra, Póvoa de Varzim e Vila Real), a publicação de um quinzenário voltado para os problemas imediatos da actualidade, A Vida Portuguesa, dirigido por Cortesão, a realização de concertos musicais e de importantes ciclos de conferências, quer no campo literário e histórico, quer no científico. António Sérgio, por exemplo, iniciou a sua obra escrita de pedagogo no seio da editora da Renascença Portuguesa, onde dirigiu e animou a ‘Biblioteca de Educação’, e nela publicou em 1920 o primeiro volume dos Ensaios; mesmo depois da Seara Nova, Sérgio continuou a dar colaboração às páginas do órgão da associação. Fruto desta orientação tolerante e desta proficiente actividade, a sociedade contava em finais de 1914 com cerca de duzentos e cinquenta sócios, distribuídos pelo norte e centro do país e pelo Brasil.

O fim da Renascença Portuguesa chegou em 1932 com a publicação do derradeiro número de A Águia (Série V, nº 3, Junho) e o encerramento uns meses antes, em Outubro de 1931, da Faculdade de Letras do Porto, criada por Leonardo Coimbra em 1919 e que funcionou depois da fundação da Seara Nova como o viveiro que gerou uma segunda geração de renascentes (Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro, António Salgado Júnior, Delfim Santos, José Marinho, Manuel Maia Pinto e Sant’Anna Dionísio), que nutriram as novas séries da revista A Águia, dando um segundo fôlego à vida da associação, nomeadamente reanimando os cursos da Universidade Popular do Porto. A Renascença Portuguesa durou vinte anos, nascendo e morrendo com a República. Foi um fruto do espírito libertário e cosmopolitamente situado que surgiu na sociedade portuguesa depois do Ultimatum de 1890 e só em liberdade pôde aspirar o ar puro que o seu sangue vermelho pedia; a atmosfera repressiva da ditadura militar e o salazarismo nascente asfixiaram-na de miasmas nocivos, intoxicando-lhe de vez a seiva verde.

A associação pretendeu dar à República um escol activo e transformador. Foi pendência ganha, pois da Renascença saíram algumas das mais representativas actividades culturais e sociais do período republicano, posto que a independência da associação em relação ao poder político e aos partidos que apoiavam a República fosse princípio intocável e ela não almejasse ser mais do que uma agremiação civil exemplar.

Mas para além deste activo, a Renascença Portuguesa tem a seu favor ser o berço de algumas outras estrelas de primeira grandeza da vida portuguesa do século XX, antes de mais Orpheu (1915) e Seara Nova, cujos projectos se desenharam ou organizaram mesmo dentro da Renascença. Mas também Presença (1927) mostra fortes afinidades com a segunda vaga geracional da Renascença, já que um dos três directores da revista coimbrã, Casais Monteiro, foi um dos derradeiros responsáveis pelo órgão da associação portuense e José Marinho, discípulo dilecto de Leonardo, aparece como o mais valioso colaborador no domínio das ideias da folha publicada em Coimbra. Demais, tanto José Régio como João Gaspar Simões, os dois nomes fortes da Presença, colaboraram nas duas últimas séries da revista portuense (1928-1932), o primeiro com regularidade certa, fruto decerto da convivência próxima que mantinha com Marinho e Sant’Anna Dionísio. Por fim, registe-se que a última publicação da Renascença Portuguesa, a revista Princípio (4 números, 1930), dirigida por Adolfo Casais Monteiro, Álvaro Ribeiro e Manuel Maia Pinto, saudou no seu manifesto de apresentação Presença como “o grupo que se propõe, em literatura, realizar aquilo que nos propomos realizar em cultura e política”.

E para se perceber a longevidade e o longo alcance do projecto cultural da Renascença Portuguesa assinale-se apenas que um dos acontecimentos culturais mais redimensionantes da sociedade portuguesa que saiu da Revolução dos Cravos, a Nova Renascença, cujo rosto visível foi José Augusto Seabra (1937-2004), reclamou durante mais de duas décadas (1980-2001) o legado vivo da associação republicana portuense, prestando-lhe renovada atenção e dando-lhe dessa e doutras formas continuidade e desenvolvimento.

 

BIBL.: Paulo Samuel, A Renascença Portuguesa – Um Movimento Portuense, Porto, 1988; Paulo Samuel, A Renascença Portuguesa. Um Perfil Documental, Porto, Fundação Engenheiro António de Almeida, 1990; Alfredo Ribeiro dos Santos, A Renascença Portuguesa. Um Movimento Cultural Portuense, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1990; José Augusto Seabra, Por uma Nova Renascença, Lisboa, IN-CM, 2006.

 

 

António Cândido Franco