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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Robert Delaunay e Sónia Delaunay

(1885 – 1941) e (1885 – 1979)

Em 1910 o pintor francês Robert Delaunay casa com Sónia Terk, pintora de origem ucraniana estabelecida em Paris desde 1905. Evoluindo no âmbito do cubismo – que trata, no entanto, de forma muito pessoal – Robert Delaunay adopta, a partir de 1912, um novo conceito de pintura inteiramente centrada na cor: «une peinture qui ne tiendrait techniquement que de la couleur, des contrastes de couleur, mais se développant dans le temps et se percevant simultanément, d’un seul coup». A paixão duradoura de Sónia – sob a influência do fauvismo e do expressionismo – pelas cores puras, marca sem dúvida esta evolução, à qual, aliás, imediatamente se associa. Nasce assim o Orfismo – termo concebido por Apollinaire para designar a démarche artística do casal – ou, segundo os Delaunay, a teoria dos «contrastes simultâneos» ou princípio da «pintura pura». Embora unidos por um ideal estético comum, Robert e Sónia Delaunay seguem cada um o seu próprio rumo. Enquanto Robert se mantém fiel à pintura de cavalete, Sónia, por seu lado, aplica os «contrastes simultâneos» aos domínios da moda, da ilustração (Prose du Transsibérien et de la petite Jeanne de France, com Blaise Cendrars, 1913-1914), da encadernação, da decoração e da publicidade (Zénith, com Blaise Cendrars, 1914), colaborando com os Bailados Russos de Diaghilev em 1918, em Madrid.

A Guerra leva os Delaunay a sair de Paris e a refugiar-se em Espanha e em Portugal. Permanecendo pouco tempo em Lisboa, onde chegam na Primavera de 1915, os pintores estabelecem-se em Vila do Conde (Junho 1915 - Março 1916) – acompanhados por Eduardo Viana cuja pintura influenciam directamente – fixando-se mais tarde, depois de uma curta estadia em Monção, em Valença do Minho (Agosto 1916 - Janeiro 1917). Na sua passagem por Portugal, Sónia e Robert Delaunay relacionam-se com alguns dos nossos modernistas – Eduardo Viana, Almada Negreiros, José Pacheco e Amadeo de Sousa-Cardoso, amigo dos tempos de Paris – com quem tecem diversos projectos nunca actualizados: uma «corporation nouvelle» constituída pelo casal, por Amadeo, Viana, Almada, e Daniel Rossiné que organizaria exposições «mouvantes» e editaria «albums d’art», com a participação de Apollinaire e Blaise Cendrars. Os dois últimos aparecem no entanto, graças a Sónia Delaunay, entre os colaboradores de Portugal Futurista com dois poemas.Também Mário de Sá-Carneiro, em carta a Fernando Pessoa (Paris, 11/8/15), refere a possibilidade de associar Orpheu aos Delaunay, num evento jamais realizado: «no Inverno querem aí fazer um festival em que o nosso Orpheu terá parte. É a gente a explorar para a propaganda da revista no estrangeiro – pois valham o que valerem são gente aqui lançada». Na tábua bibliográfica do Manifesto Anti-Dantas Almada anuncia os «Poèmes Portugais» por «Mme Delaunay-Terk e José de Almada-Negreiros», outra colaboração sem efeito, a par de um «Ballet Véronèse et Bleu», «em preparação», dedicado à artista que Almada tanto admira: assumindo-a como «Mestre» na dedicatória d’A Engomadeira, é segundo o princípio dos «contrastes simultâneos» que compõe os Saltimbancos. Embora sendo poucas as colaborações de facto, a presença dos pintores franceses deixou marcas no meio artístico nacional: influenciando alguns, informando, esclarecendo e estimulando outros.

 

FERREIRA, Paulo, Correspondance de quatre artistes portugais, Almada Negreiros, José Pacheco, Souza-Cardoso, Eduardo Vianna, avec Robert et Sonia Delaunay, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian – Centro Cultural Português, Presses Universitaires de France, 1972; Sonia e Robert Delaunay em Portugal, e os seus amigos Eduardo Vianna, Amadeo de Sousa Cardoso, José Pacheco, Almada Negreiros. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1972; Sonia e Robert Delaunay, catálogo da exposição em Portugal. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982.

 

Sara Afonso Ferreira

 

 

 

DICIONÁRIO

 

Verbetes publicados no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português,

coordenado por Fernando Cabral Martins,

Lisboa, Caminho, 2008.

 

Revistos em 2017.