logotipo Modernismo

  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Congresso Internacional da Crítica

Entre 19 e 28 de Setembro de 1931, decorre em Portugal a 5º edição do Congresso Internacional da Crítica que reúne cerca de setenta das mais prestigiadas figuras mundiais da crítica do teatro e da música, e alguns do cinema, que integram delegações representativas das diversas associações nacionais. A iniciativa é de António Ferro, enquanto Presidente da Associação Portuguesa da Crítica, que havia estado presente, como observador, na edição romena e que, no ano anterior representara, já oficialmente, Portugal na edição de Praga, a que apresentara uma comunicação, depois publicada no volume organizado por Josef Bartos, Procès-verbaux et documents du 4e Congrès International de la Critique, Praga, 1931, conseguindo pôr de pé em poucos meses o evento programado inicialmente para Viena.

No seguimento das edições anteriores (Paris, 1926; Salzburgo, 1927; Bucareste, 1929; Praga, 1930), são analisados o papel da crítica na sociedade, a problemática dos direitos de autor e de críticos, e a possibilidade da criação de uma confederação internacional de críticos que se constitua lugar de reflexão sobre uma ética da crítica e de defesa da independência das suas actividades profissionais, eventualmente alargada aos críticos literários e de arte, e até aos das as emergentes «artes mecânicas» (rádio, cinema, disco), na mira do estabelecimento de uma Carta Internacional do Crítico.

São convidados quinze países, que apresentam delegações com um número variável de membros: Áustria (Paul Stefan, Ernst Devesy), Bélgica (John Van Kessel, François Reynders, Paul Tinel, Gaston L. Huysmans, Honoré Lejeune), Checoslováquia (Rudolf Jeniček, Josef Bartos), Dinamarca (Vigo Calvin. Gustav Hetsch), Espanha (Enrique Diez-Canedo), Estados Unidos (Irving Schwerke, Saul Colin), Estónia (Bernhard Linde), França (James de Coquet, Émile Vuillermoz, Fernand Gregh, Pierre Brisson, Robert Kemp, Gérad Bauër, Étienne Rey, Alexandre Arnoux, Robert Faure, Maurice Bex, Pierre Leroi, Jean Gaudrey-Rety), Grécia (Eleni Urani Negroponte, Kostas Uranis), Hungria (Paul Ignotus, Paul Bella), Inglaterra (Dunton Green, Philip Carr), Noruega (Otto Norman), Polónia (Stanislaw Niewiadomsky, Mateus Glinsk), Roménia (Emil D. Fagure, Henri Blazian, Scarlar Froda, Vasile Timus, Constantin C. Nottara) e Rússia (Vladimir Pozner, Boris de Schloezer), sendo a delegação portuguesa constituída por Eduardo Scarlatti, Matos Sequeira, Rui Coelho, Brito Aranha e Cristóvão Aires.

As teses e notícias do Congresso iam sendo publicadas em forma de relato nos diversos jornais europeus, que designaram alguns dos delegados como seus correspondentes: Le Temps, Le Figaro, L’Ami du Peuple, Les Nouvelles Littéraires, Candide, L’Étoile Belge, L´Horizon, La Libre Belgique, Le Soir. Em Portugal, Eduardo Scarlatti escreveu para a Seara Nova.

A par das delegações oficiais, António Ferro contou com dois convidados de honra: Luigi Pirandello, que ofereceu ao Congresso a peça Sogno, ma forse no, representada no Teatro Nacional, pela Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, com o título Um sonho, ou talvez não, e Darius Milhaud, que apresentou no Congresso uma suite composta em 1920, Saudades do Brasil. Um terceiro convidado desistiu à última hora, alegando cansaço: Bernard Shaw.

A edição portuguesa do congresso primou pela originalidade logística. Constitui-se como itinerante, a partir do Estoril, percorrendo, de comboio e de automóvel, várias localidades do país (Lisboa, Caldas da Rainha, Nazaré, Alcobaça, Batalha, Leiria, Curia, Buçaco, Vila Nova de Gaia, Porto, Matosinhos, Leixões, Braga, Viana do Castelo, Vila do Conde), propondo uma variada oferta cultural, e turística, com sessões de cinema, teatro, música, a par de manifestações folclóricas e de cariz étnico, num perfeito programa de propaganda, que queria colocar Portugal na rota da cultura europeia, com uma imagem de país moderno. Como anedota, refira-se a surpresa de Milhaud ao ler a frase «Viva a Crítica!» inscrita em bandeiras e faixas, num arraial extemporâneo de Alfama.

Durante a semana do Congresso realizavam-se sessões dedicadas às artes, com apresentação de espectáculos, de concertos e de filmes. Na primeira noite, dedicada ao cinema, exibiu-se um programa organizado por António Lopes Ribeiro, composto por Douro, Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira, e A Severa, de Leitão de Barros. O documentário foi vaiado e pateado de forma inusual pelo público, merecendo, no entanto, elogios de parte de alguns críticos estrangeiros.

 

Bibl.: Luiz Francisco Rebello, «Um congresso que dançava» in Jornal de Letras, de 16.02.1987, pp. 22-23; Maria José Lencastre, Con un sogno nel bagaglio. Un viaggio di Pirandello in Portogallo Palermo, Sllerio editore, 2006

 

José Camões

 

 

 

DICIONÁRIO

 

Verbetes publicados no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português,

coordenado por Fernando Cabral Martins,

Lisboa, Caminho, 2008.

 

Revistos em 2017.