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Fundo
Fernando Pessoa
Cota
BNP/E3, 14-3 – 13-14
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[Sobre o carácter do povo português]
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Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre o carácter do povo português]
Titulos atríbuidos
Edição / Descrição geral

[BNP/E3, 143 – 13-14]

 

If we examine carefully what sort of people are the Portuguese when first they defined themselves in history — that is to say, in the period of their first dynasty, which was the one before the imperial dynasty – we shall find a people curiously remarkable for their cultural tendencies, and, is so far as war was concerned, waging it almost always only defensively, and generally unfortunate on the few uncharacteristic occasions when they did otherwise. We find them urging with Provence in their Song-books (Cancioneiros), of a peculiar freshness and originality of inspiration; and we find them – which is better known – producing those romances of chivalry, like Amadis of Gaul which were one of the cultural influences of and in the Middle Age. If anyone were then fit or disposed to make sociological predictions concerning this little country, it would be natural to forecast a development on cultural and literary lines, and of Lisbon that it might came some sort of new Athens, if the prophet were disposed to carry his vaticination to what Nostradamus calls “le plus haut auge d’exaltation.”

If we consider, however, the very peculiar situation of the Land – at the extreme Southwest of Europe –, if we do not forget the cultural tendency so early shown, if we take these two facts together with the “pressure outwards” so to call it, latent in the latter Middle Age, we shall find how natural and historic conditions so naturally explain the great Discoveries; then, in their turn ex-

 

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plain the Empire. For, given the fullness of time which rendered inevitable the exploration of the world, it is natural way it is mental – that the greatest part of such a task should fall to a people so placed as to be on the way threshold of the larger Seas, and so disposed that mental exertion was natural to them – for the discoveries are, in their origin and essence, a scientific, and therefore a mental or cultural phenomenon. The public at large is yet unaware even in Portugal of how stupendous a process of careful thought, of scientific expect of vigilant planning {…} was that not of what the discoveries gradually and progressively arose. Men are taken more by the outward greatness that expresses itself in, or with, daring and splendour than with the deeper greatness of which the other is but the product and the executor. Recent Portuguese investigation is essentially in one even greater consciousness of purpose and vigilance of Portugal being recognized in the life and achievement of Prince Henry the navigator. If men had learnt the first lesson of sociological history, they would, when speaking of the great discoveries, give value inversely separate to their first judgment, to the great name of the Prince – the creator of the modern world – and to the great but lesser name of such executors of his purpose as Dias and Gama, or descendants thereof, as Colombus.

Being thus naturally led to discoveries, the Portuguese fell inevitably into empire. The spirit of the Age, but half science – if as much – for barbarism, which made use and conquest the great acts of greatness and of proves,

 

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the natural {…} by which discovery leads[1] to conquest; the fatal shape by which natural conquest made personal gain possible, and the reflex |notion| by which the love of gain made conquest desirable – all this explains the Portuguese empire with an almost mathematical precision.

 

 

[BNP/E3, 143 – 13-14]

 

Se examinarmos cuidadosamente que tipo de povo são os portugueses quando se definiram pela primeira vez na história - isto é, no período da sua primeira dinastia, que foi a anterior à dinastia imperial - encontraremos um povo curiosamente notável pelas suas tendências culturais e, no que diz respeito à guerra, travando-a quase sempre apenas na defensiva, e geralmente infeliz nas poucas ocasiões atípicas em que agiam de outra forma. Encontramo-los com a Provença nos seus Cancioneiros, de uma peculiar frescura e originalidade de inspiração; e encontramo-los - o que é mais conhecido - produzindo aqueles romances de cavalaria, como os Amadis de Gaula, que foram uma das influências culturais da e na Idade Média. Se alguém estivesse então apto ou disposto a fazer previsões sociológicas sobre este pequeno país, seria natural prever um desenvolvimento em linhas culturais e literárias, e de Lisboa que pudesse surgir uma espécie de nova Atenas, se o profeta se dispusesse a levar o seu vaticínio ao que Nostradamus chama de "le plus haut auge d'exaltation".

Se considerarmos, no entanto, a situação muito peculiar do país - no extremo sudoeste da Europa -, se não esquecermos a tendência cultural tão cedo mostrada, se tomarmos esses dois fatos em conjunto com a “pressão exterior”, por assim dizer, latente na Idade Média tardia, descobriremos como as condições naturais e históricas explicam tão naturalmente as grandes descobertas; então, por sua vez ex- 

 

[13v]

 

plicaremos o Império. Pois, dada a plenitude do tempo que tornou inevitável a exploração do mundo, é natural que seja mental - que a maior parte de tal tarefa recaia sobre um povo colocado de modo a estar no limiar do caminho dos Mares maiores, e de tal modo disposto que o esforço mental fosse natural para eles - pois as descobertas são, na sua origem e essência, um fenómeno científico e, portanto, mental ou cultural. O grande público ainda desconhece, mesmo em Portugal, quão estupendo foi um processo de reflexão cuidadoso, de expectativa científica de planificação vigilante {…} não daquilo de que surgiram gradualmente e progressivamente as descobertas. Os homens são levados mais pela grandeza exterior que se expressa em, ou com, ousadia e esplendor do que pela grandeza mais profunda da qual o outro é apenas o produto e o executor. A investigação portuguesa recente consiste essencialmente numa consciência ainda maior do propósito e vigilância de Portugal sendo reconhecido na vida e na realização do navegador Infante D. Henrique. Se os homens tivessem aprendido a primeira lição da história sociológica, eles, ao falar das grandes descobertas, dariam valor inversamente separado ao seu primeiro julgamento, ao grande nome do Infante - o criador do mundo moderno - e ao grande, mas nome menor de tais executores, do seu propósito como Dias e Gama, ou os seus descendentes, como Colombo.

Sendo assim naturalmente conduzidos a descobertas, os portugueses caíram inevitavelmente no império. O espírito da época, mas meia ciência - se tanto - para a barbárie, que se valeu e conquistou os grandes actos de grandeza e de provas, 

 

[14r]

 

o natural {…} pelo qual a descoberta leva à conquista; a forma fatal pela qual a conquista natural tornou possível o ganho pessoal, e o |noção| reflexa pela qual o amor ao ganho tornou a conquista desejável - tudo isso explica o império português com uma precisão quase matemática.

 

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