Imprimir

Medium

Fundo
Fernando Pessoa
Cota
BNP/E3, 14-2 – 36
Imagem
[Sobre poesia]
PDF
Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre poesia]
Titulos atríbuidos
Edição / Descrição geral

[BNP/E3, 142 – 36]

 

Not being a bit convinced by his impudent invention of a name, I continued to examine the composition before me, but, getting no nearer to the sense, I contented myself with praising it, and especially commending the originality of the treatment. On handing back the paper to my friend, as he glanced at it to show me something particular, his face suddenly fell and looked puzzled.

“Hang it”, said he, “I gave you the wrong paper. This is only the tailor’s bill”......!!!

Let the poetic critic take as a lesson this most unhappy episode.

On that bane of poetical feeling, blank verse, I shall only touch lightly, but as several friends of mine have repeatedly asked me for the formula or recipe for its production, I hereby communicate the directions to those of my readers who are so far gone. To tell the truth, there is not, in the whole range of poetry anything easier to produce than blank verse. The first thing to do is to procure yourself ink, paper, and a pen; then write down, in the ordinary, commonplace language you speak (technically called prose) what you wish to say or, if you are clever, what you think; the next step is to lay hands upon a ruler graduated in inches or centimetres, and mark off, from your prose effusion, bits each about four inches or ten centimetres long; these are the lines of your blank verse composition. In case the four-inch line does not divide into the prose effort without remainder, either the addition of a few Alases or Ohs, or Ahs, or the introduction of an invocation to the Muses will fill in the required space; but if you turn back a little in this

 

[36v]

 

essay, you will find that the most legitimate remedy is to suppose that some of the lines or the last lines only, have been amputated by the poetical license I have minutely described. Never mind about the scansion of your blank verse; good or bad the critics will find in it the most outrageous flaws, but, if in time you attain the poetical greatness, you will find, to your astonishment, that the same gentlemen justify every idiotry you have committed and turn your most horrid flaws into mere peculiarities of genius.

Before taking leave of this part of my essay I beg to point out to the reader that, in this, the age of Kipling, there is no restriction as to the length of a line in poetry; you can write lines of two, three, four, ten, twenty, thirty syllables, or more, that is of the least import, only when the lines of a poem contain more than a certain number of syllables that composition is more generally said to be written in prose.

 

_______

I now turn to the very least essential thing in poetry, which I take purposely last – I refer to the thought or sense of the poem. Critics in olden times were indeed accustomed to place this before all things, but in this enlightened age such an ideal of the poetical art would be a most lamentable anomaly. The reason for this is simple: a poem need not have sense or thought, for how would the readers of poetry, especially the young ladies, understand it? Form is to a poem what form is to woman – the only essential; and however rude and unpoetical that form may be {…}

 

 

[BNP/E3, 142 – 36]

 

Não estando nem um pouco convencido pela impudente invenção de um nome, continuei a examinar a composição diante de mim, mas, não examinando o sentido de um modo mais próximo, contentei-me com elogiá-lo e louvar especialmente a originalidade do tratamento. Ao entregar o papel ao meu amigo, enquanto ele o observava para me mostrar algo em particular, o seu rosto subitamente esmoreceu e pareceu-me intrigado.

“Toma-o”, disse ele, “Entreguei o papel errado. Isto é apenas a conta do meu alfaiate”......!!!

Que o crítico poético aprenda uma lição deste muito infeliz episódio.

Nessa desgraça do sentimento poético, o verso branco, tocarei apenas de leve, mas como muitos amigos meus me têm repetidamente perguntado pela fórmula ou receita da sua produção, comunico, pelo presente modo, as direcções àqueles de entre os meus leitores que chegaram a este ponto. Para dizer a verdade, não existe, em todo o domínio da poesia, nada mais fácil de produzir do que o verso branco. A primeira coisa a fazer é procurar tinta, papel e uma caneta; em seguida, anotar, na língua corrente em que se fala (tecnicamente chamada prosa) o que se deseja dizer, ou, se for inteligente, o que se pensa. O próximo passo é colocar as mãos sobre uma régua graduada em polegadas ou centímetros e marcar, a partir da efusão de prosa, pedaços de cerca de quatro polegadas ou dez centímetros de comprimento: estas são as linhas do verso branco da sua composição. No caso de a linha de quatro polegadas não se dividir no esforço da prosa sem algum outro elemento, a adição de uns Ais, Ohs ou Ahs, ou a introdução de uma invocação às Musas preencherá o espaço requerido. Mas se se recuar um pouco neste

 

[36v]

 

ensaio, descobrirá que o remédio mais legítimo é supor que algumas das linhas, ou apenas as últimas, foram amputadas pela licença poética que descrevi minuciosamente. Não nos preocupemos com a escansão do seu verso branco; bem ou mal, os críticos encontrarão nele as mais ultrajantes falhas, mas se, com o tempo, atingir grandezas poéticas, encontrará, para seu espanto, os mesmos senhores justificando todas as idiotices que cometeu e transformando as suas falhas mais horríveis em meras peculiaridades de génio.

Antes de me despedir desta parte do meu ensaio, gostaria de assinalar ao leitor que, nesta era de Kipling, não existe nenhuma restrição quanto ao comprimento de uma linha em poesia; podemos escrever linhas de duas, três, cinco, dez, vinte, trinta sílabas ou mais, que não tem a menor importância; apenas quando as linhas de um poema têm mais do que um certo número de sílabas, se diz que essa composição está escrita em prosa.

_______

Agora volto-me para a coisa menos essencial na poesia, que refiro de propósito no fim - refiro-me ao pensamento ou sentido do poema. Os críticos dos tempos antigos estavam de facto acostumados a colocar isto antes de todas as coisas, mas nesta era iluminada, tal ideal da arte poética seria uma anomalia das mais lamentáveis. A razão para isto é simples: um poema não precisa de ter sentido ou pensamento, pois como é que os leitores de poesia, especialmente as jovens, o entenderiam? A forma é para um poema o que a forma é para a mulher – o estritamente essencial; e por mais rude e pouco poético que seja essa forma {…}

 

Notas de edição

Apontamento manuscrito preparatório de um fragmento dactilografado do “Essay on Poetry”, com a cota: BNP/E3, 100 – 10–23.

Identificador
https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/4288

Classificação

Categoria
Literatura
Subcategoria

Dados Físicos

Descrição Material
Dimensões
Legendas

Dados de produção

Data
Notas à data
Datas relacionadas
Dedicatário
Destinatário
Idioma
Inglês

Dados de conservação

Local de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Estado de conservação
Proprietário
Historial

Palavras chave

Locais
Palavras chave
Nomes relacionados

Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Exposições
Itens relacionados
Bloco de notas