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Fundo
Fernando Pessoa
Cota
BNP/E3, 14C - 51
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[Sobre Milton]
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Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre Milton]
Titulos atríbuidos
Edição / Descrição geral

[BNP/E3, 14C – 51]

 

The reason why Milton is not appreciated is that why Shakespeare is. At all times, and the more |so| the nearer we come to ours, men have had little ability to concentrate their attention. In modern time, their inability has reached, where it has not positively passed, what Culler calls the frontiers of disease. Now a poem like Paradise Lost which, besides being long, is so perfectly ordered and constructed that it has to be grasped as a developed whole to be properly appreciated (and not merely tasted at its “|purple patches|”), makes very large demands on our attention and on our concentration, first; and, after, on the still rarer qualities involved in grasping a unified whole not schematically, but through the several interdependent parts through which it is manifested. Besides this which meets the common man, and still more the common modern, at all points of his psychic disabilities, the subject of Paradise Lost, set up above humanity and humanness, needs a further straining of the imagination to accompany, without loss of health, the poet in such rarefied atmospheres.

 

[51v]

 

Now, any drama of Shakespeare’s is short – as any drama necessarily is –. It is so badly constructed that no demand is ever made on the imagination to seize it as an ordered whole. Details figure in it which, though in themselves {…} interesting or beautiful, have no artistic reason to be where they are, not serving any purpose in the development of the drama[1]. The reader goes on as the play goes on, and the poet’s imagination being by nature incapable of increasing a perfect whole, the idlest reader easily falls in with the author’s desultoriness and aesthetic laissez-faire.

The author moves so irregularly that no reader feels the need of keeping step with him.

It deals with human passions and human cares and joys, nowhere rising above man except in such figures of Hamlet, which are naturally accepted as superior; there is the warmth of human things in them; the reader is among friends.

 

It is Shakespeare’s disgrace, as it is that of the romantics, that he writes for women, who are not of evolutional importance in civilization; Milton writes for men. His qualities, nobility, solemnity and {…}, purity of mind (as of body) are the very qualities which women only do not appreciate, but positively (and rightly) detest. If any one doubts this, let him go out to meet his feminine friends with these qualities on, and ask himself afterwards how many feminine friends he has left.

 

 

[BNP/E3, 14C - 51]

 

A razão pela qual Milton não é apreciado é aquela pela qual Shakespeare é. Em todos os tempos, e tanto mais |assim é| quanto mais nos aproximamos do nosso, os homens têm pouca habilidade para concentrar a sua atenção. Nos tempos modernos, a sua incapacidade atingiu, onde ainda não passou positivamente, o que Culler chama de fronteiras da doença. Ora, um poema como o Paraíso Perdido, que, além de longo, é tão perfeitamente ordenado e construído que deve ser apreendido como um todo desenvolvido para ser devidamente apreciado (e não apenas degustado em suas “|manchas roxas|”), exige muito da nossa atenção e da nossa concentração, em primeiro lugar; e, depois, nas qualidades ainda mais raras envolvidas na apreensão de um todo unificado não esquematicamente, mas por meio das várias partes interdependentes pelas quais ele se manifesta. Além disso, que vai ao encontro daquilo que é o homem comum, e mais ainda o moderno comum, em todos os pontos de suas inaptidões psíquicas, o tema do Paraíso Perdido, colocado acima da humanidade e do humano, precisa de um novo esforço da imaginação para acompanhar, sem perda da saúde, o poeta em tais atmosferas rarefeitas. 

 

[51v]

 

Ora, qualquer drama de Shakespeare é curto - como qualquer drama necessariamente é -. É tão mal construído que nenhuma exigência jamais é feita à imaginação para apreendê-lo como um todo ordenado. Nele figuram detalhes que, embora em si mesmos {…} interessantes ou belos, não têm razão artística para estar onde estão, não servindo nenhum propósito no desenvolvimento do drama. O leitor prossegue enquanto a peça prossegue e, sendo a imaginação do poeta por natureza incapaz de aumentar um todo perfeito, o leitor mais preguiçoso facilmente cai na desorientação e no laissez-faire estético do autor.

O autor move-se de maneira tão irregular que nenhum leitor sente necessidade de acompanhá-lo.

Trata das paixões humanas e dos cuidados e alegrias humanos, em nenhum lugar se elevando acima do homem, excepto nas figuras como a de Hamlet, que são naturalmente aceites como superiores; há o calor das coisas humanas neles; o leitor está entre amigos. 

 

É a desgraça de Shakespeare, assim como a dos românticos, que ele escreva para mulheres, que não têm importância evolutiva na civilização; Milton escreve para homens. As suas qualidades, nobreza, solenidade e {…}, pureza de espírito (como de corpo) são aquelas qualidades que as mulheres não só não apreciam, mas positivamente (e com razão) detestam. Se alguém duvidar disso, deixe-o sair ao encontro de suas amigas femininas com essas qualidades, e depois pergunte-se quantas amigas femininas ele ainda tem.

 

 

[1] drama /(action, fable)\

Notas de edição

Classificação

Categoria
Literatura
Subcategoria

Dados Físicos

Descrição Material
Dimensões
Legendas

Dados de produção

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Idioma
Português

Dados de conservação

Local de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Estado de conservação
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Historial

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Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Rita Patrício, Episódios - Da Teorização Estética em Fernando Pessoa, Braga, Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, 2008, p. 376 [cf. Rita Patrício, Episódios - Da Teorização Estética em Fernando Pessoa, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2012, pp. 409-410].
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