Imprimir

Medium

Fundo
Fernando Pessoa
Cota
BNP/E3, 14C – 9
Imagem
[Sobre Fialho de Almeida]
PDF
Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre Fialho de Almeida]
Titulos atríbuidos
Edição / Descrição geral

[BNP/E3, 14C – 9]

 

Eu peço aos leitores destes folhetos desculpa do que lhes tenho feito ler. Mas noutro tom que não este – estranho a meu – ou poderia ou devia ter escrito. Primeiro, porque assim o pede a natureza e concordância do assunto. Segundo, porque era preciso separar o homem da sua obra, ou, antes, tirar da obra o grosseiro e o infame que no homem havia, deixando lá o genial. Terceiro porque sendo esta a atitude que ele, Fialho, tinha para com os outros, é de uma justiça natural e humana que essa seja a atitude que se tem para com ele. Se de outro modo escrevêssemos parece que ele próprio se ergueria irado do túmulo para nos acusar de lhe ter insultado a memória ou com serenidades, ou com delicadezas ou com aristocratices indignas de porcaria dela. Assim fizemos porque ele assim o pediu, dalém túmulo, porca figura extinta, paul de torpeza e maldade, donde o génio, flor de lótus, espiritualmente cresceu.

É ele próprio que, através de mim[1] a si próprio se julga e se condena. Busco um fim moral – e nisto divirjo dele: quero erguer das ruínas morais daquele ser podre a glória imperecível do seu estilo, a majestade complexa da sua visão genial. E o homem, vil, grosseiro, cheio de vícios de aldeia corrupta e de indelicadezas de provinciano malcozinhado, que se perca e se afunde na lama que se entregou a criar em seu torno. Sejam estas duras e frias palavras as últimas no género Fialho; como de justiça, seja sobre Fialho que elas se escrevam.

E ele, no túmulo, purificado por esta invectiva, seja para nós eternamente, não o reles pederasta sem senso moral nem sentimento de justiça, tão-pouco o pobre aldeão ajanotado pela moda de há dez anos, mas o homem de génio que trouxe um novo modo de sentir as coisas para a literatura portuguesa, o pintor supremo da paisagem alentejana e das almas alentejanas dentro da paisagem. O homem que esqueça e desapareça.

Tomara eu que este estudo – violento porque ácido fénico sobre a sua podridão – purificasse de vez a sua obra, que doravante fosse possível lê-la sem que as manchas do carácter e da cultura imperfeita saltassem aos olhos feridos. Infelizmente

 

[9v]

 

isto é impossível. Elas estão onde ele as pôs e nada as tira de onde elas estão. Que ao menos o leitor desta crónica que depois leia ou releia a obra de Fialho estrangule o seu nojo ou desdém ocasionais com o pensamento que eu aqui de uma vez para sempre fiz justiça à mesquinhez do homem e à grandeza da obra, e que é escusado por isso irritar-se com aquilo a que justiça já foi feita, nem merece já ódio ou rancor o réu que cumpriu sentença.

 

 

----

Não era invertido por complexidade de espírito, como Shakespeare, nem por artificialidade total de alma, como Oscar Wilde. Era-o por pederastia essencial, por falta de senso moral. Era o tipo do invertido de aldeia, do invertido saloio, que pratica a pederastia mais ainda do que a pensa; o invertido físico, rectal, súcubo e porco.

 

Mas um labrego pode ter altos sentimentos de bondade e de justiça; pode sentir fortemente e humanamente. Infelizmente, em Fialho, o que de sensibilidade o facto de ser labrego não excluía, excluía-o a falta de senso moral do pederasta. Sentimento de justiça, nenhum; instinto de sociabilidade, nenhum. As suas figuras humildes tornam-se para ele desprezíveis e reles. Olhem como ele trata Guilherme de Azevedo. Vejam como o pobre protagonista de Os Pobres é malmené por elle! Saem desta atitude às vezes extraordinários efeitos de arte. Mas coexiste com eles um travo de repugnância como que física pelo monstro de amoralidade que escreveu aquilo. É a insociabilidade positiva do degenerado, do louco moral mesmo; a feminiforme alegria do mal alheio que no pederasta absoluto ganha proporções a que doravante só se pode chamar fialhescas.

Lembro o La montagne où je suis né de A. Jolly, essa ignóbil e perfeita canção obscena.

 

[1] mim /(nós)\

Notas de edição

Classificação

Categoria
Literatura
Subcategoria

Dados Físicos

Descrição Material
Dimensões
Legendas

Dados de produção

Data
Notas à data
Datas relacionadas
Dedicatário
Destinatário
Idioma
Português

Dados de conservação

Local de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Estado de conservação
Proprietário
Historial

Palavras chave

Locais
Palavras chave
Nomes relacionados

Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Pauly Ellen Bothe, Apreciações literárias de Fernando Pessoa, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2013, pp. 114-116.
Exposições
Itens relacionados
Bloco de notas