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Fernando Pessoa
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BNP/E3, 14A – 7-10
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[Sobre o poema “Antinous”]
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Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre o poema “Antinous”]
Titulos atríbuidos
Edição / Descrição geral

[BNP/E3, 14A – 7-10]

 

1. We shall discuss, in the first place, the aesthetic problem involved in “Antinous” or, rather, in the denunciation of “Antinous” as immoral. It is said of “Antinous” – as it has been said, from this standpoint, of all artistic works denounced as immoral, and as artistically spoilt by their immorality – that it is a bad poem because it is an immoral poem, or, better, than in so far as it is an immoral it is a bad (i.e. a worthless) one.

As pointed out in our prefatory considerations, we shall though at disadvantage to ourselves, simplify the discussion of this point by assuming, with the accusers, that “Antinous” is immoral, though we do not admit that and shall prove that there is good reason for our not admitting it. But here we say “let us suppose that it is immoral”. The consequence is that “Antinous” immediately disappears from the scene and we are brought face to face with the generic problem of the relations between art and morality, and the discussion of whether the immorality of a |poem| affects its aesthetic value. For, since we have decided, in discussing this point, to concede (however unrightly[1]) that “Antinous” is immoral; if it be proved that the immorality of a poem  in no way affects its aesthetic value, “Antinous”, even if supposed immoral, will escape censure in this respect.

If we have said, in the above paragraph, “any poem” and not “any work of art” it is because the trend of the coming argument will be to establish a distinction between several forms of art, between statues and poems say, in respect to moral values, what is true of the rules to be applied to a poem will be true of the rules to be applied to “Antinous”, for “Antinous” is a poem; {…}

 

[8r]

 

2. Any product of social human activity, be it a statue, a bridge or an election, is susceptible of being discussed under 3 heads – one being the laws of the particular technics, the art or the science, to which it or its {…}, belongs; the other, the |laws| of the type of mind which produces it; the third, the social conditions in which, through which or for which it is produced. Thus a statue can, first, be considered from the standpoint of aesthetics; a bridge from the standpoint of engineering, and an election from the standpoint of “practical” politics. A statue, a bridge, and an election, can then be considered psychologically – that is to say, by an analysis of the type of mind which conceived the statue or built the bridge or |*directed| the nation. Lastly, either of the 3 products chosen for examples can be considered from a sociological standpoint.

Our case is with a poem, or, rather, with poems in general. Our case it to analyse scientifically the relations between art and morality in poetry. We have then three successive inquiries to conduct: the aesthetic one, which is, Whether the immorality of a poem, objectively considered, in any way affects the beauty of a poem, objectively considered?; the psychologic one, which is, Whether the corruption of the moral faculties of the artist does not involve a parallel, co-affected, or {…} corruption of his artistic faculties?; and the sociologic one, which is, Whether the inadaptation to social environment presumptively involved in the writing of an immoral poem does ­- and how far does it if it do – imply or cause an artistic deficiency in the poet?

Yet, all the time, one essential point should not be lost sight of: while we are discussing this problem under the heads of aesthetics, psychology and sociology, these are subdivisions of the problem, they are subordinated to a general aesthetic

 

[9r]

 

analysis. The purely sociologic, the purely psychologic discussions of the problem, will come later, in the second and third sections of this book. So, keeping in mind the fact that our investigation is at this moment primarily aesthetic and only subordinately[2] psychological and sociologic, we are at once enabled to simplify a great part of the question.

For, leaving the aesthetic subdivision intact, for it is directly descended from the primary division itself, let us inquire into the questions put as constituting the psychological and the sociological problem, from the aesthetic standpoint.

When, as the psychologic-aesthetic question to be analysed, we say that it is, whether the immorality of an author affects subjectively his artistic faculties, we obviously do not refer to works of his into which that immorality does not pass, in which it is not expressed. That would be a purely psychologic, a purely moral, nowise[3] an aesthetic problem. The relations between the arrant scoundrelism of Sallust and the beauty or perfection of his histories, in which that scoundrelism is not expressed, constitute a problem purely moral, purely psychologic. For it to become an aesthetic, though still a psychologic, problem, the immorality must be objective, that is, must be in the book itself, not the immorality of the author as man, but of the author as man. So the

 

[10r]

 

question becomes: Do the faculties involved in writing an immoral poem, quâ immoral, affect those involved in writing a poem, quâ poem, if so, in what or to what extent? Now the poet who writes the poem is either himself immoral, has the vice or immorality which he has expressed in the poem; or he is not, and has not that vice or immorality. In the first case, we must ask whether he considers that vice as a good or an evil thing. If he considers it a good thing, not a vice at all, we are again at the case of Sallust; for {…}

 

 

[BNP/E3, 14A – 7-10]

1. Discutiremos, em primeiro lugar, o problema estético envolvido em “Antínoo” ou, antes, na denúncia de “Antínoo” como imoral. Diz-se de “Antínoo” - como já foi dito, desse ponto de vista, de todas as obras artísticas denunciadas como imorais e artisticamente prejudicadas pela sua imoralidade - que é um mau poema porque é um poema imoral, ou, melhor, que é mau (isto é, sem valor) na medida em que é imoral.

Conforme assinalado nas nossas considerações preliminares, devemos, embora em desvantagem para nós mesmos, simplificar a discussão deste ponto assumindo, tal como os acusadores, que “Antínoo” é imoral, embora não o admitamos e provemos que há uma boa razão para não o admitirmos. Mas aqui dizemos “suponhamos que seja imoral”. A consequência é que “Antínoo” desaparece imediatamente de cena e somos colocados frente a frente com o problema genérico das relações entre arte e moral, e a discussão sobre se a imoralidade de um |poema| afecta o seu valor estético. Pois, uma vez que decidimos, ao discutir este ponto, conceder (mesmo que incorrectamente) que “Antínoo” é imoral; se ficar provado que a imoralidade de um poema em nada afecta o seu valor estético, “Antínoo”, mesmo que se suponha imoral, escapará à censura a esse respeito.

Se dissemos, no parágrafo anterior, “qualquer poema” e não “qualquer obra de arte”, é porque a sequência do argumento virá estabelecer uma distinção entre várias formas de arte, digamos, entre estátuas e poemas, no que diz respeito aos valores morais, o que é verdadeiro para as regras a serem aplicadas a um poema, será verdadeiro para as regras a serem aplicadas a “Antínoo”, pois “Antínoo” é um poema; {…}

 

[8r]

2. Qualquer produto da actividade social humana, seja uma estátua, uma ponte ou uma eleição, é susceptível de ser discutido sob 3 pontos de vista - sendo um deles as leis da técnica particular, a arte ou a ciência, às quais ele ou o seu {…}, pertence; o outro, as |leis| do tipo de mente que o produz; a terceira, as condições sociais em que, por meio das quais ou para as quais é produzida. Assim, uma estátua pode, em primeiro lugar, ser considerada do ponto de vista estético; uma ponte do ponto de vista da engenharia e uma eleição do ponto de vista da política “prática”. Uma estátua, uma ponte e uma eleição podem então ser consideradas psicologicamente - isto é, por uma análise do tipo de mente que concebeu a estátua ou construiu a ponte ou |*dirigiu| a nação. Por fim, qualquer um dos 3 produtos escolhidos como exemplos pode ser considerado do ponto de vista sociológico.

O nosso caso diz respeito a um poema, ou melhor, a poemas em geral. O nosso caso diz respeito à análise científica das relações entre arte e moral na poesia. Temos, então, três investigações sucessivas a realizar: a estética, que é, se a imoralidade de um poema, considerada objectivamente, afecta de alguma forma a beleza de um poema, considerada objectivamente?; a psicológica, que é, se a corrupção das faculdades morais do artista não envolve uma corrupção paralela, co-afectada ou {…} de suas faculdades artísticas?; e a sociológica, que é: se a inadaptação ao ambiente social presumivelmente envolvido na escrita de um poema imoral implica ou causa - e, se assim for, até que ponto - uma deficiência artística no poeta?

No entanto, a todo o momento, não se deve perder de vista um ponto essencial: enquanto que estamos discutindo este problema sob os pontos de vista da estética, da psicologia e da sociologia, essas são subdivisões do problema, estão subordinadas a uma análise estética geral.

 

[9r]

 

As discussões puramente sociológicas e puramente psicológicas do problema virão mais tarde, na segunda e terceira seções deste livro. Assim, tendo em mente o facto de que a nossa investigação é neste momento principalmente estética e apenas subordinadamente psicológica e sociológica, somos imediatamente capazes de simplificar grande parte da questão.

Pois, deixando intacta a subdivisão estética, uma vez que ela deriva directamente da própria divisão primária, investiguemos as questões que constituem o problema psicológico e sociológico, do ponto de vista estético.

Quando, tal como a questão psicológico-estética a ser analisada, dizemos que acontece, se a imoralidade de um autor afecta subjectivamente as suas faculdades artísticas, obviamente não nos referimos a obras suas nas quais essa imoralidade não ocorre, nas quais ela não é expressa. Isso seria um problema puramente psicológico, puramente moral, de forma alguma um problema estético. As relações entre a biltragem arrogante de Salústio e a beleza ou perfeição das suas histórias, nas quais essa biltragem não se expressa, constituem um problema puramente moral, puramente psicológico. Para que se torne um problema estético, embora ainda psicológico, a imoralidade deve ser objectiva, ou seja, deve estar no próprio livro, não a imoralidade do autor como homem, mas do autor como homem. Então

 

[10r]

 

a questão torna-se: as faculdades envolvidas em escrever um poema imoral, enquanto imoral, afectam aquelas envolvidas em escrever um poema, enquanto poema, se sim, em quê ou até que ponto? Ora, o poeta que escreve o poema ou é imoral, tem o vício ou a imoralidade que expressou no poema; ou ele não é imoral, e não tem esse vício ou imoralidade. No primeiro caso, devemos perguntar se ele considera esse vício como uma coisa boa ou má. Se ele o considera uma coisa boa e de forma nenhuma como um vício, estamos novamente no caso de Salústio; pois {…}

 

 

 

[1] unrightly /wrongly\

[2] subordinately /(secondarily)\

[3] nowise /in no detail\

Notas de edição

Classificação

Categoria
Literatura
Subcategoria

Dados Físicos

Descrição Material
Dimensões
Legendas

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Inglês

Dados de conservação

Local de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
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Nomes relacionados

Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Fernando Pessoa, Poemas Ingleses, Tomo I, Edição de João Dionísio, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1993, pp. 133-135.
Exposições
Itens relacionados
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