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Fundo
Fernando Pessoa
Cota
BNP-E3, 19 - 43
Imagem
Erostratus
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Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
Erostratus
Titulos atríbuidos
Edição / Descrição geral

[19 – 43]

 

Erostratus.

 

Wit is common and generally human. If anyone doubt this, he need but buy a copy of “Answers”, and read the winning phrases in a contest of wit, which they call “Nuggets”. There quite obscure persons have flashes of wit which, as wit, could be cited to the honour of an acknowledged genius in it.

 

I have often reflected how wise are the sayings of Goethe in his conversations with Eckermann. But I have also often reflected how many sayings equally wise I have heard in the course of my life, in conversations with people who, however intelligent, were hardly candidates for Goethes.

 

Again, ideas are common, even brilliant ideas. The world is always overpacked with geniuses of the casual. It is only when the casual becomes the universal by intense concentration on it, by extensive working of it into consequences and conclusions, that right of entry is gained into the mansions of the future.

 

It is this consideration that does to a great extent stultify, in point of definite survival, the critical efforts of an Arnold, of a Lytton Strachey, of an Aldous Huxley. They are all extremely clever; they are all, more or less, impatiently incoherent. There is perhaps more wisdom, or worldly wisdom, as such, in a book by Aldous Huxley than in all Spencer. But Spencer will be remembered, though unread, a thousand years from now; and of Aldous Huxley there will be neither reading nor remembering.

 

Because we come ever to the central point of all triumph, be it against the adversity of circumstances or the inertia of the future: will, and will only, makes us win. Will only will convert our casual thought into a system and thus give it a body; will, and will only, will lift our happy phrase into a doctrine of that happiness. Many men throw out phrases which contain in germ great Kantisms; but only Kants expand the phrases into the greatness of worlds. The greatness of a phrase of Goethe lies in that it is not the phrase itself, but the consequence of genius.

 

There is a great Portuguese poet called Cesario Verde; he lived in the middle years of the nineteenth century. The whole attitude to life which makes him a great poet can actually be found in anticipation in two casual poems of Guilherme Braga, a poet ten years older than he. But what in Cesario is gathered together into a whole concept of the universe was a mere chance in Braga’s production. And, even if, as is quite probable, Braga’s casual poems made Cesario

 

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find himself, even if by a plagiarism without plagiarism, the earlier man is nevertheless smaller. It is the later man who is the earlier.

 

These things are generally rated quite accurately by posterity. That is why posterity registers Wilde’s wit and forgets the equal wit of Jones or Smith in the train. One phrase is Wilde’s, the other is anybody’s. Why should I be poorer than that rich man?, ask the innocents. Because he is organically born to be rich.

 

 

[19 – 43]

 

Heróstrato.

 

A sagacidade é comum e geralmente humana. Se alguém duvida disto, precisa apenas de comprar um exemplar de “Answers” e ler as frases vencedoras de uma competição de sagacidade, que eles chamam “Nuggets”. Lá, pessoas bastante obscuras têm rasgos de sagacidade que, enquanto sagacidade, poderiam ser citados para a honra de um reconhecido génio nisso.

 

Tenho com frequência reflectido sobre quão sábios são os ditos de Goethe nas suas conversações com Eckermann. Mas tenho também reflectido muitas vezes sobre quantos ditos igualmente sábios tenho ouvido no curso da minha vida, em conversações com pessoas que, embora inteligentes, dificilmente seriam candidatos a Goethes.

 

Mais uma vez, as ideias são comuns, mesmo as ideias brilhantes. O mundo encontra-se sempre sobrelotado de génios do casual. É apenas quando o casual se torna universal pela intensa concentração nele, pelo extenso trabalho dele nas suas consequências e conclusões, que se ganha a correcta entrada nas mansões do futuro.

 

É esta consideração que, em grande medida, impede, no que respeita à sobrevivência definitiva, os esforços críticos de um Arnold, de um Lytton Strachey, de um Aldous Huxley. São todos extremamente inteligentes; são todos, mais ou menos, impacientemente incoerentes. Existe talvez mais sabedoria, ou sabedoria mundana enquanto tal, num livro de Aldous Huxley do que em todo o Spencer. Mas Spencer será lembrado, embora não lido, daqui a mil anos; e de Aldous Huxley não haverá nem leitura nem recordação.

 

Porque chegamos sempre ao ponto central de todo o triunfo, seja contra a adversidade das circunstâncias ou a inércia do futuro: a vontade, e apenas a vontade, faz-nos vencer. Apenas a vontade converterá o nosso pensamento casual num sistema, dando-lhe assim um corpo; a vontade, e apenas a vontade, erguerá a nossa frase feliz numa doutrina dessa felicidade. Muitos homens proferem frases que contêm em germe grandes kantismos; mas apenas os Kants expandem as frases na grandeza de mundos. A grandeza de uma frase de Goethe reside não em ser uma frase, mas a consequência do génio.

 

Existe um grande poeta português chamado Cesário Verde; viveu em meados do século XIX. Toda a atitude de vida que faz dele um grande poeta pode, com efeito, ser encontrada antecipadamente em dois poemas casuais de Guilherme Braga, um poeta dez anos mais velho do que ele. Mas aquilo que em Cesário é reunido em todo um conceito do universo era um mero acaso na produção de Braga. E mesmo se, como é muito provável, os poemas casuais de Braga fizeram com que Cesário

 

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se tivesse encontrado, ainda que por um plágio sem plágio, o homem anterior é, contudo, inferior. É o homem posterior que é anterior.

 

Estas coisas são geralmente avaliadas muito rigorosamente pela posteridade. É por isso que a posteridade regista a sagacidade de Wilde e se esquece das frases igualmente sagazes ditas por um Jones ou um Smith no comboio. Uma frase é de Wilde, a outra é de qualquer pessoa. Porque deverei ser mais pobre do que aquele homem rico?, perguntam os inocentes. Porque ele nasceu organicamente para ser rico.

 

Notas de edição
Identificador
https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/2480

Classificação

Categoria
Literatura
Subcategoria

Dados Físicos

Descrição Material
Dimensões
Legendas

Dados de produção

Data
Notas à data
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Dedicatário
Destinatário
Idioma
Inglês

Dados de conservação

Local de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Estado de conservação
Proprietário
Historial

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Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Edições Ática, 1966, pp. 187-188.
Exposições
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