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Fernando Pessoa
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BNP-E3, 19 – 10–12
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[Sobre o processo criativo]
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Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre o processo criativo]
Titulos atríbuidos
Edição / Descrição geral

[19 – 10–12]

 

A inteligência elabora elementos vindos do exterior, isto é, trabalha sobre dados dos sentidos. Esses dados são de três espécies – os que são propriamente sensações, dados directos dos sentidos; os que resultam da transmissão directa de sensações e impressões alheias, colhida no convívio social; e os que resultam de influências indirectas, impressões colhidas em livros, em museus, em laboratórios. Os dados directos dos sentidos são, em si mesmos, necessariamente limitados, pois cada um de nós é só quem é: não vê senão com os próprios olhos, nem ouve senão com os próprios ouvidos. Não vemos nem ouvimos bem e profundamente senão quando a inteligência, ampliada pelos outros dois factores ou por qualquer deles, amplia as nossas sensações, com as quais insensivelmente colabora. Vemos e ouvimos melhor – no sentido de mais completa e interessantemente – quanto mais ampla e informada é a inteligência que está por trás do nosso ver e ouvir. Por isso com razão disse Blake: “Um néscio não vê a mesma arvore que vê um sábio”.[1]

 

Segue, pois, que os dados do exterior serão tanto mais completos e sugestivos quanto maior for a formação da inteligência pelas impressões colhidas no convívio social, e[2] pelas impressões colhidas em livros, em museus, em laboratórios. À soma das primeiras impressões chamamos vulgarmente experiência, cultura à soma das segundas. Estes dois elementos, directo e indirecto, reflectem-se um no outro: o convívio social será um elemento importante ou não na formação mental conforme a cultura da sociedade com que se convive. A cultura é o elemento importante – quer se receba directamente, pela literatura ou o estudo, quer se receba indirectamente, pelo convívio com os que a têm. “Só um parvo”, disse Bismarck, “aprende pela experiência; eu aprendi sempre na experiência alheia”.

 

[11r]

 

A cultura, porém, não é um resultado inevitável; não existe se não houver no indivíduo a capacidade de cultura, e existe no indivíduo, como resultado, na proporção em que existe essa capacidade. A cultura é um alimento mental, e o alimento, para que nutra, tem que ser assimilado. Assim o a que chamamos um homem culto é aquele que tem a capacidade de assimilar cultura, de transmudar as influências culturais em matéria própria do seu espírito, e o que de facto adquire essas influências. De resto, a capacidade de cultura leva o indivíduo inevitavelmente a procurar cultura.

 

Há três tipos de cultura – a que resulta da erudição, a que resulta da experiência translata, e a que resulta da multiplicidade de interesses intelectuais. A primeira é produzida pelo estudo paciente e aturado, pela assimilação sistematizada dos resultados desse estudo. A segunda é produzida pela rapidez e profundeza naturais do aproveitamento do que se lê ou vê e ouve. A terceira é produzida, como se disse, pela multiplicidade de interesses intelectuais: nenhum será profundo, nenhum será dominante, mas a variedade alargará o espírito. Daremos exemplos de todas do como existiram em três grandes poetas: vemos a primeira em Milton, que se preparou conscientemente para a sua obra poética – qualquer que houvesse de ser, pois em jovem não sabia qual seria – pela posse do grego, do latim, do hebreu e do italiano (todos os quais não só lia mas escrevia), e pelo estudo dos clássicos em as duas primeiras línguas. Vemos a segunda em Shakespeare, pessoa pouco lida e estudada, mas intenso e profundo em aproveitar tudo que via e ouvia, a ponto de involuntariamente simular uma erudição que verdadeiramente não tinha. Vemos a terceira em Goethe, que nem tinha a erudição de Milton nem a ultra-assimilação de Shakespeare, mas cuja variedade de interesses, abrangendo todas as artes e quase todas as ciências, compensava na universalidade o que perdia em profundeza ou absorção. 

 

[12r]

 

Um poeta que saiba o que são as coordenadas de Gauss tem mais probabilidade de escrever um bom soneto de amor do que um poeta que o não saiba. Nem há nisto mais que um paradoxo aparente. Um poeta que se deu ao trabalho de se interessar por uma abstrusão matemática tem em si o instinto da curiosidade intelectual, e quem tem em si o instinto da curiosidade intelectual colheu por certo, no decurso da sua experiência da vida, pormenores do amor e do sentimento superiores aos que poderia ter colhido quem não é capaz de se interessar senão pelo curso normal da vida que o afecta – a manjedoura do ofício e a arreata da submissão. Um é mais vivo que o outro[3]; pelo menos como poeta: de aí a relação subtil entre as coordenadas de Gauss e a Amarílis do momento.

 

 

[1] “Um néscio não vê a mesma arvore que vê um sábio”. /(Um néscio e um sábio não vêem a mesma arvore).\

[2] e /(ou)\

[3] a manjedoura do ofício e a arreata da submissão. Um é mais vivo que o outro /a manjedoura das horas e a arreata do dia e da noite. Um é um homem que é poeta, o outro um animal que faz versos.\

 

Notas de edição

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Literatura
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Português

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Biblioteca Nacional de Portugal
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Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Edições Ática, 1966, pp. 129-131.
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