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Fernando Pessoa
Cota
BNP-E3, 18 – 82–90
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[Sobre o drama]
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Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre o drama]
Titulos atríbuidos
Edição / Descrição geral

[BNP/E3, 18 – 82–90]

 

I.

 

O drama, como todo objectivo, compõe-se organicamente de três partes – das pessoas ou caracteres; da entreacção dessas pessoas; e da acção ou fábula, per meio e através da qual essa entreacção se realiza, essas pessoas se manifestam. Produto subjectivo assim composto, o drama provém de três qualidades – do instinto psicológico, que cria e informa os caracteres, e depois os vai descobrindo uns per meio dos outros; do instinto dramático, que inventa ou renova a fábula, e dispõe o seu seguimento; do instinto artístico, que ordena a operação dos outros dois na construção harmónica do todo, como na execução formal de cada parte.

Ao dramaturgo, para que de natureza o seja, são necessários estes três instintos; e, para que mereça o nome como valor, um ou outro tem que haver nele em grau notável. Conviria, por certo, que nele existissem todos, não só em grau notável, senão também no mesmo grau; para que a obra fosse, ao mesmo tempo, inspirada e harmónica. Mas a imperfeição da natureza não permitiu ainda que um engenho tal nascesse; seria porventura um monstro de perfeição, o monstrum vitio carens do poeta. Houve, sim, um Shakespeare, psicólogo sem igual, porém artista irregular e dramatista imperfeito; houve um Molière, grande dramatista, porém artista e psicólogo insuficiente; e outros houve que não esqueço, e omito. Só os gregos, num nível que na psicologia não é o de Shakespeare, nem na arte da acção podia ser o de Molière, fruíram[1], pelo instinto de harmonia que os distinguiu como povo, a posse pura daquelas três qualidades – predominando, contudo, a artística – em quase igual plenitude.

 

II.

 

Àquelas três qualidades chamei[2] instintos, como, com diferente propriedade, poderia[3] ter chamado intuições. Entendi[4], em primeiro lugar, empregar um termo onde[5] logo se visse que são, não faculdades distintas da inteligência, movidas de fora pela vontade, e por isso, como não sofrem alteração, impotentes para exceder os limites próprios da inteligência, que por natureza compreende mas não cria; porém aplicações diferentes da mesma inteligência, que, informada por impulsos distintos da índole, se consubstancia com eles, para que operem, tomando de cada um a sua distinção especial, como também a sua qualidade genérica, que é a de criar.

Se dos dois termos aplicáveis elegi[6], como melhor, o de instinto, foi porque a esta razão uma outra ainda se juntou. Não há dramaturgo verdadeiro, sem que exista nele em grau notável uma ou outra daquelas qualidades; e são necessariamente, como acabámos de ver, não faculdades da inteligência, senão disposições da índole. Quando, porém, uma disposição da índole existe em nós em grau notável, e portanto de modo que determina o carácter e as inclinações[7], essa qualidade, por tal ser, denota que é uma fixação da hereditariedade, embora por variação, e que por isso em tudo se assemelha – mais, se identifica – a um[8] instinto.

Como os três instintos do dramaturgo, além do que seja comum a todos os instintos, têm de próprio, vista a sua aplicação, o seu uso necessário da inteligência, com exactidão poderemos chamar instintos intelectuais. Com o emprego deste termo

 

[82v]

 

não esqueceremos, nem que são instintos, para que constantemente oponhamos a sua operação à operação da inteligência, quando a mova só a vontade consciente; nem que são intelectuais, para que, quando essa oposição se faça, se não esqueça que é a substância da qualidade operante, e não o meio per que opera, o por onde ela se distingue da inteligência.

 

[83r]

 

III.

 

Quando, guiados por estes princípios (e per que outros, que não estes, nos guiaríamos?), nos propomos determinar, como críticos, qual o valor de um dramaturgo ou de uma obra dramática, temos que empreender uma dupla investigação. Investigaremos, primeiro, se deveras se trata de um dramaturgo, se apenas de um escritor dramático; ou, per outras palavras, se o dramaturgo o é de instinto, ou de inteligência; se a obra, produto de um impulso natural da índole, pode, pois que o é, significar um valor do seu género, ou se, simples composição da inteligência, de modo nenhum pode ser mais no género a que pertence, de que uma habilidade da literatura, bem desempenhada embora no que nela seja estranho a esse género.

Feita que seja esta primeira determinação, e quando dela resulte que a obra, com efeito, provém do instinto e não procede[9] da inteligência, teremos que determinar a força do instinto, que se moveu para efeituá-la[10], com o que teremos determinado o valor do autor, como dono desse instinto.

Mas a esta investigação especial e concreta cumpre que preceda a genérica e abstracta, dupla como aquela: qual o sinal necessário, pelo qual se distinga objectivamente um produto do instinto de uma composição da inteligência? qual o sinal gradativo, per onde se meça[11], num produto do instinto, a quantidade ou força do instinto que o produziu?

Esta investigação vamos fazer, e, em um e outro caso, quando feita na generalidade, daremos a sua aplicação especial ao caso da arte dramática. Senhores, por fim, dos esclarecimentos[12] que dela resultem, poderemos, ao menos, obviar um pouco a que o defeito virtual da crítica – que é o ser naturalmente subjectiva – nos desvie de um critério, quanto possível, objectivo e científico.

 

[83v]

 

Como o objecto deste estudo é o drama, e a distinção entre instinto e inteligência se aplicará àquela que existe entre os {…}

 

 

Assim, sendo que é na sua aplicação à criação dramática, que teremos finalmente que distinguir aquelas duas qualidades, e como a criação dramática {…}

 

[84r]

 

IV.

 

Antes, porém, que penetremos no adito mesmo do assunto, não será porventura supérfluo que ministremos alguns esclarecimentos, para que, no curso da leitura do que vai seguir-se, não lembrem dúvidas e objecções que afinal procedam, já do mau entendimento dos termos que se empregam, já do conhecimento imperfeito dos limites, em que este estudo forçosamente tem que recolher-se.

O termo “drama”, como até aqui o empregámos, serviu de designar o género, e não qualquer das suas espécies. Como o que seja dito do género, forçosamente se poderá aplicar à espécie, o que do drama dissemos poderá entender-se da espécie trágica como da cómica, da em prosa como da em verso, da directa ou representativa, que trata das acções humanas e da vida real, como da transferida ou simbólica, em que nem as pessoas são propriamente humanas, nem a acção humanamente compreensível[13]. Não é assim o que do drama diremos. Como não nos propomos escrever aqui um tratado do drama, indicando todas as suas espécies e a cada uma atribuindo os seus distintivos próprios, porém apenas fazer um estudo, cuja aplicação final tem que convir a um drama representativo, especialmente nos ocuparemos dos característicos dessa espécie. Quando, portanto, doravante escrevermos “drama”, muitas vezes poder-se-á entender o género, toda aquela espécie.

Também os termos “instinto” e “inteligência”, de cuja distinção já demos fé, serão diferençados com maior exactidão nos capítulos que vão ler-se; não há mister, portanto, nem teria cabimento, que por-enquanto esclarecêssemos melhor em que se distinguem. Como, porém, ao fazer a distinção exacta entre essas duas qualidades, teremos em vista uma aplicação especial, não nos ocupará efeituar, entre instinto e inteligência, a distinção completa, própria só dum[14] estudo exclusivamente destinado a esse fim. Lembrados, sim, que estudaremos o drama, e que para esse fim estudamos os instintos intelectuais, de cuja operação ele procede, olharemos, mesmo na distinção geral, menos ao em que ela genericamente consiste, de que ao que em que se manifesta nos actos intelectuais, sejam de compreender, sejam de inventar.

Posto isto, para que só possa não compreender quem não possa compreender, podemos dar curso à investigação que determinámos.

 

[85r]

 

V.

 

Distinguem-se a inteligência e o instinto quanto aos objectos, a que se aplicam; aos meios, de que para essa aplicação se servem; e aos fins, a que propriamente se destinam. A distinção primária reside, porém, na da natureza dos seus fins.

A inteligência, como tem por fundamento a consciência, tem por fim o conhecimento ou compreensão, que é o com que a consciência se define; o instinto, como tem por fundamento a vida, tem por fim a acção, que é o em que a vida se manifesta. A inteligência tem por isso por próprio o ser passiva e receptiva, como o é a consciência; o instinto tem por próprio ser activo e criador. A inteligência, ainda quando, como quando elabora ou dispõe, de certo modo crie, como tem por próprio compreender e não criar, não manifesta nos seus produtos outros característicos, que não sejam os que a distinguem como qualidade essencialmente passiva. O instinto, mesmo quando, como no conhecimento intuitivo, de certo modo compreenda, não revela na sua compreensão outros característicos, que não sejam os que o distinguem como qualidade essencialmente activa.

 

[86r]

 

Feita esta distinção quanto aos fins, per meio dela desde logo se efeitua a distinção quanto aos objectos, implícito como está o conhecimento do objecto, a que qualidade necessariamente se aplica, quando se conhece o[15] fim, a que ela necessariamente se destina.

Como tem por fim compreender, a inteligência tem por objecto o geral ou universal; como tem por fim operar, o instinto tem por objecto o particular isto é cada instinto um objecto particular. Não pode haver compreensão – e por isso se diz que não há ciência – do particular, porque a única compreensão que pode haver do particular[16] é a sensação simples. Não pode haver acção sobre o geral, pois que, sendo o geral abstracto, a acção sobre o geral seria a simples intenção de operar, a acção virtual apenas.

Como, pois, tem por objecto o universal, a inteligência tem por qualidade a extensão; como tem por objecto o particular, o instinto tem por qualidade a intensão. E a inteligência, como quanto mais forte mais extensa, quanto mais forte for, mais lenta terá que ser. O instinto, per contra, como quanto mais forte mais intenso, quanto mais forte for, mais rápido será. Só dos dois primeiros pormenores desta distinção há mister, para o nosso fim, que nos ocupemos, sendo[17] que na obra de arte le temps ne fait rien à l’affaire.

|Aplicando este critério para, |na relação com um objecto a compreender ou um produto de compreender|, distinguir as operações da inteligência e do instinto, temos que a inteligência, como por natureza é extensa e ascende ao universal, quanto maior for, com maior número de objectos relacionará aquele em que se emprega; sendo que o instinto, quanto maior for, e por isso mais intenso e concentrado, com menor número de objectos relacionará o que lhe interessa[18], e mais completamente o considerará sozinho. O instinto, pois, quanto mais forte for, mais pronta e exclusivamente se inteirará da essência do objecto, pois que o considera em ele-próprio; a inteligência, quanto mais forte for, mais seguramente resolverá o objecto num sem-número de ligações e de referências, aproximando-se, sim, das suas causas e efeitos, porém |*os seus objectos| afastando-se da sua essência. É por isto que se dá o caso, tantas vezes visto quantas estranhado, de um intuitivo entrar com tamanha segurança na compreensão de um assunto, de que um inteligente, por mais que o considere, e por mais que lhe vá acertando com os acidentes, não alcança a essência[19] verdadeira.|

Distingue-se, pois, o produto, que o é primariamente do instinto, daquele, que o é da[20] inteligência, em que, no primeiro, o essencial está com certeza obtido, o acessório ou acidental possivelmente por obter; sendo que[21], no segundo, o acessório está mais ou menos expresso, o essencial necessariamente por exprimir.

Podemos, já agora, aplicando este princípio à arte dramática, estabelecer em que se distingue o drama, produto do instinto, do drama, composição da inteligência.

Três são, como no começo vimos, as partes objectivas do drama, e às objectivas temos que atender, considerando um produto feito[22]; são elas as pessoas, a entreacção das pessoas e a fábula.

O essencial, quanto às pessoas, é que sejam naturais e humanas, e, como elas se manifestam pelo diálogo, a virtude prima do dramaturgo neste ponto, é que escreve um diálogo natural; quanto à entreacção das pessoas, que provenha de seus caracteres, e não da fábula, que deve ser como a condição, e não a causa, da entreacção; quanto à fábula, que pareça proceder da entreacção dos caracteres e não da invenção do autor, acontecer porque

 

[87r]

 

eles existem e não para que eles existam – que pareça, em resumo[23], ser, não fábula, senão vida.

Parece, sem dúvida, que estes requisitos objectivos dos instintos dramáticos, como são fáceis de expor, serão também fáceis de efeituar; julgareis que uma inteligência prudentemente aplicada conseguirá, sem grande esforço[24] a sua execução. Como em tudo, quanto é do instinto, assim parece e assim não é. Considerai, com crítica segura, qualquer drama vulgarmente célebre; vereis quão poucas vezes o diálogo, a entreacção, a acção, são como a vida, quão poucas a execução do drama apresenta aqueles sinais necessários do produto do instinto. Escritores inteligentes há muitos, porque há muitos homens inteligentes, e que o são ainda mais por serem cultos[25]; o dramaturgo de instinto, porém, tem que o nascer[26], e a natureza é menos pródiga de valores, que os homens de imitação deles.

Ver-se-á isto melhor reparando, depois de nos essenciais do drama, nos seus acessórios. São acessórios principais do drama: quanto às pessoas, que o seu diálogo seja em linguagem inteligível e, quanto caiba, boa; quanto à entreacção das pessoas, que não seja absurda quanto aos seus motivos; quanto à fábula, que seja plausível, e, quanto possa ser, nova. Isto, sim, podereis encontrar, não só, com outras qualidades, nos dramaturgos de instinto que sejam também cultivados, como também, sem essas outras, nos bons escritores que a inteligência, não o destino, fez dramaturgos.

 

[88r]

 

VI.

 

Provado que um dramaturgo o é de instinto, não está com isso provado que ele tenha valor algum como dramaturgo, senão apenas que pode tê-lo. O ser de instinto é a condição do valor, não o valor mesmo. Determinados já, portanto, os sinais necessários, pelos quais se conheça, de-pronto, o produto do instinto, olharemos agora a descobrir qual possa ser o critério seguro, pelo qual, no produto de instinto, se distinga o maior do menor, se determine, de um instinto e por isso de seu dono, quanto vale e porque o vale. Servir-nos-á de guia, para esse descobrimento, a distinção, que falta fazer, quanto à inteligência e ao instinto; é ela a distinção que entre eles há quanto aos meios, de que se servem.

A inteligência, como tem por objecto o universal ou geral, tem necessariamente por meio o particular; como alcançaria ela o universal, senão partindo do particular, que tira da sensação, em que ela se apoia, e que só do particular tem conhecimento? O instinto, como tem por objecto o particular, tem forçosamente por meio o geral, pois como procuraria ele o particular, se não se guiasse pelo geral, que tira da inteligência, per quem se manifesta, e que só no geral tem aplicação?

Como, pois, tem por meio o particular e por natureza a extensão, a inteligência alimenta-se com quanto de particular a alargue, a aumente, a desenvolva, faça com que ela com maior facilidade possa generalizar – ideias particulares, factos concretos, sensações definidas, com que a memória se enche e o raciocínio se instrui. Como, per contra, tem por meio o geral e por qualidade a intensão, o instinto alimenta-se com quanto o concentre, o mantenha, o defina, faça com que ele com maior exactidão opere – não factos, mas resultados; não sensações, porém estímulos; não ideias particulares, senão gerais.

Como a inteligência tem por objecto o universal ou geral e a extensão por qualidade, o seu valor ou força residirá na amplidão com que generalize; como, porém, tem a propriedade de ser passiva e de receber todos os factos ou ideias particulares que a diversa sensação lhe entregue, e como nem todos eles convirão às generalizações que haja de fazer, segue que não há entre o em que consiste a sua força e o em que consiste a sua experiência uma correlação perfeita, sendo que, não os factos particulares que recebe, porém o uso que deles faz, é que denota essa força.

Do instinto, como tem por objecto o particular e por qualidade a intensão, o valor consiste na completidão com que se aposse, no objecto particular para que tende, da essência dele, que é o que o denota como particular. Como a essência do objecto, limitada por natureza, necessariamente se define per meio, quanto muito, de um pequeno número de ideias gerais, ele tão completamente se apossará do objecto quanto mais completamente esteja possuidor de todas as ideias gerais possíveis, que especialmente convenham ao fim de definir a propriedade desse objecto. E como é por natureza activo, e portanto procura, e não recebe, a experiência, o número de ideias gerais, convenientes ao seu fim, que haja aprendido, dependerá da sua força, pois que da força com que houver tendido para esse fim e portanto procurado os meios para consegui-lo.

 

[89r]

 

Vemos portanto que a completidão, com que aposse do objecto particular a que se aplica, ou o número de ideias gerais, das possivelmente convenientes ao seu fim, que manifeste, servem indiferentemente de denotar o valor ou força de um instinto. Por isso, sendo que na inteligência é o uso do conteúdo, e não o conteúdo, que denota a força; no instinto o conteúdo e o uso dele são exactamente correlativos, ou coextensos, qualquer deles podendo portanto denotá-la. E, como destes dois sinais do valor, o conteúdo, como consiste em ideias gerais que forçosamente estão manifestadas, é que é o sinal veramente objectivo, temos que, para investigar o valor de um instinto, servir-nos-á de indício seguríssimo o número das ideias gerais, de entre as possíveis, convenientes ao seu fim, de que esse instinto mostre ter-se utilizado.

 

[90r]

 

VII.

 

Das duas partes, de que se compõe esta distinção, a que diz respeito à inteligência terá sido decerto compreendida; a que diz respeito ao instinto pode ser que por mais abstrusa o tenha sido menos; e como, para o fim a que olhamos, nos importa mais ainda compreender bem o que aqui se esclareceu do instinto, de que o que se esclareceu[27] da inteligência, julgamos próprio o passo para, per meio de um exemplo simples; e seguindo toda a linha do que houvemos ocasião de afirmar do instinto, tornar clara, de todo, a explicação.

Sirva-nos de exemplo o instinto de comer. O instinto de comer tem por fim operar – a acção de comer. Tem por qualidade a intensão, porque o mais seguro instinto de comer será aquele que espontaneamente escolha para comer só o que serve para ser comido; não a extensão, pois que, dum maníaco que, além do que todos comem, comesse terra, não diríamos que tinha um mais perfeito instinto de comer que um homem vulgar. Tem por objecto o particular, porque o que se come há de ser uma coisa particular; ficaria, por certo, mal jantado quem se alimentasse com pão virtual e com a ideia de carne. Tem por meio o geral, porque, para comer, esse instinto escolhe todas aquelas coisas a quem é comum o servirem para ser comidas; isto é, a quem é comum a ideia geral de edibilidade; e a esta ideia geral, esse instinto acrescenta, as mais das vezes, algumas outras, como a de palatabilidade, utilidade, etc. Mas essas ideias gerais não poderão ser em grande número, porque a essência do objecto comestível é, como tal, limitada. Por último, o mais perfeito instinto de comer mede-se pela aplicação, por quem o possui, do maior número de ideias gerais possíveis, que convenham ao fim de comer. Quem, em comer, se guie só pela edibilidade, terá um instinto de comer inferior àquele que também se guie pela palatabilidade; e assim por diante.

Não será porventura supérfluo acrescentar que, ao guiar-se per estas ideias gerais, o instinto – como não é a inteligência, e por isso não é, em substância, consciente – fez delas um uso inconsciente; nem sabe que são ideias, nem gerais, nem que as aprendeu, nem que houvera de aprendê-las. Como, porém, as ideias gerais são objecto da inteligência – e por isso dissemos que o instinto as tira da inteligência, embora não entendêssemos que o fizesse conscientemente –, e como portanto não só o instinto e inconsciente, senão também a inteligência e consciente, pode aprender e aplicar[28], caberá, ainda, explicar como se podem distinguir, num mesmo produto em que colaborem instinto e inteligência, quais, das ideias gerais aplicadas, são aplicadas, por um, quais pela outra[29].

Sabedores já de como o produto do instinto se distingue daquele que procede da inteligência, não sofrerá dúvida que, das ideias gerais, convenientes a certo fim, que apareçam no produto, quando apareçam integradas no que essencialmente seu, serão do instinto, que, ou essencialmente no que acessório da inteligência, as terá, quando apareçam como acessório, serão[30] do acessório intelectual.

Isto dito, poderemos, sem mais delongas, entrar na aplicação especial do que genericamente se estabeleceu.

 

 

[1] fruíram /alcançaram\ /logram\

[2] chamei /chamamos\

[3] poderia/mos\

[4] Entendi/emos\

[5] /(por)\ onde

[6] elegi/emos\

[7] inclinações /(propensões)\

[8] a um /(ao)\

[9] procede /só\

[10] efeituá-la /(produzi-la)\

[11] mida, no original.

[12] esclarecimentos /determinações\

[13] compreensível /possível\

[14] dum /(num)\

[15] quando se conhece o /no conhecimento do\

[16] a /o\ única compreensão que pode haver do particular /acto de consciência, que pode haver do particular absoluto\

[17] sendo /posto\

[18] o que lhe interessa /a que se aplica\

[19] essência /(propriedade)\

[20] da /só\

[21] sendo que /quando\

[22] feito /(completo)\

[23] em resumo /(na verdade)\

[24] sem grande esforço /(embora com esforço)\

[25] cultos /(cultivados)\

[26] o nascer /(nascê-lo)\

[27] esclareceu /explicou\

[28] aprender/-las\ e aplicar/-las\

[29] por um /aquela\, quais pela outra /por outra\

[30] serão /produto\

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