Imprimir

Medium

Fundo
Fernando Pessoa
Cota
BNP-E3, 18 – 68–70
Imagem
[Sobre o drama]
PDF
Autor
Fernando Pessoa

Identificação

Titulo
[Sobre o drama]
Titulos atríbuidos
Edição / Descrição geral

[BNP/E3, 18 – 68–70]

 

No caso genérico dos instintos intelectuais, e no especial dos instintos do dramaturgo, a atmosfera (é este o termo de que já, por melhor nos servirmos) de que se alimentam, é, como é de ver, no caso genérico, a atmosfera intelectual da época; no caso especial, será a sua atmosfera psicológica, dramática, artística, que tantas e tais são, como vimos, as qualidades operantes na criação do drama.

A atmosfera intelectual de uma época encontra-se expressa naquela síntese activa de conhecimentos a que se pode chamar a sua experiência intelectual, e[1] a que é uso chamar a sua cultura geral. Per “cultura geral” se entende[2], como do termo consta, não a soma total de conhecimentos, de que em cada matéria, apenas os espíritos filosóficos os {…}; geram aquelas conclusões gerais, provadas e assentes, que saíram da nitidez dos livros para a indecisão dos espíritos, e que são afinal o produto e o expoente[3] do desenvolvimento, a que uma época chegou. Podemos conhecê-las sem as ter lido ou ouvido; Assim como, ouvindo um camponês de hoje falar em “a minha ideia” dificilmente vos lembrareis que empregou uma palavra que existe nas línguas modernas, e na dele, por isso, sobretudo porque tomou relevo na filosofia de Platão; assim também quando falo da cultura geral de uma época, se não entendo, certo é, referir-me a infiltrações tão profundas, porque de tão longe vindas, que figurem nas expressões inconscientes dos rústicos e dos iletrado, entendo, porém[4], em outro nível, o das criaturas cultas, o mesmo fenómeno, aparecido[5] da mesma maneira. Com este exemplo, e esta explicação por[6] complemento, deveis já não ignorar o sentido exacto do que exponho.

 

Temos pois que examinar per que conceitos precisos se manifesta a cultura geral da nossa época, com referência especial porém, às disciplinas ou matérias que se relacionam com às três qualidades do dramaturgo.

______________________________________________________________________

 

VI

A cultura dramática do nosso tempo é derivada, em parte da evolução da própria arte dramática, em parte da influência, que nela teve o desenvolvimento das suas acessórias práticas, que são a arte cénica e a de representar[7]. Da primeira influência provém que o ideal dramático moderno seja o da máxima concentração da acção[8]; da segunda, que esse ideal seja o da máxima naturalidade na exibição – real que seja, ou no palco; ou virtual; na leitura e pela imaginação. A concentração da acção foi sempre o ideal dramático supremo; os gregos, a quem se deve o estabelecimento dos princípios críticos, a este como, aos outros, determinaram. Outros só não têm as celebridades conhecidas do tempo e do lugar. Tal doutrina, de resto, deriva da própria essência de drama que, como é essencialmente acção, quanto mais só acção for, maior será no que for só drama. Hoje, porém, a experiência contínua e larga da nossa civilização aperfeiçoou o ideal antigo[9]. Assim, aboliram-se os velhos coros, e os monólogos também, que se lhes substituíram, pois que uns e outros eram comentário, e não acção, pela mesma razão se aboliram os trechos, ou demasiado extensos, ou nimiamente explicativos, do próprio diálogo, pois que, uns pelo tempo que levam, outros pelas ideias que contêm, estabelecem, ou uma simples suspensão, ou um desvio para pensar, no seguimento[10] contínuo da fábula.

 

[69r]

 

Por sua vez, o aperfeiçoamento do instinto de ilusão, que se tem notado na arte dos cenários e na própria de representar, mergiu num comum descredito as entradas e saídas arbitrárias, a sucessão incoordenada de cenas, tão vulgares nos bons antigos como reproduzidas sem querer pelos maus modernos.

 

A experiência ou cultura artística da nossa época consiste, primordialmente, na intromissão das ideias na factura da obra de arte, influência que apareceu pelo tempo dos românticos, e cuja origem é que, na desagregação das ideias religiosas, a cujos dogmas o uso do pensamento estava preso, surgiu este para uma vida própria, e para um emprego livre, por onde se viu o espírito levado a aplicá-lo como sem querer, no aperfeiçoamento, pela ideia, da obra de sentimento, no alargamento, pela filosofia, da obra de acção. Veio de aqui, para o drama, o hábito de se lhe estabelecer uma tese, conclusão ou filosofia. Como, porém, tanto a tendência posterior da cultura moderna – nada do que se chamou simbolismo –, nos levou a preferir os processos sugestivos, aos explicativos, na obra de arte, senão também o ideal dramático, já citado, nos compeliu a abolir o que, no decurso da obra, fosse por extenso ou explicativo, um interrompimento da acção, no drama, como hoje se deseja, exige-se, para que seja completo, uma tese, sim, ou filosofia, mas também, para que seja perfeito, que essa tese seja dada per uns dos dois[11] processos sugestivos – ou per símbolo, e passo a passo no decurso da fábula, ou per conclusão, que ressalte apenas do conjunto findo do drama.

 

A cultura artística e a dramática dos tempos modernos procedem, uma e outra, do desenvolvimento respectivo de cada uma das artes, a que se reportam. O caso da cultura psicológica – que é o que falta que vejamos – é mais complexo; porque, como essa cultura deriva já de uma disciplina científica, participa, de certo modo, por igual do desenvolvimento da ciência em geral e dos progressos, que têm sido notáveis, da ciência particular chamada psicologia. Podemos, porém, reduzir a cinco os princípios em que se fundamenta a cultura psicológica que nos define como modernos.

O primeiro princípio vem da biologia, e estende-se naturalmente à psicologia, porque, sendo o fundamento da ciência geral da vida, necessariamente o há de ser, também da ciência particular da vida do espírito, que na outra se apoia e se chega. É o princípio de que o homem, como qualquer outro animal, e psíquica como fisicamente, é um produto da hereditariedade e do meio, compreendendo-se no termo hereditariedade a variação, porque, sendo sua oposta e complementar quanto à espécie, é quanto ao género sua coextensa.

O segundo princípio vem já da psicologia. Em poucas palavras ele por completo se exprime: “o homem é um animal irracional”. Com efeito, ao contrário da filosofia da alma, para quem esta era símplice, a razão sua faculdade não só dominante como também mestra e a consciência o fenómeno por onde os fenómenos da mente se definiam como tais, a ciência do espírito opõe, assentando na experiência, que o espírito, longe de ser simples, é um composto heterogéneo, em que instintos e impulsos herdados, e de vária linhagem, impulsos enraizados pelo hábito {…} se aglomeram se †, se †; que longe de

 

[70r]

 

a consciência definir os factos psíquicos, a esfera do inconsciente era desconformemente maior do que a do consciente, que do que do inconsciente vivíamos {…}, que a consciência era não só a última aquisição do género animal, como, e por isso, a mais fraca e a menos operativa das qualidades de espécie humana; que, por fim, a razão, longe de ser a nossa faculdade dominante, não é mais que a serva dos instintos e dos impulsos, ordenadora sim, esclarecedora sim, mas ordenadora de impulsos que não gera, esclarecedora de um caminho que não determina.

 

O terceiro princípio vem de uma parte especial da psicologia, que o é também da medicina – a psiquiatria. É o de que o fenómeno sexual {…}

 

 

[1] e /mas a que o termo (de) “cultura geral” mais comumente se aplica\

[2] se entende/-se\

[3] expoente /a definição\ (?)

[4] porém /antes\

[5] aparecido /mantendo\

[6] por /(per)\

[7] arte cénica /do cenário\ e a de /da\ representar /representação\

[8] acção /fábula\

[9] o ideal antigo /talvez não o ideal antigo, porém os seus meios de execução\

[10] seguimento /desenvolvimento\

[11] uns dos dois /um ou ambos\

Notas de edição

Classificação

Categoria
Literatura
Subcategoria

Dados Físicos

Descrição Material
Dimensões
Legendas

Dados de produção

Data
Notas à data
Datas relacionadas
Dedicatário
Destinatário
Idioma
Português

Dados de conservação

Local de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Estado de conservação
Proprietário
Historial

Palavras chave

Locais
Palavras chave
Nomes relacionados

Documentação Associada

Bibliografia
Publicações
Exposições
Itens relacionados
Bloco de notas