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Fernando Pessoa - Literary Theory

This digital edition of texts by Fernando Pessoa deals with the set of poetic theorizing writings from hisArchive and brings together essays, comments, notes, sketches and fragments about literature from the Portuguese author. The documents transcribed are in Fernando Pessoa’s Archive in the custody of the National Library of Portugal, with quota E3. All facsimiles are accompanied by a critical lesson and a paleographic transcription, which is available for download in the “PDF” field.

 

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP/E3, 14-4 – 60
BNP/E3, 14-4 – 60
Fernando Pessoa
Identificação
[Sobre literatura]

[BNP/E3, 144 – 60]

 

A vida social é uma das formas da vida; a arte[1] uma das formas da vida social, a literatura uma das formas da arte: a literatura é, portanto, uma das formas da vida. Aplicam-se, portanto, à literatura, as leis que regem a vida, na sua generalidade.

Ora as leis que governam a vida parece-me indubitável que se resumem em duas: a lei da adaptação ao meio, e a lei do equilíbrio. Propriamente, há só uma lei, a do equilíbrio, que rege as relações do organismo com o exterior na adaptação ao meio, e rege as do organismo consigo próprio (em todo o amplo sentido desta frase) na lei do equilíbrio propriamente dita. Da maior ou menor adaptação ao meio resulta a maior ou menor vitalidade; do maior ou menor equilíbrio íntimo resulta a maior ou menor resistência. Distingo entre vitalidade e resistência, em que a vitalidade é uma resistência directa à morte, e a resistência (assim chamada por mim) a resistência à acção das causas parciais que a provocam.

Mas a literatura, além de ser uma forma especial da vida, é, na sua virtualidade própria, um fenómeno intelectual. A sua vida é, portanto, uma vida intelectual. Ora, sendo o papel da inteligência o reflectir o mundo – quer pela coordenação das sensações, quer pela orientação da vontade (????) – resulta que o género de adaptação ao meio que a literatura tem, é uma adaptação expressiva, que a maior ou menor adaptação da literatura ao meio está na maior ou menor perfeição com que exprime as suas tendências íntimas. Isto respeita apenas à vitalidade de uma literatura, que é o que a torna possível em uma determinada época.

Vejamos agora o que respeita à sua resistência.

Onde está o equilíbrio íntimo de uma literatura? Ora o equilíbrio íntimo de qualquer organismo deriva da acção mutuamente compensadora das aquisições do passado e das aquisições do presente, do equilíbrio entre as qualidades da espécie e das qualidades do indivíduo adentro do organismo individual. Portanto o grau de resistência ao tempo de uma literatura (o inimigo de uma literatura, a sua “morte” é o tempo) lê-se na sua capacidade de equilibrar as tendências que lhe vêem da época em que vive com as tendências que lhe vêem do passado. Por aqui, e segundo o grau em que consegue esse equilíbrio, uma literatura resiste, fica é “eterna” adentro da humanidade.

A adaptação ao meio, pela expressão dele, torna possível uma corrente literária; o equilíbrio íntimo torna definitiva essa corrente.

 

[60v]

 

A lei da adaptação ao meio (pela qual a vida é possível), a lei do equilíbrio intra-orgânico (pela qual a vida é estável), e a lei da hierarquia de funções (pela qual a vida é perfeita e tem um “valor”).

 

 

[1] a arte /(vida artística)\

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/4620
Classificação
Literatura
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
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Palavras chave
Documentação Associada