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Fernando Pessoa - Literary Theory

This digital edition of texts by Fernando Pessoa deals with the set of poetic theorizing writings from hisArchive and brings together essays, comments, notes, sketches and fragments about literature from the Portuguese author. The documents transcribed are in Fernando Pessoa’s Archive in the custody of the National Library of Portugal, with quota E3. All facsimiles are accompanied by a critical lesson and a paleographic transcription, which is available for download in the “PDF” field.

 

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP/E3, 14-4 – 33-34
BNP/E3, 14-4 – 33-34
Fernando Pessoa
Identificação
[Sobre o fenómeno literário]

[BNP/E3, 144 – 33-34]

 

Todo o fenómeno literário – corrente, grupo ou individualidade – é susceptível de ser considerado, e para ser bem compreendido ter de ser considerado, sob 3 aspectos diferentes. Esses aspectos são o psicológico, o sociológico, e o estético. Um fenómeno literário é produto de determinado psiquismo, ou determinadas psiques – de aí a |crítica| psicológica. É produto de determinada sociedade – de aí a |crítica| sociológica. E é produto literário, enfim – de aí a crítica estética ou literária, a crítica propriamente[1] dita.

Ao grupo de poetas e prosadores que apareceram, há pouco, reunidos na revista Orpheu foram feitas críticas nestes 3 campos. Não olhemos agora à natureza dessas críticas. Vejamos apenas que elas se classificam em qualquer daqueles 3 escaninhos. Houve crítica puramente literária; foi a que em geral foi feita. Houve crítica psicológica, sobretudo pela consulta, que alguém lembrou de fazer, a dois psiquiatras da nossa praça. E tem havido – em relação a referências várias, vagas ou claras, ao que de doentio, triste {…} tal corrente representa, sobretudo pelo se sentir que é obra de novos – crítica propriamente sociológica.

Não sorria o leitor dos pomposos nomes de estetas, psicólogos e sociólogos, dados a tão débeis emergências intelectuais quais[2] as que se manifestaram no assunto. Fazemos, a frio e cientificamente, a classificação dos géneros de crítica possíveis, e que, com efeito, apareceram. Da sua natureza, e da sua procedência, tratarão[3] as páginas que se seguem[4]. Seria desrespeito para com o estudioso impessoal destes temas, e ridículo como a obra a sério, estar respaldado à ignorância e incompetência dos repórteres que, entre nós, opinam sobre livros, aos nossos sociólogos de coluna e meia, e aos charlatães que no nosso meio, representam a ciência psiquiátrica. O pudor intelectual obriga ao silêncio.

Por isso o nosso processo será outro, mas com ele

 

[33v]

 

a resposta não faltará aos críticos, tais quais foram. Porque o nosso processo será simples. Em vez de nos determos com os pobres idiotas que escrevem críticas portuguesas, iremos, nos 3 casos, à fonte. Assim, no caso estético, iremos versar o problema geral apresentado pelo aparecimento do interseccionismo, que é o problema das novidades literárias, de todos os tempos e em todas a nações; o problema da expressão complexa, que empregam os novos poetas e prosadores; o problema, finalmente, {…}. E, ao discutir problemas, reportar-nos-emos às críticas que lá fora se têm feito neste ponto, àquelas, sobretudo, que chovem sobre os simbolistas; e[5] não esqueceremos nunca as diferenças entre os simbolistas e a nossa corrente. Escolheremos o argumento contra nós no seu grau superior e {…}; implicitamente procuraremos fixar resposta aos pálidos ecos de agitação europeia que a nossa corrente conseguiu balbuciar.

Semelhantemente, no campo psicológico. Em lugar de perdermos palavras com Júlio de Matos e o outro, iremos direitos à crítica-mãe, e de uma vez para sempre, escangalharemos a tese |escarnida| pelo charlatão Max Nordau. Toda a objurgatória pseudocientífica à forma e ao género da literatura moderna tem sua origem no livro célebre desse {…}

Através de Nordau, em todo o caso o melhor expositor de tão frouxas coisas, quedará escrita a resposta aos reflexos pálidos de sua atitude que serviu de base crítica aos nossos psiquiatras de feira.

E como no campo psicológico, e no estético, assim também no campo sociológico. Será o problema, em seus aspectos gerais, que encararemos não o que de {…} nossos {…} arguiram.

 

No fundo será por mais do que nós que combateremos. É em nome de toda a novidade, de toda a renovação que ergueremos a voz, e apraz-nos ver fora do pedestal onde colocaremos nosso desprezo tão depressa os não tirarão.

 

[34r]

 

III

 

Este opúsculo não é destinado a que o leiam os críticos e {…} portugueses.

Escrevemo-lo em estilo simples, para não ser como Júlio de Matos ou como {…} consegue atingir o que nele é dito. Não escrevemos, compreenda-se, para a nossa cretinagem jornalística e literária, que é incapaz de seguir um raciocínio ou conhecer uma ideia quando a encontra.

 

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A psicologia e a literatura têm tido relações de 3 espécies: têm havido os psicólogos literários, à Sainte-Beuve, que buscam penetrar {…}. Seu lema “compreender é amar” grava bem sua atitude. Por sua natureza este género está fora do nosso assunto.

 

 

 

[1] propriamente /vulgarmente\

[2] quais /como\

[3] tratarão /nem sequer falarão\

[4] que se seguem /seguintes\

[5] e /mas\

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/4600
Classificação
Literatura
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada
Fernando Pessoa, Sensacionismo e Outros Ismos, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009, pp. 41-43.