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Fernando Pessoa - Literary Theory

This digital edition of texts by Fernando Pessoa deals with the set of poetic theorizing writings from hisArchive and brings together essays, comments, notes, sketches and fragments about literature from the Portuguese author. The documents transcribed are in Fernando Pessoa’s Archive in the custody of the National Library of Portugal, with quota E3. All facsimiles are accompanied by a critical lesson and a paleographic transcription, which is available for download in the “PDF” field.

 

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP/E3, 14-3 – 55-57
BNP/E3, 14-3 – 55-57
Fernando Pessoa
Identificação
Ritmo

[BNP/E3, 143 – 55-57]

 

Ritmo

 

O verso, por rápido que seja, é sempre menos rápido do que a prosa.

Por exemplo: a palavra consecutivamente pronuncia-se sem quebra em prosa, mas para a pronunciar em verso, para lhe dar ritmo poético, é preciso quebrá-la, ainda que ligeiramente, de modo subconscientemente perceptível, assim: consecutiva/mente. (cf. o verso de Cesário).

É esta a diferença entre ler prosa, ainda que rítmica, e ler verso.

Na prosa usual há pausas {…}. |Na prosa rítmica ou ritmada há pausas – as gramaticais.| |Daí duma disposição sábia dessas lhe vem o ritmo.|

 

[55v]

 

Verso e prosa

 

Chegara a noite |a noite es|cura e fria||

Na superfície |nítida| das águas||

Reflexos pálidos |de luar| triste

Melancolica|mente cintilavam.

 

As estrelas enchiam esse vasto

Campo do céu aberto com distantes

Tremeluzires místicos e calmos

Que acenavam com |longos {…}|

À numerosa solidão da vida.

______________________________________________________

Chegara a noite | a noite escura e fria|, na superfície nítida das águas | reflexos pálidos da lua triste | melancolicamente cintilavam |. As estrelas enchiam esse vasto campo do céu aberto | com distantes tremeluzires místicos e calmos | que acenava, com |longos|| à numerosa solidão da vida.

______________________________________________________

Na prosa as pausas são só gramaticais. Há pausas de 3 tempos em prosa:

(1) As finais (ponto).

(2) As longas (depois de frases completas – vírgulas).

(3) As breves depois de agrupamentos gramaticais, sendo a frase demasiado longa.

 

[56r]

 

No verso temos:

a) pausas de período completo (no fim de cada estrofe)

b) pausa rítmica maior (no fim de cada verso)

c) pausa rítmica simples ou menor (no fim de cada ritmo).

 

Na poesia[1] é secundária a gramática. Claro que o bom versejador deve procurar conciliar as pausas do ritmo poético com as da gramática. Assim ficará o ritmo o mais perfeito possível.

E.g. mau verso:

(bom exemplo?) Não quero a morte |com| amor ou veneno

_______

Pausas naturais:

(1) depois de cada palavra.

(2) depois de cada grupo de palavras aliadas.

?(3) depois de cada frase.

 

ou

(1) sílaba.

(2) palavra.

(3) palavras aliadas.

 

[56v]

 

Em prosa:

(1) pausas finais (pontos)

(2) pausas longas

(3) pausas breves

_______

Ritmo da prosa:

(x) Não incluir frases muito grandes (como longas frases parentéticas).

(x) A prosa poética lê-se com mais vagar do que a prosa usual.

(x) A gradação é pequena e quase imperceptível entre a prosa vulgar e a poética – praticamente. Teoricamente porém há a diferença que a prosa poética é uma sucessão irregular de pés rítmicos – é ou devia ser.

 

E.g. O projecto de lei da imprensa ||| que o ilustre deputado|| da {…} A. C. ||apresentou ontem|| na Câmara dos Deputados|| | causou a melhor impressão no público | sendo à noite assunto obrigado|| em todos os centros de conversa.

 

|vulgar

||prosa poética

 

[57r]

 

Na prosa vulgar o ritmo coincide com a gramática – com as pausas gramaticais e tem apenas três regras:

(1) não alongar muito as frases gramaticais.

(2) não as encurtar muito, com interpolações e transposições.

(3) não as fazer muito desiguais.

 

(Assim, no trecho citado, ficaria “o projecto de lei sobre a liberdade de imprensa” o que tornaria maior a 1ª frase, equiparando-a mais à frase seguinte.)

_______

Ritmo da prosa ritmada.

 

Temos em 1º lugar a diferença de que a prosa ritmada emprega termos poéticos, pouco mais ou menos como a poesia. Isso é o ritmo mental que influi nisto: em dar o tom ao leitor. Um trecho onde se vêem os termos poéticos não o lemos, naturalmente, como um em que eles não aparecem. Lemo-lo mais devagar.

 

[57v]

 

A 1ª diferença entre a 2 prosas, é o modo |mental| de conceber o assunto.

 

(Ritmo da prova 4 x 4 (ritmo) = 16 sílabas)

 

Marca a mesmo tempo o limite do composto do verso que se poderia fazer.

(um folego).

 

 

[1] poesia /verso\

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/4451
Classificação
Literatura
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada
Rita Patrício, Episódios - Da Teorização Estética em Fernando Pessoa, Braga, Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, 2008 [cf. Rita Patrício, Episódios - Da Teorização Estética em Fernando Pessoa, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2012, p. 392-395].