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Fernando Pessoa - Literary Theory

This digital edition of texts by Fernando Pessoa deals with the set of poetic theorizing writings from hisArchive and brings together essays, comments, notes, sketches and fragments about literature from the Portuguese author. The documents transcribed are in Fernando Pessoa’s Archive in the custody of the National Library of Portugal, with quota E3. All facsimiles are accompanied by a critical lesson and a paleographic transcription, which is available for download in the “PDF” field.

 

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP/E3, 14C – 19-21
BNP/E3, 14C – 19-21
Fernando Pessoa
Identificação
[Sobre Gomes Leal]

[BNP/E3, 14C – 19-21]

 

Na sua carta à Renascença Portuguesa, que o Diário de Notícias publicou, queixa-se Gomes Leal de não terem as suas obras mais do que o êxito de montra e estante herdada, de existirem apenas como lombadas na atenção dos leitores contemporâneos.

Sem prejuízo do respeito devido e tido ao Poeta, permita-se-nos que apontemos não navegar com lógica pela popa a queixa conforme se formulou.

Gomes Leal não se adaptou ao nosso meio actual; não tem por isso cor de justiça e dor da sua referência a haverem esquecido as suas obras. A outros, mais novos do que ele, e de outra loja de poemas, o mesmo, pela mesma justificada razão, encontra-se acontecendo.

Já Gomes Leal não era novo quando o movimento literário contemporâneo se deu a si próprio à luz, e a sua primeira obra marcante e ante-simbólica foi, como se sabe, o Nada do sr. Júlio Dantas. Esta grande corrente literária e artística, desenvolvendo-se, veio a produzir, entre outras coisas de igual valor, no campo poético a obra recente e tão pedagógica do sr. Lopes-Vieira,

 

[20r]

 

e no campo dramático peças como O Reposteiro Verde, não omitindo que no campo musical nela se acaba de integrar, com o merecido êxito, o sr. Luís de Freitas Branco. O sucesso que têm tido as obras destes autores, o facto de eles ocuparem hoje o primeiro plano da atenção pública, provam bem que (a não ser que o nosso público seja parvo) a época neles encontra os seus representantes naturais.

Gomes Leal será o primeiro a confessar que, nem em género nem em qualidade, se assemelha a sua obra à obra desses.

Depois, a arte moderna vai buscar à ciência e à vida de sociedade processos e ingressos; e a esses não se dedicou o Poeta. Procurou Gomes Leal empenhos para a glória? Que salões recitatórios frequentou, em que cafés acampou azedume e blague? Curou de elogiar para ser elogiado?

Nem esboçou coterie, e queixa-se!

Foi de viagem ao Brasil ser poeta lá? Ele até caiu em aderir sinceramente ao catolicismo de hoje!

E não é só isso, não é só isso… Os artistas modernos compreen-

 

[21r][1]

 

dem que a arte abrange toda a vida e fazem por isso o alfaiate, o chapeleiro e o camiseiro colaborar na sua ascensão para o que ficam sendo. Há grandes poetas modernos cujo corte de verso não é, em análise última, senão um corte de fato; músicas que são uma cabeleira; prosadores que devem ao monóculo o perfume exterior da sua prosa.

Hesitará Gomes Leal em se confessar estrangeiro neste novo modo de ser artista?

E quando a isto se acrescenta que o Poeta de quem falamos tem descurado inteiramente aquele acompanhamento de engenharia social que permite, por exemplo, fazer ponte de Gil Vicente e da pedagogia, e estrada da degenerescência da Casa de Braga, e que é hoje tão importante, entre mais, para pedestal a glória poética, ele próprio ansiará, cremos, por ser qualquer impossível coisa antes de o primeiro em confessar injusta, efectivamente, a sua queixa quanto ao esquecimento da sua obra.

_______[2]

 

 

[1] foram só do artista

________________

[2] [14C – 21v]

 

Ó naus antigas como num sonho morto / Íbis do

Além-além, / Qual de chegando lá ao

Porto / Que nenhuma nau tem?

Manhã |clara| ou crepúsculo medonho /

Da tempestade a vir / Pelo mar íntimo

que tenho em sonho / |Verso| † é sorrir/

É sorrir com lábios quando não

Sem sorrir perdendo / Surgias pela

minha alma da ilusão, / Ó nau,

 

E ó natureza cujo vulto na manhã me espera

Não que não colha mais / E lutareis

{…} † / Como caminhareis

Que falareis de gentes e países

Que são um sonho real / Ide através de naus

De haver felizes / {…}  

 

 

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/3184
Classificação
Literatura
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada
Publicação parcial: Rita Patrício, Episódios - Da Teorização Estética em Fernando Pessoa, Braga, Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, 2008, pp. 400-401 [cf. Rita Patrício, Episódios - Da Teorização Estética em Fernando Pessoa, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2012, pp. 435-436].
Publicação integral: Pauly Ellen Bothe, Apreciações literárias de Fernando Pessoa, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2013, pp. 164-165; 444-445.