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Fernando Pessoa - Literary Theory

This digital edition of texts by Fernando Pessoa deals with the set of poetic theorizing writings from hisArchive and brings together essays, comments, notes, sketches and fragments about literature from the Portuguese author. The documents transcribed are in Fernando Pessoa’s Archive in the custody of the National Library of Portugal, with quota E3. All facsimiles are accompanied by a critical lesson and a paleographic transcription, which is available for download in the “PDF” field.

 

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP-E3, 19 - 22
BNP-E3, 19 - 22
Fernando Pessoa
Identificação
[Sobre o romantismo]

[19 – 22]

 

O verdadeiro perigo do romantismo é que os princípios, por que se rege ou diz reger, são de natureza a que os possa invocar qualquer, para conferir a si-próprio a categoria de artista. Tomar a ânsia de uma felicidade inatingível, a angústia dos sonhos irrealizados, a inapetência ante a acção e a vida, como critério definidor do génio ou do talento, imediatamente facilita a todo o indivíduo que sente aquela ânsia, sofre daquela angústia, e é preza daquela inapetência, o convencimento de que é uma individualidade interessante, que o Destino, fadando-a para aquelas ânsias, aqueles sofrimentos, e aquelas impossibilidades, implicitamente fadou para a grandeza intelectual.

Na teoria clássica não era assim. O discípulo dos antigos apoiava a sua crença em que era poeta em faculdades de construção e coordenação, em uma disciplina interior que não é tão fácil a qualquer presumir, para si mesmo, que possui. Não é tão fácil, em relação às pretensões que são a base do romantismo, do sentimento romântico. Há basta gente que pode crer-se, falsamente, dotada de qualidades construtivas em arte; mas toda a gente, e não alguma, pode julgar-se artista, quando as qualidades fundamentais exigidas são um sentimento de vácuo nos desejos, um sofrimento sem causa, e uma falta de vontade para trabalhar – característicos que mais ou menos todos possuem, e que nos degenerados e nos doentes do espírito assumem um relevo especial.

Não é no estímulo que dá ao individualismo que o perigo romântico consiste; consiste, sim, no estímulo que dá a um falso individualismo. O individualismo não é necessariamente falso; quando muito, é uma teoria moral e política. Mas há uma certa forma do individualismo – como há uma certa forma do classicismo – que é com certeza falsa. É a que permite que o primeiro histérico ou o mais reles dos neurasténicos se arrogue o direito de ser poeta pelas razões que, de per si, só lhe dão o direito de se considerar histérico ou neurasténico.

Quando um poeta romântico canta, lamentando-a, a eterna imperdurabilidade das coisas, faz uso legítimo de um sentimento bem humano. Quando, do fundo da sua dor, sofrendo pelo contacto com a humanidade, apela para a grande Natureza e para o seu constelado repouso, faz uso legítimo de uma emoção que, sendo velha como a humanidade, nem sempre serviu de tema poético.

 

A ruína de uma vida simples, ou de uma vida reles, é tão trágica como a ruína de uma vida grande, ou de uma vida nobre; mas isso é vistas de fora, não de dentro. A ruína de uma alma reles não pode ser grande para a alma reles, porque ela é uma alma reles.  

 

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Classificação
Literatura
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada
Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Edições Ática, 1966, pp. 147-148.