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Fernando Pessoa - Literary Theory

This digital edition of texts by Fernando Pessoa deals with the set of poetic theorizing writings from hisArchive and brings together essays, comments, notes, sketches and fragments about literature from the Portuguese author. The documents transcribed are in Fernando Pessoa’s Archive in the custody of the National Library of Portugal, with quota E3. All facsimiles are accompanied by a critical lesson and a paleographic transcription, which is available for download in the “PDF” field.

 

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP-E3, 18 – 26–27
BNP-E3, 18 – 26–27
Fernando Pessoa
Identificação
[Sobre arte]

[BNP/E3, 18 – 26–27]

 

(1) Artes de agrado

(2) Artes de aperfeiçoamento

(por isso se cingiu ao trabalho sobre a matéria, e à actividade do artifício dos objectos úteis) Tornar o útil agradável, eis a base das artes de aperfeiçoar; porque tornar o útil agradável é aperfeiçoar o útil, tornando-o mais útil, fazendo-o servir não só o seu fim directo, que constitui a sua utilidade, mas outro fim, indirecto, que é o de tornar essa utilidade duplamente útil.

A escala é da mais directa agradabilização do útil para a menos directa; da arquitectura, portanto, através da escultura para a pintura.

 

[26v]

 

3) Artes de influenciar. São essencialmente as artes de civilização. O seu fim é transmitir civilização, passar de umas gerações para outras o resultado do trabalho psíquico de cada uma. As artes de influenciar são portanto (a) representativas de resultados civilizacionais, e não de tipos psíquicos;(b) {…}

 

O ideal do artista influenciador é alto na proporção em que ele tem consciência do seu mister, na proporção em que tem consciência do seu papel de influenciador de gerações futuras, e da sua missão de quem deve deixar perenemente aumentado o património espiritual da humanidade.

Os poetas antigos tinham esta consciência; a decadência dela entre os modernos, substituída pela ânsia da popularidade imediata, apanágio finalista das artes inferiores, é um dos mais fortes sintomas da nossa degradação moral[1].

 

 

[27r]

 

Artes de influenciar

 

a) o fim representativo: o artista procura, ao fazer a sua obra, deixar alguma coisa que represente o estado da sua época (?)

b) o fim valorizador: o artista procura deixar alguma coisa que dê valor à sua pátria (ou à humanidade).

c) o fim instrutivo: o artista procura deixar alguma coisa que perenemente mande nas almas.

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Uma obra sobrevive em razão de

(1) sua construção, porque, sendo a construção o sumo resultado da vontade e da inteligência, apoia-se nas duas faculdades cujos princípios são de todas as épocas, que sentem e querem da mesma maneira, embora sintam de diferentes modos;

(2) a sua profundeza psicológica;

(3) carácter abstracto e geral da emoção que emprega. A obra sóbria de emoção tende mais a sobreviver porque a

 

[27v]

 

emoção moderada é característica de todas as épocas, porque os de emoção moderada a apreciam naturalmente; e os de emoção irregular têm a sua média na emoção moderada. De mais a mais, as emoções excessivas variam de época para época; são, portanto, o que há de passageiro em cada uma. As emoções moderadas caracterizam todas; isto é, todas as aceitam, embora algumas, por o que têm de transitório, prefiram que se exagere.

A excessiva compaixão pela humanidade, por exemplo, caracteriza o romantismo. Fora do romantismo, essa emoção não existe. Mas a compaixão nobre pelas dores humanas é um sentimento humano de todas as épocas.

 

Exemplo

|Eliminar a influência da época na emoção, e conservá-lo nas imagens; elevá-lo na parte sentimental, e conservá-lo na intelectual, eis o papel do artista.|         

 

 

[1] moral /(espiritual)\

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/2348
Classificação
Literatura
Arte
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada
Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Edições Ática, 1966, pp. 31-33.