Virtual Archive of the Orpheu Generation

Databases Fernando Pessoa

Fernando Pessoa - Literary Theory

This digital edition of texts by Fernando Pessoa deals with the set of poetic theorizing writings from hisArchive and brings together essays, comments, notes, sketches and fragments about literature from the Portuguese author. The documents transcribed are in Fernando Pessoa’s Archive in the custody of the National Library of Portugal, with quota E3. All facsimiles are accompanied by a critical lesson and a paleographic transcription, which is available for download in the “PDF” field.

 

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP-E3, 100 – 33
BNP-E3, 100 – 33
Identificação
sem título

[BNP/E3, 100 – 33]

 

Um dos grandes males de que enfermam os nossos ecoes literários é a introdução na literatura de fenómenos alheios a ela, como, por exemplo, a política. Na política, como na religião, com em qualquer actividade superior que não seja rigorosamente a científica ou literária, a inteligência está subordinada a outra coisa, ao critério político, ou religioso, ou o que quer que seja, de que se trate. Na literatura e na ciência, propriamente tais, a inteligência está entregue à sua própria actividade, nem deve subordinar-se a coisa alguma. Que para o teólogo a filosofia seja ancilla theologiae[1], está bem; não está bem que, para o filosofo, ela seja ancilar de qualquer maneira.

 

Fazer da literatura um elemento de propaganda, seja do que for, é viciar a sua natureza e o seu fim. Os fins da inteligência pura são antagónicos aos fins da política, da religião, ou de quaisquer outras actividades sociais baseadas num fim moral ou social. A literatura tem também um fim moral ou social, que é ter nenhum. No que simples erudição, preocupa-a só a verdade; no que simples arte, preocupa-a só a beleza. Todo elemento que perturbe a simples expressão da verdade deve ser banido da primeira; todo elemento que perturbe a simples expressão da beleza deve ser excluído da segunda. Desde que o apelo da ciência tenda a ser extra-científico, deve ser repudiado; desde que o apelo da literatura seja ou tenda a ser extra-literário, deve ser posto de parte. Ninguém, por exemplo, tem o direito de examinar um problema histórico ou um problema religioso, se traz consigo qualquer preconceito político, ou qualquer preconceito religioso. Um republicano não pode pronunciar-se sobre o reinado de D. Carlos; um católico não pode pronunciar-se sobre a Bíblia. Isto é, podem, mas então entenda-se que não fazem erudição, mas política, social ou religiosa.

 

Se um católico de dispuser a examinar o problema (por exemplo) da autenticidade de qualquer passo dos Evangelhos, de que serve isso, se todos sabemos, anticipadamente, em que sentido vai resolvê-lo?

 

[1] escrava da filosofia

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/2301
Classificação
Literatura
Genologia
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada