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Fernando Pessoa - Literary Theory

This digital edition of texts by Fernando Pessoa deals with the set of poetic theorizing writings from hisArchive and brings together essays, comments, notes, sketches and fragments about literature from the Portuguese author. The documents transcribed are in Fernando Pessoa’s Archive in the custody of the National Library of Portugal, with quota E3. All facsimiles are accompanied by a critical lesson and a paleographic transcription, which is available for download in the “PDF” field.

 

 

Medium
Fernando Pessoa
BNP-E3, 72 – 54–55
BNP-E3, 72 – 54–55
Fernando Pessoa
Identificação
Sem título

[BNP/E3, 72 – 54–55]

 

A utilização da sensibilidade pela inteligência faz-se de três maneiras:

 

O processo clássico, que consiste em eliminar da sensação ou emoção tudo que nela é deveras individual, extraindo e expondo tão-somente o que é universal.

 

O processo romântico, que consiste em dar a sensação individual tão nítida ou vividamente, que ela seja aceite, não como coisa inteligível, mas como coisa sensível, pelo leitor, visor ou auditor.

 

Um terceiro processo, que consiste em dar a cada emoção ou sensação um prolongamento metafísico ou racional, de sorte que o que nela, tal qual é dada, seja ininteligível ganhe inteligibilidade pelo prolongamento explicativo.

 

Suponhamos que tenho uma aversão íntima pela cor verde, e que quero transformar esta aversão, que é uma sensação, em expressão artística. Pelo processo clássico, procederei da seguinte maneira: (1) Lembrar-me-ei que a aversão pela cor verde é puramente individual, que, portanto, a não posso transmitir a outrem, tal qual é; (2) deduzirei que, assim como tenho aversão pela cor verde, outros terão aversão por outras cores; (3) traduzirei a minha aversão pelo verde em aversão por "certa cor", e cada um que leia verá na aversão assim traduzida a cor particular com que ele tem aversão. Pelo processo romântico, buscarei pôr tal horror nas frases com que exprimo o meu horror pelo verde que o leitor fique presa da expressão do horror, esquecendo precisamente em que se fundamenta. Vê-se, pois, que o processo romântico consiste num tratamento intensivo dos elementos expressivos, em desproveito dos elementos fundamentais, da sensação. Pelo terceiro processo, porei nitidamente a minha aversão pelo verde, e acrescentarei, por exemplo, "é a cor das coisas nitidamente vivas que hão de tão depressa morrer". O leitor, embora não colabore comigo na minha aversão pelo verde, compreenderá que se odeie o verde por aquela razão.

 

Pelo processo clássico sacrifica-se o mais nosso da sensação ou da emoção, em proveito de torná-la compreensível. Porém o que tornamos compreensível é um resultado intelectual dela. De aí o ser a poesia clássica inteligível em todas as épocas, porém em todas fria e longínqua.

 

[55r]

 

No meu fantasma Alberto Caeiro sirvo-me instintivamente do terceiro processo aqui indicado. Embora pareça espontânea, cada sensação é explicada, embora, para fingir uma personalidade humana, a explicação seja velada na maioria dos casos.

 

Há uma cor que me persegue e que eu odeio,

Há uma cor que se insinua no meu medo.

Porque é que as cores têm força

De persistir na nossa alma,

Como fantasmas?

Há uma cor que me persegue, e hora a hora

A sua cor se torna a cor que é a minha alma.

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O verde! O horror do verde!

A opressão angustiosa até ao estômago,

A náusea de todo o universo na garganta

Só por causa do verde,

Só porque o verde me tolda a vista,

E a própria luz é verde, um relâmpago parado de verde...

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Odeio o verde.

O verde é a cor das coisas jovens

– Campos, esperanças, –

E as coisas jovens hão de todas morrer,

O verde é o prenúncio da velhice,

Porque toda a mocidade é o prenúncio da velhice.

 

Uma cor me persegue na lembrança,

E, qual se fora um ente, me submete

À sua permanência.

Quanto pode um pedaço sobreposto

Pela luz à matéria escura encher-me

De tédio ao amplo mundo!

 

[55v]

 

Está bem que, tendo amado, descobríssemos,

Que não amaramos, |*transeuntes| ao acaso

       Do encontro, não da sorte,

Incógnitos pois ambos sonhávamos.

Passado[1] o baile, as máscaras tiramos

       E o que com elas éramos da festa

Longe eu do vilão e do baile.

_______

|*E em casa seguindo-se olhares estrangeiros

Jazíamos com o sono nosso[2] do alheio|

Que não mostra nada.

 

 

[1] Passado /Deixado\

[2] nosso/igual\

https://modernismo.pt/index.php/arquivo-almada-negreiros/details/33/2251
Classificação
Literatura
Heterónimos
Dados Físicos
Dados de produção
Português
Dados de conservação
Biblioteca Nacional de Portugal
Palavras chave
Documentação Associada
João Gaspar Simões, Novos temas: ensaios de literatura e estética, Lisboa, Inquérito, 1938, pp. 189-192.