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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Presença

Sob a direcção de José Régio, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões surgiu em Coimbra, em Março de 1927, esta “folha de arte e crítica” que marcou a cena literária portuguesa nos últimos anos da década de 20 e ao longo de toda a década de 30. A ideia da criação da revista partiu de Branquinho da Fonseca, mas foi um outro colaborador, Edmundo de Bettencourt, quem lhe encontrou o título - um título forte e sugestivo, com um potencial semântico em que se destaca a ideia de existência ou comparência num lugar e num tempo determinados, neste caso num presente enquadrado na modernidade literária. Presença teve duas séries, a primeira com 54 números editados entre 1927 e 1938, e a segunda com dois números, dados à estampa entre 1939 e 1940. Em 1977 foi ainda publicado um número especial, comemorativo do centenário. O aspecto gráfico da revista chamava a atenção, pela diversidade dos tipos utilizados, pela profusão de vinhetas e ilustrações, pela originalidade da paginação, pela disposição dos títulos dos poemas (na vertical, em três colunas, etc.), pelo papel pardo ou rosado em que era impressa (mais barato, mas também menos usual nas publicações do género) e até pela minúscula inicial que o título Presença passou a exibir a partir do nº 4.

Ao grupo presencista pertenceram, além dos nomes já mencionados, António de Navarro, Carlos Queiroz, Adolfo Casais Monteiro (que integrou a Direcção a partir do nº 33), Alberto de Serpa, Adolfo Rocha (que viria a adoptar o pseudónimo Miguel Torga a partir de 1934), Saul Dias (que como pintor assinou com o nome próprio Júlio), Francisco Bugalho e Fausto José. A revista contou, no entanto, com a colaboração de várias gerações de poetas, ficcionistas, ensaístas e artistas plásticos. Assim, encontramos nas suas páginas textos de Luís de Montalvor, Fernando Pessoa e heterónimos,  Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Ângelo de Lima, Raul Leal, Mário Saa e António Botto; de Afonso Duarte, Pedro Homem de Melo, Irene Lisboa (ocasionalmente com o pseudónimo João Falco), António de Sousa, Vitorino Nemésio, Teles de Abreu (pseudónimo de Jorge de Sena) e Tomaz Kim; de Diogo de Macedo, Alexandre de Aragão, Olavo d’Eça Leal, Guilherme de Castilho, José Marinho, José Bacelar, Delfim Santos, Fernando Lopes Graça e Albano Nogueira; e, a partir de finais dos anos 30, de Mário Dionísio, João José Cochofel, Fernando Namora, Joaquim Namorado, António Ramos de Almeida, etc. No domínio das artes plásticas, os principais colaboradores foram Almada, Sarah Afonso, Bernardo Marques, Mário Eloy, Júlio, Dordio Gomes e Arlindo Vicente. Um desenho de Arpad Szenes e outro de Maria Helena Vieira da Silva foram reproduzidos em Presença, respectivamente em 1935 e em 1940.

Em Junho de 1930 deu-se uma primeira cisão no grupo presencista, com a saída de Adolfo Rocha, Edmundo de Bettencourt e Branquinho da Fonseca, que enviaram a José Régio e João Gaspar Simões uma carta na qual justificavam o seu afastamento. Os três dissidentes manifestavam a sua discordância perante “a perspectiva dum tipo único de liberdade”, numa evidente alusão ao magistério de Régio: “(...) Parecendo actual e contínua, como exige a correspondência a uma superior inquietação, “Presença” deixa envelhecer o seu título, não vê a queda próxima no arcaísmo estático das escolas, e não sente o ambiente mole do ar viciado pelas insofismáveis flores-consideração de adepto para adepto. (...) “Presença” concebe mestres e discípulos com aquela interpretação convencional, em que os mestres fazem lições para os que reputam alunos (...)”. A dissidência de Adolfo Rocha, Edmundo de Bettencourt e Branquinho da Fonseca foi   objecto de várias leituras críticas, que viram nela, essencialmente, a expressão dum conflito intrageracional. José Régio aludiu à cisão num texto publicado no nº 28 de Presença, e comentou-a nos seguintes termos, em carta de 1 de Julho de 1930 a Adolfo Casais Monteiro: “(...) Sabe, numa palavra, o que a “Carta” me parece querer dizer? É que os seus autores não quereriam que na “Presença” houvesse alguns maiores e outros menores” (cf. Colóquio/Letras, nº 38, Julho de 1977, pp. 62-63). Alguns estudos críticos secundaram o ponto de vista de Régio, outros focaram motivações psicológicas e  interpretaram a cisão como resultado da tensão entre individualismos literários e temperamentais. Veja-se, por exemplo, F. J. Vieira Pimentel: “(...) Terá sido, portanto, no conflito entre Régio e Torga, na oposição das respectivas personalidades, humanas e “poéticas” (estas últimas então com maiores afinidades do que eles decerto teriam gostado), que em boa medida residiu o obstáculo mais poderoso à permanência dos equilíbrios e à possibilidade de concertação” (PIMENTEL 2003: 44-45).

Dez anos mais tarde, um novo desentendimento no seio da revista, desta vez entre Casais Monteiro e Gaspar Simões, precipitou o fim de Presença: ao apodar de “reaccionários” uns “Diálogos Inúteis” que Gaspar Simões publicou na 2.ª série, Casais pôs em xeque o individualismo estético que durante anos garantiu a unidade programática da folha coimbrã, e consequentemente a viabilidade da sua continuação. Já antes, em finais dos anos 30, Presença fora muito atacada pelos jornais O Diabo e Sol Nascente, e por alguns neo-realistas que se demarcavam das concepções de Régio, reclamando para a arte uma responsabilização social e política que estava ausente das preocupações presencistas. Afastaram-se da revista alguns jovens colaboradores, como João José Cochofel, Fernando Namora, Mário Dionísio e Carlos de Oliveira. Em 1939, uma viva polémica opôs Álvaro Cunhal e José Régio nas páginas de Seara Nova, a pretexto da publicação das ”Cartas Intemporais” deste último, nos nºs 608 e 609. Mesmo assim, Régio reiterou no editorial do primeiro número da 2ª série a defesa duma arte não directamente comprometida com as questões sociais e políticas: “Depois duma ausência de alguns meses, presença reaparece, remodelada. Reaparece num momento histórico tão perturbado, que a alguns parecerá desumanidade, mania, esta prova de atenção e amor às questões da arte, da crítica, da cultura, quando a questão social, a questão política e a questão económica deveriam, segundo esses, absorver todo o interesse de todos. Ora este mesmo facto é revelador: Como “folha de arte e crítica” presença - a revista presença manter-se-á uma publicação de arte e crítica; uma revista especializada, portanto. Inútil e sem sentido virem acusá-la de ser... o que ela firmemente se propõe” (2.º série, nº 1, p. 1). As circunstâncias políticas nacionais e internacionais, porém, tornavam extemporânea uma tal profissão de fé: nas palavras de Fernando Namora, a revista “não podia já corresponder às realidades instantes de um mundo que acabava de ser experimentado na guerra de Espanha para mergulhar numa outra guerra ainda mais reveladora da urgência de certos problemas e do quanto todo o homem neles participava” (Os Modernistas Portugueses, VI, “Textos Universais”, Porto, C.E.P., s/d. P.91). Estas razões, às quais veio somar-se a desinteligência entre dois membros da Direcção, tornaram inevitável o fim de Presença em 1940.

A revista definiu um rumo desde o seu primeiro número, com o editorial de José Régio “Literatura viva”. Afirmava esse texto liminar: “Em Arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. (...) Pretendo aludir nestas linhas a dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhe esse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade. A falta de originalidade da nossa literatura contemporânea está documentada pelos nomes que mais aceitação pública gozam. É triste - mas é verdade. Em Portugal, raro uma obra é um documento humano, superiormente pessoal ao ponto de ser colectivo. (...) Eis como tudo isto se reduz a pouco: Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura viva que ele produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço” (nº 1, pp. 1-2). Disseminadas pelas páginas da “folha de arte e crítica” coimbrã, algumas citações (como a de Vlaminck: “En art, il n’y a que deux choses essentielles: l’instinct et le don”) reforçavam uma orientação estética cujos fundamentos eram o individualismo criador, o anti-academismo, a originalidade e a sinceridade artísticas, a consciência do ‘eu’ e a descida aos abismos do psiquismo humano. Estes traços, que reaparecem na obra poética, ficcional e dramática dos presencistas, revelam inequivocamente a influência que sobre eles exerceram as leituras de Freud, de Bergson (este último com os seus escritos sobre os “dados imediatos da consciência”) e de Dostoievski (em cuja obra João Gaspar Simões analisa a “revelação dinâmica do mecanismo psicológico” das personagens, num artigo intitulado “Depois de Dostoievski” e publicado no nº 6).

É também um denominador comum da geração presencista a representação do Poeta e da Poesia, reiterada de obra para obra no modo do auto- ou do alo-retrato e com modulações bastante diversas. Essa representação conjuga o paradigma romântico do artista como um ser predestinado, singular e superior com a modernidade duma self-consciousness em nome da qual a poesia reflecte sobre si mesma e a si mesma se reflecte. O retrato do Poeta é um motivo central na obra dos autores presencistas, realçando uma diferença ou excepcionalidade que muitos textos teóricos, programáticos ou ensaísticos glosam também de forma sistemática nas páginas da revista. Também nas artes plásticas ele encontra lugar, sobretudo nos desenhos de Júlio, que no seu lirismo à maneira de Chagall recorrentemente figuram o jovem poeta, solitário ou acompanhado da mulher amada. O retrato do Poeta amplia-se ainda noutras evocações, por exemplo naquela que Régio faz de Charlot (“Legendas cinematográficas - II - Charlie Chaplin” nº 2, p. 8), mostrando como “o seu ar lamentável, o seu bigodinho à americana, o seu andar salta-pocinhas, as suas pernas flectindo nas rótulas, os seus pés desviados” lhe compõem  uma figura grotesca de quem o vulgo se ri, mas sobrepondo a essa imagem a de um grande artista “inimitável e solitário”: “(...) Diante do outro, do desconhecido que pressinto sem talvez chegar a entendê-lo, dobro o joelho” (ibid.). Presença construiu assim uma prosopopeia, uma figuração do poeta (ou do artista em geral) que leva às suas últimas consequências o preceito do individualismo criador (Régio chegou a definir o artista como “um Homem em quem certas faculdades normalmente desenvolvidas nos outros possuem um desenvolvimento anormal”, em “Lance de vista”, nº 6, p. 5).

O questionamento crítico sobre as noções de “moderno” e de “Modernismo” é patente desde os primeiros números da revista, em artigos como “Classicismo e Modernismo” (nº 2), “Da geração modernista” (nº 3) e “Ainda uma interpretação do Modernismo” (nº 23), todos eles assinados por Régio, e “Modernismo” (nºs 14-15), da pena de Gaspar Simões. Nestes textos, a geração presencista procura situar-se e enquadrar-se (situar e enquadrar a sua “presença” histórico-literária) pela via crítica, num continuado exercício de autocompreensão que passa pela inteligência das grandes linhas de força da arte e do pensamento contemporâneos. É assinalável a acuidade desse exercício crítico, e não admira que, a tão escassa distância temporal do seu objecto, alguns textos utilizem  indistintamente os termos “moderno” e “modernista”, ou em nome dessa indeterminação periodológica façam caber na mesma argumentação os poetas de Orpheu e alguns autores universais da modernidade, como Proust, Dostoievski ou Gide. José Régio, que em 1925 defendera na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra uma dissertação sobre “As correntes e as individualidades na moderna poesia portuguesa” (refundida e publicada em 1941 com o título Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa), levou por diante em Presença uma reflexão sobre o nosso Modernismo, mostrando como “nenhuma das principais correntes estéticas contemporâneas sintetiza” esse movimento, “porque é a personalidade moderna que as engloba a todas” (nº 2, p. 2). Em “Classicismo e Modernismo”, sublinha a procedência romântica dessas várias correntes estéticas e analisa a tensão clássico/moderno. Em “Da geração modernista”,  traça o perfil de três “personalidades” artísticas - Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa e Almada Negreiros - e procura sobretudo “apontar algumas características da nossa literatura moderna, vulgo modernista”, destacando três aspectos: “ - Tendência vincada e confessa para a multiplicidade de personalidade”; “ - Tendência para o abandono às forças do subconsciente, e simultaneamente para o domínio da intelectualidade na Arte”; “ - “Tendência para a transposição, isto é: para a expressão paradoxal das emoções e dos sentimentos” (nº 3, p. 2). Por seu lado, o artigo “Modernismo”, de João Gaspar Simões, define a “arte moderna” como “essencialmente individualista” e interpreta a proliferação de -ismos contemporâneos (Cubismo, Futurismo, Dadaísmo, Expressionismo, etc.) como sinal disso mesmo, concluindo: “(...) Em alguma coisa, porém, desde já, se pode dizer que é superior a nossa época - na valorização da individualidade. Nunca se chegou tão além na investigação de nós mesmos. O que havia de mais irrevelado, mais virgem, mais misterioso, mais complexo no homem - tentaram-no os artistas modernos. E nisto repousa grande parte da sua singularidade. Contudo não é por ser estranho, bizarro, singular que um artista é moderno. Não é por se dizer modernista ou querer sê-lo que o é; como não é por ser modernista que é grande - um artista é grande quando é ele próprio, e tanto maior quanto mais original, mais pura, mais virgem for a sua personalidade. O que exibir mais poderosa, natural e sinceramente estas qualidades será o mais modernista dos artistas” (nºs 14-15, p. 3).

Foi precisamente à luz destes pressupostos que Presença leu a obra de alguns dos seus autores de referência, entre os quais avultam Proust (cf. o nº 5), Dostoievski (nº 6), Ibsen (nº 11), Gide (nº 12), Joyce e Pirandello. A estes nomes cimeiros, juntou ainda os de alguns poetas ligados à Nouvelle Revue Française (Valéry Larbaud, Jules Supervielle) e, mais tarde, os de novos poetas e prosadores do Brasil (Jorge de Lima, Cecília Meireles, Ribeiro Couto, Manuel Bandeira, José Lins do Rego), num esforço pioneiro de divulgação das literaturas de além-fronteiras, sobretudo a russa, a francesa, a italiana e a brasileira.

Paralelamente, Presença levou a cabo um sistemático trabalho de divulgação dos poetas de Orpheu. Logo no nº 5, publicou um poema inédito de Mário de Sá-Carneiro e textos de Álvaro de Campos e de Pessoa ortónimo. Daí em diante, incluiu nas suas páginas abundante colaboração de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares, bem como alguns textos de Mário de Sá-Carneiro, Almada, Ângelo de Lima e Luís de Montalvor. Uma série de “tábuas bibliográficas” contribuíram para relançar a geração órfica na cena literária: a primeira foi dedicada a Mário de Sá-Carneiro (nº 6) e seguiram-se-lhe outras sobre Pessoa (nº 17), Raul Leal (nº 18), Mário Saa (nº 19), António Botto (nº 20) e José de Almada Negreiros (nº 21). O propósito de divulgação traduziu-se ainda num significativo número de artigos críticos, da autoria de Régio, Gaspar Simões ou Casais Monteiro, sobre aquela geração e sobre a obra dos seus vultos maiores. Por ocasião da morte de Fernando Pessoa, a revista prestou-lhe homenagem (nº 47), reclamando a publicação da sua obra, e logo depois dedicou o nº 48 ao poeta da Mensagem, em quem sempre reconheceu “uma das mais ricas e originais individualidades da literatura portuguesa” (p. 1). Foram publicados nesse número o conhecido desenho de Almada Negreiros, excertos de algumas cartas de amor de Fernando Pessoa, ensaios de Raul Leal, Luís de Montalvor, Guilherme de Castilho e João Gaspar Simões (este último acompanhando explicativamente uma carta de Pessoa, datada de 11 de Dezembro de 1931) e ainda evocações do poeta por Carlos Queiroz, Gil Vaz e Pierre Hourcade. No nº 49 foi publicada a carta de Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de Janeiro de 1935, sobre a génese dos heterónimos. A carta vinha acompanhada dum fino comentário de Casais, que a considerava simultaneamente “documento”, “página autobiográfica” e “obra de arte, (...) criação literária”, e se debruçava sobre o “caso” Pessoa, avançando hipóteses explicativas da heteronímia.

Ao chamar assim a si a tarefa de reabilitação da geração que imediatamente a precedeu, Presença assumiu uma vocação pedagógica, historiográfica e crítica que definitivamente a marcou e que em parte explica a tese defendida por Eduardo Lourenço no artigo “Presença ou a contra-revolução do Modernismo português” (publicado em 1960 no suplemento “Cultura e Arte” d’ O Comércio do Porto, e mais tarde incluído no vol. III de Estrada Larga e na colectânea de ensaios Tempo e Poesia). Eduardo Lourenço propõe uma definição do movimento presencista “como reflexão sobre o Modernismo e, simultaneamente, refracção do Modernismo”. Sustenta a sua leitura de Presença como “contra-revolução”, recusando a designação “Segundo Modernismo” por esta introduzir “a ideia de uma diferença numa continuidade”. Para tanto, sublinha “a diferença de mundos, a diferença de peso ontológico e formal” entre a poesia órfica e a poesia presencista, e procura “a raiz última dessa diferença abismal” em “duas implantações antagónicas da consciência poética em face de si e do universo”. Este  ensaio tornou-se uma das peças-chave da bibliografia crítica sobre Presença e teve um efeito de detonador, dando azo a outros textos críticos que lhe reagiram, nomeadamente os de Gaspar Simões, de Jorge de Sena, de Óscar Lopes e de David Mourão-Ferreira. Primeiro no registo afirmativo, o título “Presença ou a contra-revolução do Modernismo português” acabaria por figurar nas reedições em versão interrogativa (segundo Gaspar Simões, “teria sido o desacordo de Jorge de Sena que concorreria para que Eduardo Lourenço viesse a apor ao título do seu ensaio (...) a cautelosa interrogação”). Na verdade, o lugar histórico-literário de Presença e a designação do movimento como um “Segundo Modernismo” estão longe de ser pacíficos e têm sido objecto de larga discussão. Na publicação comemorativa do cinquentenário, enquanto Gaspar Simões chama a atenção para o “que na Presença foi de facto revolução” (cf. “A posteridade da Presença”), Fernando Guimarães mostra como a revista se definiu “através de duas linhas de desenvolvimento, talvez, aparentemente, antagónicas: a da tradição e a da vanguarda”, acrescentando que “foi em face deste duplo apelo que a geração presencista teve de se afirmar” (“O que foi a Presença?”, p. 27; republicado, com o título “Entre vanguarda e tradição: a Presença”, em Simbolismo, Modernismo e Vanguardas, 1982).

Seja como for, uma plena compreensão crítica do fenómeno presencista passa pelo reconhecimento desapaixonado da sua novidade literária, do seu arrojo e mesmo da sua iconoclastia - recorde-se o episódio da devolução, por parte de muitos assinantes, do número duplo 31-32, que incluía o certamente muito escandaloso texto de Raul Leal “A Virgem-Besta”. Passa, também, pelo entendimento da coerência programática da revista  (a defesa do individualismo criador, de um estilo que é intrínseco à personalidade do artista - cf. “Do Estilo”, nº 8), independentemente da irredutibilidade da obra dos seus colaboradores (tão diferentes entre si, o delicado lirismo de Saul Dias, o fôlego retórico de Régio, os audaciosos jogos verbais de António Navarro, a contida e pessoana poesia de Carlos Queiroz, etc. são as múltiplas faces desse individualismo estético). Passa, depois, pela problematização atenta da relação entre Presença e a vanguarda órfica - uma relação que privilegiou a exegese, e que ao nível da assimilação propriamente poética se quedou pela reinterpretação e cristalização de alguns tópicos e imagens (a cisão do sujeito, os dualismos, a máscara, a atitude funambulesca), dando-lhes todavia um alcance psicológico, religioso ou moral. Passa, ainda, pela percepção do valor absoluto que os presencistas atribuíram à arte - “um valor por assim dizer tangível”, implicando “uma realidade em si indestrutível”, nas palavras de Gaspar Simões (“A posteridade da Presença”, p. 21) - , nisso divergindo da negatividade da vanguarda. E passa, sobretudo, pela identificação do contributo histórico-cultural da revista de 1927. Tal contributo deu-se a vários níveis: na intensa actividade editorial desenvolvida (as edições “Presença” publicaram uma longa lista de livros de poesia, ficção e crítica literária); na divulgação das literaturas estrangeiras, abrindo as portas da cena literária portuguesa (no artigo “Nacionalismo em Literatura”, Gaspar Simões enaltece o “papel que a cultura diferenciada e universal desempenha na formação e no descobrimento duma personalidade artística” - nº 7, p. 1); na prática sistemática da actividade crítica, em conformidade com o subtítulo da revista; na diversidade dos seus interesses, que vão desde a filosofia (cf. a colaboração de José Marinho, Delfim Santos e José Bacelar) até à arte popular (são da autoria de Afonso Duarte os artigos “Subsídios de arte popular portuguesa” e “Os cantos do Natal e o sentimento religioso popular”); na publicação de cartas inéditas de António Nobre, João de Deus e Manuel Laranjeira; e na atenção às diversas formas de expressão artística, como a música (F. Lopes Graça escreve no nº 47 sobre a “revolução schoenberguiana”), as artes plásticas, o bailado (referências a Nijinski), a dança (Josefina Baker inspirou alguns poemas e é mencionada por Régio no final do seu ensaio “Literatura livresca e literatura viva”), o teatro e o cinema.

 

 

BIBL: David Mourão-Ferreira - Presença da ”Presença”, Porto, Brasília, 1977; Jorge de Sena - Régio, Casais, a “Presença” e Outros Afins, Porto, Brasília Editora, 1977; João Gaspar Simões - José Régio e a História do Movimento da “Presença”, Porto, Brasília Editora, 1977.

 

 

Clara Rocha