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Poemas ingleses

Poemas Ingleses é a designação pela qual, tradicionalmente, é conhecida a produção em língua inglesa escrita por Fernando Pessoa ao longo da sua vida. Esta denominação geral proveio do título com que Pessoa publicou, ainda em vida, alguns poemas seus em inglês – English Poems I-II e English Poems III – que, depois da sua morte, foram republicados em várias edições, anexando ao mesmo título outros conjuntos e outras composições escritas também em inglês.

Assim, constam do primeiro conjunto, English Poems I-II, a segunda versão de Antinous e ainda Inscriptions; o segundo opúsculo, English Poems III, é preenchido com Epithalamium, ambos editados em 1921.

No entanto, ao republicar estes poemas em 1987, Jorge de Sena anexou a essa edição os 35 Sonnets, publicados também por Pessoa em 1918, dando-os a público com o título geral de Poemas Ingleses e com a respectiva tradução (de Jorge de Sena, Adolfo Casais Monteiro e uma participação de José Blanc de Portugal).

Mais recentemente, entre 1993 e 1999, foram publicados de novo com o mesmo título geral – Poemas Ingleses – os três volumes que englobam, em edição crítica, o mais importante da obra pessoana em língua inglesa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets (tomo I); a poesia assinada por Alexander Search (tomo II); The Mad Fiddler (tomo III).

Também na mesma década foi publicado, com o título Poesia Inglesa, um primeiro volume, em edição bilingue, com as obras acima referidas e poemas dispersos, em 1994, o qual, mais tarde alargado e reformulado de modo mais abrangente, deu origem a três volumes, também em edição bilingue: Poesia de 1999, Poesia Inglesa I e Poesia Inglesa II, em 2000, este último contendo 96 poemas, dos chamados “dispersos”, escritos ao longo de toda a vida literária.

Embora alguns poemas ingleses tivessem sido publicados dispersamente nas décadas de 70 e 80, geralmente para ilustrar determinado tema ou complementar algum assunto em estudo, foi nas edições acima mencionadas e referenciadas neste volume que, de modo programado e sistemático, a obra em inglês foi dada a conhecer.

De todos estes poemas e conjuntos se dá conta, em lugar próprio e com o devido relevo e pormenor, ao longo do Dicionário

Na actual situação dos estudos pessoanos, conhecida que está e sobejamente divulgada e acessível toda a produção do poeta, anterior e posterior à criação dos heterónimos (até 1914 foram escritos mais de 200 poemas em inglês), parece óbvia a importância desta parte do seu trabalho para um estudo completo do poeta. Em relação à poesia juvenil, a maior parte escrita em nome de Alexander Search e, evidentemente de menor qualidade, o seu interesse ultrapassa a curiosidade documental para se converter num instrumento da maior importância na investigação da génese das principais obras e dos principais nomes em que Pessoa se escreveu em português.

 Depois de tão largo tempo de contacto directo com o inglês falado e estudado na África do Sul e da própria escrita poética nessa língua, não admira que sejam visíveis, nos poemas em português dos primeiros anos após o seu regresso, as marcas estruturais e vocabulares transpostas para o seu português criando, a par de neologismos, novos usos da gramática, certamente motivos de estranheza para os leitores da época – uma nova língua poética subjacente às diferentes linguagens em que se desdobrou e um português mais maleável, mais dinâmico, mais vivo, que viria a influenciar o dizer de um século. Pelo contrário, em inglês, a sua escrita poética foi sempre mais tradicional, nunca abandonando o sistema de rima.

 Perdido o contacto físico com o país e com as pessoas que o transmitiram, o inglês de Pessoa enquistou-se nas formas literárias da sua aprendizagem académica, desenvolvendo com os anos um inglês peculiar e convertendo o seu trabalho nessa língua numa outra linguagem (ou numa outra “máscara”) própria e única, embora assinada em seu nome.

Em relação à qualidade desse inglês usado pelo poeta, as opiniões dos falantes de língua inglesa não se mostram unânimes, embora sejam concordantes no que diz respeito à sua dificuldade, complexidade e ao cariz literário em que se exprimiu, sobretudo nos 35 Sonnets. Talvez devido a essa relação com o inglês literário, a sua escrita poética nessa língua foi sempre mais tradicional, nunca abandonando o sistema de rima.

Podemos dividir a poesia inglesa escrita por F. Pessoa em dois períodos principais de produção, que correspondem à sua evolução intelectual como escritor e ao seu amadurecimento como homem, embora a sua temática se tenha mantido a mesma: um primeiro período de aprendizagem poética, de pesquisa e de conhecimento interior, entre 1903 e 1910, em que a escrita poética se esboçou, no princípio, sob vários nomes ingleses e se concretizou com Alexander Search, a primeira criação importante da sua imaginação; um segundo período, entre 1911 e 1935, correspondente à produção assinada por Fernando Pessoa em seu nome e que decorreu em paralelo com os períodos mais férteis da sua poesia em português. Essa poesia corresponde igualmente ao que, de melhor e mais interessante, o poeta escreveu em inglês. Terá interesse destacar que, mesmo no tempo mais febril de criação heteronímica, o poeta nunca deixou de escrever em inglês, língua que o acompanhou até à sua morte, pois foi nesta língua a última e conhecida frase que proferiu – “I know not what the future will bring”.

 

BIBL.: Jorge de Sena, Fernando Pessoa & Cª Heterónima, Lisboa, edições 70, 1984; Luísa Freire, Fernando Pessoa – Entre Vozes, entre Línguas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004.

 

Luísa Freire