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Poemas inconjuntos

Segundo Álvaro de Campos, nas suas Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro, foi Ricardo Reis que concebeu o título da terceira parte da obra caeiriana, mas segundo Ricardo Reis, no seu Prefácio à poesia de Caeiro, foi a Álvaro de Campos que ocorreu esta designação. Seja como for, tanto um como o outro consideravam os Poemas Inconjuntos, à semelhança de O Pastor Amoroso, o produto de um Caeiro impuro, diluído, irregular. Diz Campos, nas Notas: «Nos Poemas Inconjuntos há cansaço, e portanto diferença. Caeiro é Caeiro, mas Caeiro doente. Nem sempre doente, mas às vezes doente. Idêntico mas um pouco alheado. Isto aplica-se sobretudo aos poemas médios dessa terceira parte da sua obra.» E para elucidar o seu ponto de vista, o engenheiro naval diz que, conquanto nunca pudesse conceber-se capaz de ter escrito qualquer poema de O Guardador de Rebanhos, consegue imaginar-se o autor de alguns dos Poemas Inconjuntos. Assim, não é de admirar que dois poemas de uma lista de Poemas Inconjuntos, «O conto antigo da Gata Borralheira» e «Duas horas e meia da madrugada», tenham sido publicados em edições da poesia de Álvaro de Campos, pois a recordação de tempos antigos do primeiro e a encenação dramática do segundo são mais típicas deste heterónimo, embora também haja, tanto num poema como no outro, fortes reflexos do pensamento caeiriano. Seriam estes, entre outros Poemas Inconjuntos, que necessitariam de uma revisão não apenas verbal mas também «psicológica», segundo explicou Pessoa numa carta enviada a João Gaspar Simões em 25/2/1933. Datados de 12/4/1919, os dois poemas poderiam ser considerados temporalmente «médios», quando Caeiro, segundo as citadas Notas, estava mais obviamente «doente». No entanto, há poemas escritos no mesmo dia que mostram o mestre de boa saúde. Aquele em que o poeta começa por dizer «Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas» e observa que «Para mim, graças a ter olhos só para ver, / Eu vejo ausência de significação em todas as cousas» poderia perfeitamente figurar ao lado dos poemas XXIV e XXXIX, em O Guardador de Rebanhos. «Verdade, mentira, certeza, incerteza...» e «Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo», escritos em 12/4/1919 e 20/4/1919, respectivamente, fazem reflexões filosófico-linguísticas sobre a natureza da realidade que lembram poemas de O Guardador como «Passa uma borboleta por diante de mim» (XL) ou «Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta» (XLX). Aliás, o primeiro dos dois Poemas Inconjuntos referidos a este respeito vai mais longe na sua meditação do que qualquer dos outros três poemas.

            Esta oscilação na poesia pós-Guardador — entre composições mais frouxas, menos Caeiro, e outras (poucas) que, pelo contrário, conseguem aprofundar certas intuições contidas naquele espantoso livro — foi claramente reconhecida por Pessoa no seu inacabado prefácio a Aspectos, título geral para a publicação das suas obras heteronímicas em vários volumes. Aludindo à de Alberto Caeiro (numa altura em que a terceira parte do seu livro, ainda sem nome, era denominada «outros poemas e fragmentos»), repara que, em consequência da doença física que prejudicou «a perfeita lucilação imaginativa ou sensível» da sua escrita, «temos, nos poemas fragmentários finais do livro, em certo ponto ainda a continuação do aprofundamento, pela evolução do espírito do poeta, em outros pontos uma turbação da obra, pela doença final».

            Dos mais de setenta Poemas Inconjuntos, os primeiros dois com data surgem em 17/9/1914 (só foram publicados pela primeira vez em 2001). Um terceiro poema, «Para além da curva da estrada», data certamente do mesmo ano. A grande maioria dos restantes poemas do ciclo foi escrita entre 1915 e 1919. Uma meia dúzia de poemas é certamente datável de entre 1920 e 1924, não havendo mais nenhum até 1930, ano em que surgem os últimos dois. Em 1925 Fernando Pessoa publicou, na revista Athena (n.º 5), uma «Escolha de Poemas de Alberto Caeiro (1889-1915)», dezasseis em número, com a indicação «dos Poemas Inconjuntos» e a data fictícia de 1913-1915. É possível que o título lhe tenha surgido apenas nessa altura. O título inicialmente previsto para os poemas avulsos de Caeiro era O Andaime. Ricardo Reis, a quem a «família» de Caeiro supostamente encarregou da edição das suas obras, justificava a sua escolha deste título por um familiar lhe ter contado que o poeta, já perto da morte, comentara a propósito desta parte da sua obra: «não passa de um andaime». O título serviu, afinal, para o célebre poema do ortónimo, escrito em 29/8/1924 e publicado na revista coimbrã Presença, de Março-Junho de 1931. Foi nesse mesmo número que Pessoa publicou mais um dos Poemas Inconjuntos, a que deu o título de «O Penúltimo Poema», decerto para indicar o seu lugar sequencial (fictício) na trajectória da obra de Caeiro (na verdade, foi escrito em 7/5/1922) e não como um verdadeiro título destinado a figurar na edição do livro. Também existe um poema de despedida, que no original é encimado pela indicação «Last Poem», que também não parece ser um verdadeiro título. Supostamente «ditado pelo poeta no dia da sua morte», é, em boa verdade, um poema de não-despedida, pois o «mestre», ao invés de saudar o sol, dizendo-lhe adeus, limitou-se a fazer um «sinal de gostar de o ver ainda, mais nada».

            Nos Poemas Inconjuntos, tal como em O Guardador de Rebanhos, Caeiro insiste em ver as coisas como são, e afirma que o que são é exactamente aquilo que mostram, exactamente o que se vê. Uma vez claramente exposta esta visão tautológica, nos versos cristalinos da obra mais antiga, era inevitável que Pessoa-qua-Caeiro turvasse um pouco a sua escrita poética, para não se repetir. Ricardo Reis, no seu já referido Prefácio, explica que a inspiração inicial «[n]ão se desvia, propriamente: senão que sofre a intrusão de elementos estranhos a ela». Basta isso para que o classicista lamente e conclua: «Que o amigo desculpe o crítico, quando ele se vê forçado a afirmar que o poeta morreu a tempo». Num outro passo do seu longuíssimo mas inacabado Prefácio, Reis explica em pormenor as suas reservas a respeito da parte final da obra caeriana:

Por um lado, falta-lhe o equilíbrio e a lucidez absoluta que são todo o valor real da obra primitiva; por outro lado, no que conservara de rigorosamente semelhante a O Guardador de Rebanhos, não fazem senão repeti-lo, numa forma sempre superior intelectualmente, mas com um conteúdo nem sempre suficientemente novo para que justifique que esses poemas se escrevam estando já escrito O Guardador de Rebanhos.

            Como se pode, de facto, justificar um complemento de poemas que dizem menos bem aquilo que O Guardador de Rebanhos já dissera tão incisivamente? Uma possível resposta reside no título deste complemento, Poemas Inconjuntos, expressão que lembra o verso de Caeiro que Pessoa, repetidas vezes, apontou como sendo o mais importante de toda a sua obra: «A Natureza é partes sem um todo» (O Guardador de Rebanhos, XLVII). Por uma questão de coerência lógica e artística, ciente do facto de que os conjuntos redondos e perfeitos são sempre ilusórios, Pessoa-Caeiro pode ter preferido deixar uma «obra completa» que tivesse o seu quê de fragmentário, de irregular, de destoante e imperfeito. E então deu-nos os Poemas Inconjuntos. Um destes que já foi citado, «Verdade, mentira, certeza, incerteza...», ensina que tudo, até a verdade, está em fluxo contínuo, mudando com cada ínfimo movimento do mundo, e o poema conclui: «Ser real é isto». Os Poemas Inconjuntos afirmam a supremacia da nunca estática, nunca perfeita realidade, sobrepondo-a a toda e qualquer «verdade», mesmo quando esta for dita pelo poeta-guardador de rebanhos.

 

 

Richard Zenith