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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Pessoa - Ortónimo

É extensa e variada a obra que Fernando Pessoa escreveu em seu próprio nome. Sem considerarmos a prosa ensaística (longa, fragmentária e em grande parte inédita), os artigos e crónicas em jornais e revistas, a ficção em prosa (contos, novelas policiárias, teatro), os poemas dramáticos e as traduções, é ainda assim enorme a produção de poesia em inglês, em francês e, sobretudo, em português. As mais recentes edições de poesia ortónima reúnem um conjunto de poemas, escritos entre 1902 e 1935, na grande maioria publicados postumamente (Pessoa publicara, em livro, Antinous e 35 Sonnets, em 1918, English Poems I-II e English Poems III, em 1921, Mensagem, em 1934, e cerca de duzentos poemas, de forma avulsa), que ultrapassa em muito a ordem das centenas. Se exceptuarmos as Quadras, de feição e imitação populares, e as Canções de Beber, segundo o modelo dos «Ruba’iyat» de Omar Khayyam, a restante poesia ortónima assume uma singularidade evidente dentro da obra pessoana.

Contraposto aos três heterónimos, Pessoa ortónimo é, não raro, aceite como sendo um «outro» mais de si próprio. Isto é, Pessoa assume, em seu nome, uma voz que se diferencia da das suas criaturas, mas que é, em boa medida, um outro desdobramento seu. Isto transparece, de resto, na forma como faz a encenação do seu teatro interior. Ele mesmo se define, em diversas ocasiões, como um palco, uma cena onde evoluem vários actores, lugar de encontro onde as suas personagens dialogam ou monodialogam. Na carta de 13-1-1935, confessa a Casais Monteiro: «Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isso me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim». Esta autonomia que as criaturas ganham coloca-o, por outro lado, ao mesmo nível delas. O ortónimo é posto em diálogo com os heterónimos, sendo mesmo apresentado como discípulo de Caeiro, mestre de todos. Álvaro de Campos contesta Fernando Pessoa (na mesma medida em que contesta Reis) e inclui-o nas «suas» Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro (ed. Teresa Rita Lopes, Lisboa, Estampa, 1997), com um estatuto semelhante ao dos companheiros de heteronímia.

Tal como Pessoa construiu as idades e os rostos de Campos, Reis ou Caeiro, Campos faz o retrato de Pessoa, compara-se com ele: «Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente. Nisto pareço-me (salvo um bocado mais de sensibilidade, e um bocado menos de inteligência) com o Fernando Pessoa; mas, ao passo que no Fernando a sensibilidade e a inteligência entrepenetram-se, confundem-se, interseccionam-se, em mim existem paralelamente, ou, melhor, sobrepostamente» (op. cit., p. 53). Fernando é também uma personagem da narrativa: «Desatámos todos a rir. “Compreendo e desisto”, disse o Fernando a rir connosco» (ibid. 64). E a sua obra é comentada, com a distância de um crítico: «E o que há de mais admirável na obra do Fernando Pessoa é esse conjunto de seis poemas, essa “Chuva Oblíqua”. (...) Que coisa pode exprimir melhor a sua sensibilidade sempre intelectualizada, a sua atenção intensa e desatenta, a sua subtileza quente da análise fria de si mesmo, do que esses poemas-intersecções, onde o estado de alma é simultaneamente dois, onde o subjectivo e o objectivo, separados, se juntam, e ficam separados, onde o real e o irreal se confundem, para que fiquem bem distintos. Fernando Pessoa fez nesses poemas a verdadeira fotografia da própria alma» (ibid., pp.75-76). Também Ricardo Reis, no Programa geral do Neo-paganismo Português, apresenta a posição particular de Pessoa, face ao movimento: «O ramo representado apenas por Fernando Pessoa crê que assim como, no fundo, o movimento cristista não foi senão uma interiorização do paganismo, assim no fundo o neopaganismo deve seguir a esteira do cristismo, mas no verdadeiro sentido» (Ricardo Reis, Prosa, ed. Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, pp.176-177).

Este ver-se de fora, consegue-o não só através das vozes dos seus «outros», mas também através da forma como concebe e pratica o acto de criação poética. Escrever pressupõe um desdobramento, um «fingimento», uma fractura do ser. Pessoa teoriza-o quer em prosa, quer no verso lapidar do poema «Autopsicografia»: «O poeta é um fingidor». E pratica-o, a cada passo: «Chegado aqui, onde hoje estou, conheço / Que sou diversos no que informe estou. / No meu próprio caminho me atravesso. / Não conheço quem fui no que hoje sou..» (1-8-1931); «E só me encontro quando de mim fujo» (11-12-1932); «Hoje que nada sou e nada quero / (...) / E nada sou do que foi eu em mim» (1-2-1934). O reflexo no espelho torna-se mesmo explícito, num poema que nomeia o sujeito da escrita, sujeito que é, assim, simultaneamente, seu objecto. Neste poema, até há pouco inédito, dos tempos de Orpheu, escreve: «Bateram com uma bota na cabeça de metade do silêncio / Os botões de calças das Ruas Estreitas roeram as unhas dos pés... / O meu amigo Fernando António Nogueira Pessoa sou eu. E vence-o / Uma frase bela, como esta “As desinências dos dez”».

À parte estas considerações, a poesia ortónima não pode deixar de ser lida como produção autónoma de um poeta dramático, que, através das suas múltiplas vozes, se viaja e se afirma. Distingue-se, em primeiro lugar, da poesia de cada um dos heterónimos, pelo estilo e pelas características formais: uso de rima, de métrica e composição estrófica regulares, musicalidade, recurso a formas consagradas como o soneto, por exemplo. Ainda assim, seria excessivo fazer uma completa demarcação formal, já que a poesia ortónima é ela também multifacetada, tomando, por vezes, inesperados contornos. É o caso do poema acima referido, num registo «surrealista», em longos versos livres, à maneira de Campos, e que só a nomeação do autor nos permite atribuí-lo ao ortónimo. O mesmo diríamos do poema de 1916, «A Casa Branca Nau Preta», publicado com a assinatura de Fernando Pessoa, em O Heraldo (Julho de 1917), em pleno fervor futurista, bem ao estilo do heterónimo. O caso do conjunto de seis poemas de «Chuva Oblíqua» (incluído em Orpheu 2) é também paradigmático. Embora  classificado, pelo provocador Campos, como «o que há de mais admirável na obra do Fernando Pessoa»,  lembra antes uma composição do Engenheiro, tendo chegado, no entanto, a ser atribuída a Alberto Caeiro. Igualmente, o poema de «Impressões do Crepúsculo», conhecido por «Pauis», «Pauis de roçarem ânsias pele minh’alma em ouro...», dá início e exemplifica um estilo particular, versilibrista, o Paulismo. É, com certeza, para dar continuidade a esta vertente, de que até há pouco «Pauis» aparecia como praticamente único exemplo, que escreve um extenso poema não datado, intitulado «O Último Cisne» (dado a conhecer na mais recente edição da poesia ortónima, em 2006), com as mesmas características.

Estes casos reportam-se, porém, a uma época em que Pessoa não tinha ainda completamente fixado e distribuído os papéis do seu «romance-drama», hesitando muitas vezes no reconhecimento de cada uma das vozes. Por outro lado, está-se então no auge do período modernista de Orpheu. Fernando Pessoa teoriza, nesta altura, sobre o Sensacionismo, criando um movimento que pretende português, mas que constitui um «acréscimo» em relação às correntes vanguardistas europeias. Apesar de ter construído uma personalidade futurista (Campos), destinada a ombrear com Almada Negreiros, Pessoa assume-se ele-prório como participante desse movimento mais fundo de renovação da poesia nacional.

O Sensacionismo, diz Campos num  prefácio em inglês para uma projectada Antologia de Poetas Sensacionistas, começou com a amizade entre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Aí, considera que Pessoa «padece de cultura clássica» e é «mais puramente intelectual do que os outros», lembrando que «cada sensacionista digno de menção é uma personalidade à parte». Marca, assim, a singularidade de Pessoa, que a si mesmo se encarrega do papel de representante principal de uma corrente da nova poesia cosmopolita e anti-tradicional (o Paulismo) e de praticar o Interseccionismo, um dos processos de realização do próprio Sensacionismo. «Chuva Oblíqua» surge, portanto, nesse contexto, ao lado de poemas como «Tu és o outono da paisagem-eu» (6-7-1914), constituído por quatro partes, rimado embora, ou «Ela era rainha destronada...» (1915). Pessoa terá, pois, aderido por necessidade conjuntural a estes registos formais mais inovadores, mas, formados que foram em definitivo os seus heterónimos e o âmbito das suas intervenções, terá optado por continuar a exprimir-se de um modo mais próximo de uma lírica tradicional (de que as inúmeras quadras,«ao gosto popular», são um bom exemplo).

Não deixa, porém, de inovar. A inovação reside nos temas e na forma como são trabalhados. Do ponto de vista temático, no entanto, as afinidades com a poesia heterónima são bem mais evidentes. A problematização do «eu» é comum a todos os heterónimos (e a Bernardo Soares ou ao seu antecessor inglês, Alexander Search), mas ganha uma presença mais insistente na poesia ortónima. «Quem sou?» é a grande interrogação que, muitas vezes, decorre de um sentimento de estranheza de si próprio (que os outros também experimentam): «Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...», escreve, em «Hora Absurda», e, num poema de 24-8-1930, «Não sei quantas almas tenho. / Cada momento mudei. / Continuamente me estranho.» A cisão entre o pensar e o sentir é outro dos temas recorrentes: «O que em mim sente ‘stá pensando» ou «Horror de sentir a alma sempre a pensar!», são apenas dois entre os muitos exemplos possíveis.

Recorrente é também a dicotomia sonho/realidade:  «Não sei se sou o sonho / Que alguém do outro mundo esteja tendo...» (19-10-1913); «Não sei se é sonho, se realidade, / Se uma mistura de sonho e vida, / Aquela terra de suavidade / Que na ilha extrema do sul se olvida.» (30-8-1933). Para Pessoa ortónimo, o sonho sobreleva quase sempre: «Sempre serás o sonho de ti mesmo / Vives tentando ser, / Papel rasgado de um intuito, a esmo / Atirado a perder.» (2-7-1931); «Se tudo é um sonho, / Façamos sonhos voluntariamente,» (6-8-1931). O sonho pode ser, muitas vezes, uma forma de evasão para um sujeito poético que se sente prisioneiro no interior de si mesmo: «Quem me amarrou a ser eu / Fez-me uma grande partida. / Debaixo deste amplo céu, / Não tenho vinda nem ida. / Sou apenas um ser meu. » (16-6-1934); «Quando é que o cativeiro /Acabará em mim, / E, próprio dianteiro, /Avançarei enfim? // Quando é que me desato / Dos laços que me dei? Quando serei um facto? Quando é que me serei?» (13-3-1931).

Outras vezes, é no regresso à infância, real ou sonhada, que o sujeito encontra consolação para o peso da consciência. A saudade desse tempo feliz, que aqui e além assoma em Campos, tradu-la o ortónimo em vários momentos: «E, lançado no abismo de aqui estar, / Lembro os meus amplos tempos de criança / E como era rápida a esperança.../ Deixem-me ouvir o coração parar!...» (16-3-1934); «A criança que fui chora na estrada. / Deixei-a ali quando vim ser quem sou; / Mas hoje, vendo que o que sou é nada, / Quero ir buscar quem fui onde ficou.» (22-9-1933). O passado regressa, outras vezes, através da memória de uma voz antiga ou de uma música, sendo o ortónimo aquele em que a música se revela mais influente: «Uma voz que canta e se demora. / (...) /  Murmúrio de quem embala, com um vago dó / De o menino ter de crescer.» (24-8-1930); «Vejo, a chorar, / O que essa música me entrega – / A mãe que eu tinha, o antigo lar, / A criança que fui, / O horror do tempo porque flui, / O horror da vida, porque é só matar.» (17-9-1935). Este último exemplo é retirado de um longo poema inacabado, «Un Soir à Lima», onde evoca a mãe tocando, sob o «grande luar da África», aquela melodia. Se mais exemplos não existissem, este poema por si só desmentiria a pretensa ausência de sentimento, ou a sujeição à frieza do raciocínio, de  que muitos, como o seu contemporâneo Teixeira de Pascoaes, acusam a poesia de Pessoa. Pelo contrário, o lirismo, nem sempre incontido, como no caso presente, perpassa na sua obra, irrompe em poemas onde o sujeito lamenta a solidão, a ausência de um lar, de um carinho: «Outros terão / Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.  / A inteira, negra e fria solidão / Está comigo. » (13-1-1920); «Onde pus a afeição, secou / A fonte logo.» (16-2-1920).

Curiosamente, estes são poemas da época em que Pessoa conhece Ofélia Queirós. O júbilo desse namoro transparecerá em breve em poemas de circunstância amorosa - surpreendentes, num poeta «animado pela Filosofia» – como esta quadra: «Quando passo o dia inteiro / Sem ver o meu amorzinho, / Corre um frio de Janeiro / No Junho do meu carinho». Mas convirá lembrar que, na poesia ortónima em português e em inglês, existem muitos outros poemas de amor, sobretudo dos tempos da juventude. É o caso de um soneto de 1902, intitulado «Antígona», em cuja primeira estrofe se lê: «Como te amo? Não sei de quantos modos vários / Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos; / Amo-te co’o o fervor dos meus sentidos gastos; / Amo-te co’o fervor dos meus preitos diários.». Ou o do poema de 1910,  «Folha Caída», de nítida inspiração garrettiana, que começa assim: «Nasceu uma flor, amor, / No meu coração. / Murcha já de dor, amor, / Fria de ilusão.». Ou ainda o deste,  «Complexidade», que deixa já entrever um crescente culto do paradoxo: «Oh como o meu amar-te, ó meu amor, te odeia! / Com que aversão te quero!» (12-5-1913). Encontramo-los igualmente nos anos trinta, como este de 28-10-1930, onde não está ausente uma sugestão erótica:  «Todo o teu corpo está dado / Nas tuas mãos que retenho./ Mais vale ter enganado / Do que ter porque não tenho.»

Outro tema com especial representação na poesia de Pessoa em seu próprio nome é o da morte e do seu mistério. Temida ou desejada, ela é também a grande libertadora da dor de viver. No entanto, assistimos em muitos poemas dos últimos anos a uma tomada de consciência, a uma desvelação desse mistério: «Já me não pesa tanto o vir da morte./ Sei já que é nada, que é ficção e sonho, / E que, na roda universal da Sorte, / Não sou aquilo que me aqui suponho.// Sei que há mais mundos que este pouco mundo / Onde parece a nós haver morrer – / Dura terra e fragosa, que há no fundo / Do oceano imenso de viver.// Sei que a morte, que é tudo, não é nada, / E que, de morte em morte, a alma que há / Não cai num poço: vai por uma estrada. / Em Sua hora, e a nossa, Deus dirá.» (6-7-1934). Este poema aponta decididamente na direcção do Esoterismo que constitui uma vertente fundamental da obra do ortónimo. Um poema intitulado «Iniciação» (publicado na revista presença, Maio de 1932) torna explícita essa via iniciática que Pessoa, na realidade, sempre terá tentado prosseguir. O significativo verso final « Neófito, não há morte.», remete-nos para duas outras composições do mesmo ano: «A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto./ Se escuto, eu te oiço a passada / Existir como eu existo.// A terra é feita de céu.// A mentira não tem ninho./ Nunca ninguém se perdeu./ Tudo é verdade e caminho» e «A morte mata somente / O poder-nos outrem ver. / Nosso ser segue presente / Naquilo que é nosso ser.»

Poderíamos ainda referir muitos outros poemas de cariz espiritual, mágico-esotérico, que ilustram, de alguma forma, os ensinamentos maçónicos, rosacrucianos, templários de que o poeta sempre se reclamou e que, por isso mesmo, se nos revelam com um pendor auto-biográfico que nem sempre lhes é reconhecido (lembremos «O Último Sortilégio», «Além-Deus», «No Túmulo de Christian Rosencreutz» ou «Eros e Psique»). Inspirada numa filosofia providencialista, profética e escatológica da História, é também a poesia de Mensagem, livro de uma rigorosa estrutura simbólica. O mesmo carácter simbólico preside, de resto, a poemas de cunho sebástico e patriótico, como o longo e exaltante «Quinto Império» ou o longo e desencantado «Elegia na Sombra» (2-6-1935). É justamente nesta faceta que melhor se afirma a marca singular da poesia ortónima, face à dos seus heterónimos.

E é também em nome próprio que surgem alguns poemas satíricos de circunstância política, como os que dedica a Afonso Costa – «4 de Julho de 1915» e «Afonso Costa» (1917) – , a Salazar e ao Estado Novo. Estes, escritos em 1935, a poucos dias da sua morte, constituem, por assim dizer, o outro lado da sua Mensagem, cumprindo também um papel na «terrível e religiosa» missão que Pessoa cedo se impôs: combater a tirania e erguer alto o nome de Portugal. Apesar dos muitos projectos e planos que se encontram no seu espólio, Pessoa não conseguiu dar à sua extensa produção poética uma arrumação. Pensou vários títulos, é certo, para os volumes possíveis – Cancioneiro, Itinerário, Poemas Portuguezes (ou este título como título geral, incluindo os anteriores também), Exílio, são alguns deles – , fez e refez longas listas de poemas a inserir nuns e noutros, mas, visivelmente, faltou-lhe em tempo de vida o que lhe sobrou em criatividade.

 

 

 

Manuela Parreira da Silva