logotipo Modernismo

  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Pessoa - Obra

Poucos escritores existirão em que vida e obra estejam tão intimamente ligadas. Pessoa viveu para escrever e escreveu-se para viver. Não viveu da sua escrita, no sentido habitual do termo (o único benefício material que dela tirou foram os cinco contos de réis que recebeu como prémio da Mensagem, já no ano em que morreu, 1935). Escrever-se foi, contudo, a sua única afirmação de vida. Como disse numa carta a Ofélia, que não desistia de casar com ele, toda a sua vida girava em torno da sua obra literária – “por boa ou má que seja”, acrescentava.

Tão complexa é, aparentemente, a personalidade e a obra de Fernando Pessoa que os seus exegetas dela se abeiram privilegiando sempre uma das faces do poliedro: o criador dos heterónimos, o neopagão, o esotérico, o modernista, o maçon…Impõe-se, contudo, vê-la também de longe, do alto, como uma paisagem, e entender a coerência que tem, quando assim contemplada. A obra de Pessoa ganha, de facto, em ser entendida na sua amplitude e complexidade, não só como a transformação alquímica (recorrendo a uma metáfora cara a Pessoa) do seu profundo sofrimento existencial mas também como intenso diálogo com o seu tempo – que ele assumiu, no Livro do Desassossego: “…cumpri, como nenhum outro, o meu dever-nato de intérprete de uma parte do nosso século.” Talvez por tudo isso Pessoa nos toca tanto: sentimos nos seus escritos uma “sinceridade” que não é a de coração nas mãos que ele recusava na literatura dos seus contemporâneos, mas a autenticidade de quem se investe inteiro em tudo o que escreve: “Põe quanto és no mínimo que fazes” – disse, pela boca de Ricardo Reis.

Nasceu no dia de Santo António (13 de Junho) de 1888 (por isso se chamou Fernando António Nogueira Pessoa), em pleno coração de Lisboa, no Largo da São Carlos, nº 4, defronte do Teatro de São Carlos que seu pai, crítico musical, habitualmente frequentava. Não teve tempo para aproveitar a cultura desse pai (Joaquim Seabra Pessoa) que sabia  francês e italiano e que escrevia no Diário de Notícias sobre ópera (especialista em Wagner), embora fosse, no dia a dia, obscuro funcionário da Direcção Geral da Contabilidade do Ministério dos Negócios Eclesiásticos e de Justiça. Tuberculoso, morreu a 24.07.1893, tinha o pequeno Fernando acabado de fazer cinco anos. Um ano depois, morreu o irmãozinho de meses, contagiado pelo pai.

Numa fotografia da época, vemos Fernando vestido de luto, o rosto velado por uma funda tristeza – talvez essa que lembrará mais tarde quando evoca, no Livro do Desassossego, “a criança triste em quem a vida bateu”.

Pessoa carregou toda a vida dois medos: o da tuberculose – que lhe levara o pai e o irmão – e o da loucura, que lhe ficara da presença quotidiana, até aos sete anos, da avó Dionísia, mãe do pai, a cujas crises, às vezes violentas, assistiu. De ambos se tentou, catarticamente, livrar, fazendo os seus Heterónimos adoecerem em seu lugar: Caeiro morreu tuberculoso, numa total serenidade, como um dia entra na noite, e Campos enlouqueceu de vez, exclamando, ao tocar com a mão a sua loucura: “Cá está ela, exactamente, na cabeça!”

Com sete anos e meio, a vida de Fernando sofreu outra reviravolta: mudou de país, de família, de língua: a mãe tornou a casar, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, e o rapazinho para lá rumou, agarrado à mão da mãe, Maria Madalena Nogueira (culta, de família açoriana ilustre, católica praticante).

Por essa altura o jovem Pessoa já sabia ler (aprendeu sozinho) e até, segundo ele conta, se correspondia com um amigo imaginário, o Chevalier de Pas, e tinha outro interlocutor, igualmente imaginário , também com nome francês, o Capitaine Thibeaut

( é provável que tivesse aprendido francês com a Mãe – o que também explicaria a sua relação afectiva com essa língua e que nela tenha escrito um poema, pouco antes de morrer, numa linguagem balbuciante de menino perdido: “Maman, maman / Tu me manques tant”).

Pessoa teve, desde cedo, o sentimento de ser vários – o que terá correspondido ao desejo de convivência do menino sozinho que brincava a ser muitos. De facto, quando lhe nasceu uma irmãzinha, Henriqueta Madalena, já Fernando tinha mais de oito anos.

Fez, em Durban, a instrução primária num colégio católico de freiras irlandesas e, depois, o ensino secundário na High School da cidade, com excelentes notas.

A primeira viagem a Portugal  representou, para o pequeno Fernando, que fez catorze  anos em Lisboa, um reenraizamento na língua e na cultura portuguesa. Criou então dois jornais em português, A Palavra e O Palrador (manuscritos) assim significativamente chamados, em que se desdobrou no director, Dr Pancrácio, e seus diferentes colaboradores. Um desses, revelado no Palrador de 24.05.1902, merece referência especial: Eduardo Lança, brasileiro da Baía (como o Padre António Vieira, venerado por Pessoa), que, tendo tirado um curso comercial, viera para Portugal, pouco depois de ficar órfão, instalando-se em Lisboa, onde já publicara quatro livros de poemas, num estilo “verdadeiramente português”.(É, de facto, premonitória, a vida e a obra inventadas para este cidadão da pátria-língua -portuguesa…)

O jovem Pessoa que regressa a Durban com catorze anos feitos é, de facto, diferente do que aportara, um ano antes, a Lisboa: contrastando com o primeiro poema que se lhe conhece, datado de Abril de 1902 , escrito em Lisboa, “Ave-Maria”, dedicado à Mãe, também Maria,  glosando a oração com esse nome, vamos ouvi-lo mais tarde blasfemar contra a Igreja Católica, seus santos e seus fiéis. (Efeito da leitura, em 1903, de A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro? Da tomada de consciência do que a família paterna, de Tavira, que visitou (judeus e maçons – os tais “fidalgos e judeus” assim por ele nomeados de que se orgulha) representava para a sua identidade, que então se definia?)

A verdade é que, desde o seu regresso a Lisboa, em 1905, até à sua morte, Pessoa manifestou, de diferente mas inequívoco modo, a sua rejeição, por vezes violenta, do que chamava a “Igreja de Roma”, ao mesmo tempo que se aplicava apaixonadamente ao estudo da astrologia (um antepassado seu, Sancho Pessoa, condenado a confisco de bens pela Inquisição tinha sido astrólogo e salmista) e da cabala (que nomeava, com reverência, “Santa Cabala”) e que se insurgia nos jornais contra o decreto-lei que, proibindo as associações secretas, visava, sobretudo, interditar a maçonaria.  E não é por acaso que o Heterónimo em que particularmente se espelha e que o acompanha até ao fim da vida, Álvaro de Campos, nasce em Tavira, tem “um vago ar de judeu português” (conforme Pessoa o descreve a Casais Monteiro) e chega a proclamar, numa entrevista, “o futuro império de Israel”.(Convém precisar que Pessoa, na sua própria pessoa, não o faria: assumindo-se judeu, Campos purgou-o também dessa carga genética, permitindo-lhe ser militantemente português, e só isso.)

 O desdobramento consequente em “personalidades literárias” (expressão de Pessoa para as que não atingiam o grau de autonomia dos Heterónimos) começou com o regresso a Durban, em 1902. David Merrick se chamou a primeira que, tal como o seu criador, era multifacetada: romancista (planeou um romance , Martin Kéravas, que seria, como escreveu “um apelo à paz”) contista (um dos contos é sobre”os males da guerra), dramaturgo ( Marino, The Epicure; Ignez de Castro).Note-se que Pessoa, que se autodenominou “um português à inglesa”, reuniu, nestas duas peças, as suas duas culturas: Marino, em inglês, influenciada por esse que considerou um génio, um “iniciado”, Shakespeare, e Ignez de Castro, em português, sobre um dos mais genuínos mitos lusitanos (Pessoa por Conhecer, I, 173-180.) 

A sua recente rebelião contra a Igreja Católica é também testemunhada por um título, Epitaph of Catholic Church (Epitáfio da Igreja Católica, que mais tarde realizará em português), de  uma lista-índice de poemas para uma obra, Sub Umbrâ.

Aparece num caderno assinado David Merrick uma lista de contos tipo “policiário”, como Pessoa lhes chamava, atribuídos a um tal Lucas Merrick, cujo nome foi posteriormente substituído pelo de Charles Robert Anon. Seria este Lucas uma variação de David ou um seu irmão? Pessoa gostava de conceber as suas personagens aos pares de irmãos, como os artistas de circo: assim os irmãos Search, Crosse, Wyatt. Até Ricardo Reis teve um irmão, Frederico…

Neste mesmo caderno , figuram ainda Eduardo Lança e o Dr. Pancrácio, que viajaram com Pessoa para Durban. Aí conviveram com David Merrick,  Charles Robert Anon ,  Horace James Faber e com Alexander Search, irmão gémeo de Pessoa que o fez nascer no mesmo dia e ano e lugar que ele próprio.

Ch.R.Anon é, sobretudo, poeta e filósofo. Regressa com Pessoa a Lisboa e escreve, em 1906, um diário a que apõe o seu sinete. Anon coadjuvou Pessoa na sua “cruzada” contra a Igreja Católica: num texto de auto-apresentação profere “sentença de excomunhão para todos os padres e todos os sectários de todas as religiões do mundo”. Ainda em Durban, projectara escrever Philosophical Essays  e Examination of the Philosophy of the Christian Church. Anon foi-se, contudo, lentamente transformando em Alexander Search, da mesma forma que David Merrick também teria lentamente desistido de existir a seu favor.

H. James Faber aparece indissociavelmente ligado a Anon, que com ele assina o conto policial The Case of Science Master. Ambos escrevem “stories” mas as de Faber são declaradamente “de detectives”, enquanto que Anon teria a seu cargo “histórias de imaginação”, sendo também encarregado de teorizar sobre essa “literatura policial” que Faber pratica.  A Faber é reservado tudo o que é satírico e humorístico, em ensaios ou poesia. É, face a Anon, um poeta menor a quem cabe a responsabilidade de escrever “ensaios críticos”, nomeadamente sobre Camões.

O “nacionalismo místico” de Pessoa, assim por ele chamado, terá sido suscitado, em Durban, pela constatação da ignorância em que estavam os que aí o rodeavam dos feitos dos portugueses como “navegadores e criadores de impérios”, nomeadamente como descobridores daquelas paragens. Por isso planeou traduzir Os Lusíadas para inglês , escrever ensaios sobre Camões e Vasco da Gama. 

Quando, em Agosto de 1905, Pessoa regressou, sozinho, a Lisboa e se instalou em casa das velhas tias e da sua avó Dionísia, regressaram com ele o Dr.Pancrácio e o seu duplo inglês Prof. Trochee, C.R.Anon, Alexander Search e, aparentemente, também H.J.Faber: uma lista de obras em prosa inclui A Very Original Dinner, conto de Alexander Search,, com data indicada de Junho de 1907, a par do mencionado conto de Anon-Faber: The Case of Science Master.

Inscreveu-se nesse mesmo ano no Curso Superior de Letras de que desistiu em 1907, apesar da decepção da família. Pessoa tinha então ambiciosos planos não tanto para a sua vida mas para o seu país a quem fazia, em notas soltas, comovidas declarações de amor. Queria contribuir para erguer culturalmente a sua pátria (escrevia), criar um “magazine”, uma revista científica, e, até, ajudar a desencadear uma revolução…

Ao contrário do que tem sido dito por alguns dos seus exegetas, que referem os seus ideais monárquicos de então, Pessoa comportou-se, entre 1905 e 1910, como um aguerrido republicano, zurzindo, em jornais manuscritos, “padres e reis”.

Quando os críticos situam entre 1907 e 1908 as primeiras manifestações do poeta em português, esquecem que não houve nunca uma verdadeira quebra: os “jornais” referidos provam-no. Por esta altura o jovem Pessoa criou mais dois desses jornais manuscritos, O Fósforo e O Iconoclasta. Já vimos como, aos quinze anos, o jovem, ainda em Durban, pôs em causa a religião em que tinha sido educado. Recém-chegado à pátria, ambicionou desencadear uma revolução no país (como já se disse). A greve do Curso Superior de Letras contra João Franco, em 1907, de que terá sido animador, deve-lhe ter aparecido como um caminho para isso. Por essa altura, graças a uma pequena herança que recebeu por morte da avó Dionísia, o jovem Pessoa comprou toda a maquinaria para montar uma “tipografia Editora”, que baptizou Íbis, com “oficinas a vapor” e tudo, como reza o papel timbrado que mandou imprimir , com intenção de realizar o projecto patriótico que formulara de levantar culturalmente o país que viera encontrar tão pobre de tudo, mas que amava do fundo do coração – como confessa nos seus escritos. Afirma, num texto em inglês, querer: “provocar uma revolução aqui, escrever panfletos portugueses, editar antigas obras literárias nacionais, criar um magazine, uma revista científica, etc.” Serviria para isso a “Tipografia Editora” que nunca chegou a funcionar – e esse deve ter sido um dos dolorosos fracassos da sua vida, a que Pessoa se julgava destinado “por uma conspiração astral”, como lhe comunicam os espíritos numa das muitas mensagens mediúnicas  que, mais tarde, se aplicará a receber. Foi o primeiro projecto cultural a sério em que se empenhou – outros se seguirão pela vida fora. Para a tarefa de ser “um criador de civilização”, como declara querer, mobilizou todos esses “outros” por quem já então se multiplicava, alguns dos quais entraram em cena no palco desse projecto. A “Empresa Íbis” foi, de facto, um dos primeiros espaços de revelação e convívio das personagens do romance-drama-em-gente (como apetece chamar-lhe). Tinha a “Empresa” a vocação de dar a conhecer, a nacionais e estrangeiros, os clássicos da literatura de língua portuguesa (até Machado de Assis)e das outras literaturas, fazendo-se, assim, ajudar pelos tradutores Charles James Search (irmão de Alexander), Carlos Otto (alemão com outras “prendas” literárias) e por Vicente Guedes, a que atribuiu, mais tarde, O Livro do Desassossego e que era, na altura, além de tradutor, poeta e contista da Íbis, autor também de um diário (o que o terá indigitado, mais tarde, para autor do Livro do desassossego).

Esclarecia Pessoa, em O Iconoclasta – que, na verdade, mantém o cunho infantil da Palavra e do Palrador, apesarde Pessoa já andar pelos vinte anos - que era “uma publicação politicamente republicana radical”, “inimiga não só da igreja mas das religiões todas – da religião em si”. (Por essa altura ou um pouco mais tarde, Pessoa expressará o desejo – que Caeiro e os seus discípulos virão a realizar, à sua maneira – de “criar uma religião sem Deus”.) Joaquim Moura Costa é uma “personalidade literária” reveladas por esses dois periódicos. De inspiração junqueiriana, dir-se-ia que, através dele, Pessoa dá contorno escrito aos “palavrões” que reprimiu em toda a sua infância bem educada e que, só mais tarde, mas mais moderadamente, Campos pronunciará (Pessoa, jamais!). Os padres e os reis serão os alvos dos seus grosseiros destemperos, porque à Monarquia Portuguesa e à Igreja Católica atribuirá o atraso português. Outro dos colaboradores do Fósforo foi Pantaleão. Apesar do nome (que, como Pancrácio, parece brincadeira de criança) tinha, além de funções humorísticas (de panfletário republicano) encargos de escritor a sério, como o próprio Pancrácio, ambos multifacetados, como o seu criador. O sentimento que domina os primeiros textos em inglês, o do “mistério do mundo”, assinados ou não por Anon, reaparece, em português, com este Pantaleão. Foi também um pedagogo e um agitador: as suas “Fábulas para adultos”pretendiam atingir, pela sátira, os podres nacionais, ensinando os portugueses a pensar, rindo.

Pantaleão figura num caderno por Pessoa chamado significativamente The Transformation Book. Neste espaço de metamorfose figuram também as fichas bio-bibliográficas dos irmãos Search (Alexander e Charles James) e um francês, Jean Seul de Méluret (C.R.Anon teria já desaparecido do mapa…). O francês, de origem nobre, como o nome indica, manifesta, nas suas sátiras – num francês bastante claudicante - o seu activo repúdio dos novos costumes, para ele sinais da decadência galopante que ameaçava a civilização ocidental. A sua função, como o caderno indica, é escrever poesia e outras obras “com propósito satírico e moralizante”. É mais um humorista, mas ainda sem requinte: o seu interesse, para nós, vem de ser mais uma personagem do que chamarei o romance-drama pessoano. Na verdade, é curioso constatar que Pessoa , precoce como inteligência, manteve até muito tarde uma sensibilidade de criança grande, visando, sobretudo, rir e fazer rir com os seus escritos: num texto destinado ao Fósforo, escreve: “Quem pensa, ri; só não ri quem só faz cara que pensa. Ri, bruto!”

Gaudêncio Nabos é outro humorista desses tempos, director da “nova série” do Palrador, a que Pessoa ainda se aplicava no regresso a Portugal, em 1905, já com dezassete anos feitos. É apresentado como um médico muito original, “desabrido”, já o “recortador de paradoxos” que, mais tarde, Pessoa afirmará ser. O irmão João relata que o Dr. Nabos, assim como um tal “Cenoura”, eram protagonistas de uma história em episódios que Pessoa lhe contava, durante os nove meses que junto dele passara em 1905-1906, em Lisboa.

Mas, curiosamente, este doutor, às vezes chamado “Neibos”, à inglesa, ainda se manifesta por volta de 1912-1913: “Metafísica do Dr. Nabos” reúne algumas piadas metafísicas como: “morrer é morrermos” ou “Quem sabe se duas paralelas se não encontram quando a gente as perde de vista?”.  Talvez Pancrácio e Pantaleão tenham sido concebidos para entreter, antes de mais, o menino solitário que Pessoa se manteve durante toda a vida. E o Íbis, personagem com que divertia os meninos da família, encolhendo a pata para simular a atitude da ave pernalta, também começou a assinar textos seus, tal como o Dr.Nabos. Se pensarmos bem, Alberto Caeiro nasceu para ser “a eterna criança”, para guardar no fundo do seu olhar azul a candura desse menino que sempre habitará Pessoa, embora triste porque continuamente sovada pela vida.

De todas estas “personalidades” a única que apresenta consistência literária é Alexander Search. Gémeo de Pessoa, nascido no mesmo sítio, ano, dia e hora, será o “inglês à portuguesa”, imagem no espelho do que se declarou “um português à inglesa”. É, de todos, o mais existente: tem cartões de visita e recebe correspondência no endereço que aí indica, na Rua da Bela Vista à Lapa, para onde foram (Pessoa e ele…) residir no regresso a Lisboa, em 1905. Escreve três epitáfios: da monarquia, da religião e o seu próprio: morreu aos vinte anos, louco. Pessoa encara fazê-lo assinar um longo ensaio sobre “O Génio e a Loucura” que longamente ia redigindo, em textos soltos (um dos muitos auto-diagnósticos que Pessoa tentou fazer de si próprio).

Através de Alexander, Pessoa realizou uma obra poética consequente, em inglês. Alguns exegetas pensam que a obra de A.Search está inteiramente compreendida entre 1903 e 1908, o que é inexacto: em 7/3/ 1911 tenta escrever um poema em português, rimado, com refrão - é o “inglês à portuguesa”, treinando  adaptar-se à sua nova cultura…

É, como Pessoa, republicano ( escreveu, em verso, o epitáfio da monarquia e da religião e começou a compor, em prosa, um ensaio sobre o regicídio).

No plano para o suplemento ao número 1 da revista Europa – que virá a ser , mais tarde, Orpheu – assina, de colaboração com F.Pessoa e M. de Sá-Carneiro, “poèmes interseccionistes”, em francês ( não considerou Jean Seul digno de tal…) e, associado a Pessoa, “Interseccionnist poems”, em inglês. Em 1916 vivia ainda! Um poema do livro em preparação Documents of Mental Decadence traz a data de 21.7.1916.

 Os temas de Pessoa já estão todos nos seus poemas: a obsessão do mistério do mundo, a dor de pensar, o medo da loucura, a consciência de ser génio e louco, o sentimento da exclusão, de ser rejeitado, a atracção pelo oculto, a fractura abissal entre o eu e o mim.

Não admira que Pessoa, autodidacta na língua e na cultura portuguesas, tivesse encarado ser um poeta da língua inglesa: tinha sido um excepcional aluno em Durban, ganhando mesmo, entre 898 candidatos, o prémio Rainha Vitória pelo melhor ensaio em inglês, quando da sua admissão à Universidade do Cabo. De facto, até 1922 (altura em que a sua produção poética em inglês desanima de existir), Pessoa investiu nesse projecto, de que deve ter, então, desistido, depois de vários editores ingleses lhe terem recusado

a publicação do livro de poemas que constituiu em 1917, The Mad Fiddler -  apesar de até ter proposto financiar  do seu bolso uma dessas edições. Continuando a insistir em ser conhecido como poeta de língua inglesa, custeia a edição, em 1918, de dois opúsculos, Antinous e 35 Sonnets, que envia para vários jornais ingleses, tendo obtido algumas referências favoráveis. Em 1921 , apressa-se a reeditar Antinous, assim como Epithalamium e Inscriptions, na sua editora Olisipo, em dois pequenos volumes, English Poems  I –II e III .

A falta de apreço pela sua produção poética em inglês deve ter sido uma das grandes decepções da sua vida. Mas a verdade é que os nove anos que passou em Durban não fizeram de Pessoa um escritor bilingue. Dizem os seus exegetas que têm o inglês como língua materna que a sua linguagem resulta artificial, afectada. Pessoa não devia ter disso consciência. Apesar do seu dorido amor pelo pobre Portugal, que veio encontrar em 1905, tão analfabeto e tão pobre em todos os domínios, literatura a sério era, para ele, a inglesa, a de Shakespeare e Milton, que cultuou com igual fervor. Os jornais em que se aplicava a escrever em português começaram por ser diversões caseiras, para fazer rir a família, e por algum tempo se mantiveram as brincadeiras desse rapaz que ficou menino até muito tarde. Pessoa sentia-se patrioticamente português, descendente de “navegadores e criadores de impérios”, como escreve, mas culturalmente inglês e até, um pouco, francês - por isso Jean Seul de Méluret…     

Se Pessoa tivesse morrido antes da manifestação dos Heterónimos, o seu lugar na literatura seria modesto – e quase nulo se isso tivesse acontecido antes do seu encontro com Mário de Sá-Carneiro, em finais de 1911. Para muitos, Sá-Carneiro é apenas um epígono de Pessoa. Não hesito, contudo, em afirmar que esse encontro feriu a faísca do génio, de ambas as partes. (Ler, a esse respeito, a correspondência que trocaram.) Ao enviar, de Paris, ao amigo, os poemas que lhe iam acontecendo, Sá-Carneiro desculpava-se da sua pouca qualidade, que era um contista, não um poeta mas já aplaudia em Pessoa o poeta incontestável, que –incitava ele -  se devia revelar e “prendre date”.Os estímulos de Mário foram com certeza decisivos para que Pessoa, disperso, como sempre, por escritos de diferente índole, começados e logo interrompidos, se tivesse aplicado a não desiludir o seu amigo e admirador. Começaram só então a surgir, em português, os poemas ortónimos verdadeiramente consistentes. Pessoa era, então, conhecido como o crítico – estrambólico, para muitos - que se pusera a anunciar, na Águia, a revista portuense dos Saudosistas, a vinda de um Supra-Camões. Este seu primeiro texto publicado tem de ser entendido à luz do “nacionalismo místico” pessoano, por ele assim chamado, que já então se punha a anunciar, profeticamente, a vinda de um messias e de um Quinto Império, o da língua e cultura portuguesas – sonho de uma vida. Se o lermos como um simples ensaio, teremos que nos espantar com os insensatos exageros do seu autor – que bastante escândalo causaram na época. O espírito e o propósito que animam Mensagem já estavam presentes nesse texto. Curiosamente, Pessoa estava a escrever, a quando da implantação da República, um poema épico intitulado Portugal, em que anotou “Recentes e gloriosos dias tornaram, felizmente, visionária esta poesia prefacial” (LOPES 1977: ilustr. 42). Convém reparar, desde já, que o sentimento de estar incumbido de uma missão – o jovem Pessoa chama-lhe, num dos seus textos “mandato subjectivo” – é estruturante da vida-obra de Pessoa. Mensagem não é obra episódica mas dedicação de toda a vida – saída a público, significativamente, no primeiro de Dezembro de 1934. Apesar de, com toda a sua discrição e modéstia não fazer disso alarde, Pessoa sabia-se descendente de ilustre linhagem na origem da nação portuguesa, de companheiros do Conde D.Henrique de Borgonha que vieram com ele para o Condado Portucalense – o que ele sentia não como motivo de vaidade mas de responsabilidade. Esses “fidalgos e judeus” -  de quem diz, assim sucintamente , que descende, por parte do pai - foram militares, alcaides mores, governadores, juízes, marinheiros, cartógrafos, políticos, sacerdotes, astrónomos e astrólogos, engenheiros, poetas, Cavaleiros da Ordem de Cristo e da Ordem de Malta. Judeus e cristãos. Estiveram presentes na fundação de Portugal, ao lado de Afonso Henriques, na 2ª dinastia, com D.João !, partiram para a Índia e para o Brasil, estiveram com D. Sebastião em Alcácer Quibir, lutaram pelos ideais liberais em 1810. Pedro Moitinho de Almeida, que com Pessoa conviveu de perto, diz que ele usava um anel de brasão – seguramente esse brasão que ele próprio desenhou e que tive ocasião de ver em casa da família. Sentir-se-ia Pessoa herdeiro dos ideais e deveres que tinham norteado os seus antepassados? Ao falar nesses muitos seres de que se sentia ser, às vezes, a reencarnação, Pessoa sentiria correr-lhe nas veias a responsabilidade desse sangue?

Tudo nos faz crer que sim. O seu culto da nobreza, da aristocracia de atitudes e sentimentos nada tem de arrogante superioridade: é, como o tal Quinto Império que anuncia, do domínio espiritual – do ser, não do ter. A verdade é que no seu dia-a-dia, Pessoa, apesar das suas nobres origens, mourejou esforçadamente o ganha-pão (o que Sá-Carneiro não conseguiu fazer, e talvez  por isso desistiu de viver).

O contacto com Sá-Carneiro desviou Pessoa, durante algum tempo (até à sua morte, em 1916) do seu assumido “nacionalismo místico”. Mário de Sá-Carneiro, que escolheu ir viver e até morrer em Paris, farto de Portugal, sedento de Europa, de civilização, de cultura, foi o elo de ligação de Pessoa com os “ismos” artísticos que então fervilhavam na Europa, e até pôs Pessoa a falar de um desejável “nacionalismo cosmopolita” - que Camões teria, em grau menor, e, percebe-se, ele desejaria alcançar em último grau…

É ele o padrinho, para não dizer o pai, de Álvaro de Campos – que, ao manifestar-se, em 1914, com a Ode Triunfal, se media, à boa maneira de Pessoa, com o Futurismo italiano, com que Sá-Carneiro pusera Pessoa em contacto. No auge do entusiasmo, ao receber o poema por carta, Mário responde a Pessoa que ele tinha acabado de escrever “a obra-prima do Futurismo”.

Fernando Pessoa, que sempre tinha sido confrontado com a sensação de “ser vários”, de “ser muitos”, deu então uma coerência ficcional aos que chamou Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, seus três Heterónimos, inventando essa designação que entrou não só para a língua portuguesa mas para todas as outras para que tem sido traduzida.  A palavra está hoje a ser aplicada impropriamente a autores como Eça (no caso de Fradique Mendes), de António Machado (Juan de Mairena) e de outros. Convém, contudo, ponderar que são casos diferentes: os Heterónimos de Pessoa são, antes de mais, personagens através das quais ele se busca e aperfeiçoa – não é por acaso que ele faz questão de insistir que são só três (o número da criação). Pessoa não se oculta atrás desses nomes: essas máscaras revelam-no aos seus próprios olhos. “Só me encontro quando de mim fujo” escreveu Pessoa – isto é, quando “finjo” ser outros. Como, disse também, “Fingir é conhecer-se” essas fugas, esses “fingimentos” propiciam um encontro consigo. Além disso, essas três personagens estão interligadas por uma ficção, a que Pessoa chamou “drama em gente”. Existem umas em relação às outras: se “cada uma constitui um drama”, como avisou Pessoa, “todas juntas formam outro drama”, como acrescentou. Não existem isoladamente, como Fradique ou Mairena, só adquirem o seu verdadeiro sentido quando consideradas umas em relação às outras.: só então os seus monólogos aparecem como diálogos, se as pusermos em situação, como personagens de um drama ou de um romance – como Pessoa aconselha que o façamos.

Se fossem produto de um “ismo” determinado, os Heterónimos teriam sucumbido à sua circunstância. É verdade que Pessoa e Sá-Carneiro e todos os parceiros de aventuras estéticas que Orpheu congregou (dois números em 1915) usaram e abusaram de tabuletas como Paulismo, Interseccionismo e Sensacionismo. Orpheu, que Pessoa e Sá-Carneiro queriam que fosse uma ponte para a Europa (nome que tinham encarado dar à revista que, nos seus planos, precedeu Orpheu ) ficou como o órgão do chamado Modernismo português. Foi  palco de revelação, sobretudo, de Fernando Pessoa que aí publicou o seu “drama estático”, O Marinheiro ( em que pretendia ser mais simbolista que Maeterlinck)  e de Álvaro de Campos, com dois poemas propositadamente diferentes, anunciando já a dinâmica do “drama em gente” : a Ode Triunfal, do que a si próprio se intitulava Engenheiro Sensacionista, e Opiário, do Campos  poeta decadentista, herdeiro do Simbolismo, antes de conhecer e receber a influência do Mestre Caeiro, de sua sabedoria e do seu versilibrismo. Significativamente, Caeiro e Reis  não se produzem neste palco: Pessoa só os dará a público na revista que co-dirigiu em 1924-1925, Athena, que, como o nome indica, queria ressuscitar o espírito da cultura grega que sempre o norteou. Eram ambos representantes desse Neopaganismo, por Pessoa assim chamado, que ele considerava a terapia adequada para curar, a nível civilizacional, o Ocidente adoecido desde que o Cristianismo envenenara as almas e, a nível pessoal, os doentes desse “morbo cristista”, como lhe chamava, que eram ele próprio e Campos, o que tinha encarregado de “fingir” as dores que ele deveras sentia. Caeiro quer ensiná-los a ter corpo – esse de que o “cristismo” os despojara por considerá-lo sede permanente de pecado, a despi-lo de disfarces e convenções – “raspar a tinta com que nos pintaram os sentidos”- e a deitá-lo na realidade como um bicho na erva. Reis, também pagão mas já do tempo da decadência, já “um epicurista triste”, coadjuva-o pretendendo que “os deuses não têm corpo e alma mas só corpo, e são perfeitos”. Pessoa inventou-os para eles os ensinarem , a si e aos seus outros desassossegados seres, herdeiros da doença “cristista”, a governarem-se sem recurso à transcendência, sem precisarem de um além para dar sentido à vida.

O chamado Neopaganismo contou ainda com um teórico, em prosa, que escreveu mais, sozinho, que Caeiro e Reis juntos: António Mora. Foi ele que longamente se aplicou a  denunciar os malefícios do “cristismo”. Mas, talvez porque “em prosa é mais difícil de se outrar” – Pessoa o escreveu – não recebeu o estatuto de Heterónimo, tão só o de “personalidade literária”. Também o não obtiveram Vicente Guedes e Bernardo Soares, conhecidos, erradamente, como co-autores do Livro do Desassossego. São personagens ( do drama em gente) perfeitamente  independentes, com diferentes destinos. Guedes é dos tempos da Empresa Ibis: tinha projectos de aí publicar contos, poemas e traduções.

Mantinha um diário, por volta de 1914 e, talvez por isso, Pessoa começou por atribuir-lhe o Livro do Desassossego – que já existia antes da eclosão dos Heterónimos, simplesmente assumido por Fernando Pessoa. Entenda-se que esse Livro foi uma espécie de arca na Arca, onde Pessoa arrumava as prosas, e de início, até versos, desinseridos de um conjunto. Só quando, em 1929, fixou o que chamou – numa carta a Gaspar Simões – “a vera psicologia de Bernardo Soares”, o Livro se tornou esse diário de Bernardo Soares que tão apreciado é pelo mundo fora.

Mas não esqueçamos que Soares também existiu sem Livro do Desassossego, tal como Guedes – cuja condição aristocrática também o afasta do guarda-livros. Bernardo Soares, antes do Livro, também escreveu contos e teve veleidades poéticas, embora Pessoa considere que são “o lixo da sua prosa”.

Outro aristocrata da “família” é o Barão de Teive – surgido já tarde, em 1928, pertencente ao grupo dos “desadaptados”, dos “incompetentes para a vida”. Segundo O Livro do Desassossego, a distinção a fazer na sociedade não é entre burgueses e povo, ou entre povo e fidalgos: “é entre adaptados e inadaptados”. E dá exemplos: de um lado, “o vadio Dante Alighieri” e, do outro, “o chefe Lenine, o chefe Mussolini”. Teive é mais um dos que podem afirmar “Nunca aprendi a existir”. Por isso se suicidou.

Em 19 de Janeiro de 1915 – um pouco antes da efervescência de Orpheu – Pessoa confessava, numa carta ao amigo Côrtes-Rodrigues, que considerava “um espírito religioso”, como ele – o que Sá-Carneiro não era, de facto – que o seu poema Pauis, que dera o nome ao Paulismo de que ele e os seus parceiros artistas se reclamavam seguidores, assim como o Manifesto Interseccionista que encabeçaria o Interseccionismo, não eram “sérios”. Afirma, contudo: “é sério tudo o que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, Álvaro de Campos. Em qualquer destes pus um profundo conceito da vida, diverso em todos três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa de existir.” E diz também: “Isto é sentido na pessoa de outro ; é escrito dramaticamente, mas é sincero (no meu grave sentido da palavra) como é sincero o que diz o rei Lear, que não é Shakespeare mas uma criação dele”. E explica adiante que chama “insinceras às coisas feitas para fazer pasmar (…) que não contêm uma fundamental ideia metafísica”.   Fala ainda  da “terrível missão” que sente : “de erguer alto o nome português através do que eu consiga realizar” , nunca perdendo de vista o “fim criador-de-civilização de toda a obra artística”. Pessoa confessou-se e definiu-se nesta pungente carta, escrita aos vinte e seis anos.

Esteve sempre presente no espírito de Pessoa a necessidade de dar a conhecer ao mundo o património cultural português e, também, de traduzir para inglês as suas próprias obras. Criou duas personalidades literárias para esse fim: os irmãos Crosse, Thomas e J.J. , que até escreveram sobre Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, além de terem a incumbência de dar a conhecer os nossos melhores escritores de todos os tempos. Thomas Crosse também planeava escrever sobre sebastianismo, a nossa História Trágico-Marítima, A Maçonaria em Portugal e outros assuntos de feição épico-ocultista (Pessoa por Conhecer, II, 233-237) Pessoa imaginou uma série de obras “All about Portugal” (Tudo sobre Portugal), de que faria parte um guia de Lisboa, que escreveu em inglês, Lisbon – What the Tourist Should See, em que revela a riqueza não só natural mas também cultural de Lisboa e seus arredores.

A morte de Sá-Carneiro, em Abril de 1916, representou o fim da adolescência literária, bastante tardia, de Pessoa. Todos os “ismos” do Sensacionismo (nascido, como escrevera, da amizade dos dois) ficaram coisa do passado. Campos- poeta calou-se durante algum tempo, só reaparecendo com Lisbon Revisited (1923), transformado, perdido o fôlego das longas e frenéticas odes. Caeiro remete-se ao silêncio, desde então. A partir daí os companheiros de Pessoa serão Campos e Reis, até ao fim da vida. É verdade que o Mestre já dissera tudo o que tinha a dizer e que, além disso, Pessoa o tinha feito morrer, tuberculoso, em 1915.  Manteve-se, contudo, uma referência permanente, nomeadamente na ficção, em prosa, assinada Álvaro de Campos, Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro, em que assistimos às conversas de todos “os do grupo”, como são chamados, incluindo o próprio Pessoa.

Apliquei-me a contar as dramatis  personae do romance-drama (Pessoa por Conhecer, I, 167-169) e cheguei a setenta e duas – heterónimos e todas as “personalidades literárias” que assinaram um texto. Mas a maioria delas foram efémeras ficções, muitas ligadas à vida dos jornais que gostava de criar. Só “os do grupo” brincaram a uma”religião individual” – “metafísica recreativa” ( conceitos e expressões pessoanas) que com a sua obra-vida foi realizando. A feição lúdica da sua maneira de ser e escrever impediram o espírito religioso que era de cair em crenças dogmáticas, e o seu confessado dever para com a pátria e a humanidade de se alhear dessa vida para que se sentia “incompetente”. Por outro lado, a sua assumida vocação de dramaturgo fê-lo dar vida e, até, contracenar com a “pequena humanidade” que criara (Campos descreve-o e dá-lhe fala nas Notas referidas).O espírito de missão, que toda a vida o norteou, é responsável pela publicação não só de Mensagem mas do longo poema épico à memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, cujo breve “reinado” terminara com o seu assassinato em Dezembro de 1918. Nele exalta a reencarnação de D.Sebastião, cujo mito levou a vida a cultivar, não porque acreditasse – especifica – no seu verdadeiro regresso mas porque era o único mito capaz de congregar os portugueses do seu tempo para o despertar da pátria, Bela Adormecida há muito tempo. O tão falado sebastianismo pessoano, assim como a sua esperança no Quinto Império – o da língua e da cultura portuguesas, não esqueçamos – são estratégia sua, não crença (os textos revelados em Pessoa Inédito revelam-no claramente).

Quando, em 1928, escreve esse texto que viria, antes de morrer, a renegar: Interregno – Defesa e Justificação da Ditadura Militar, fê-lo animado pelo seu sonho patriótico de entrever um messias e um futuro de salvação. Quem sabe se o S inicial de Salazar (como o de Sebastião e Sidónio) lhe aparece com um desses sinais em que acreditava , com que o Destino pisca o olho aos humanos…(Pessoa dedicou-se toda a vida a jogos de adivinhação com letras e números.) A verdade é que esse texto também tem que ser lido, para ser entendido, como profético. ( Repare-se que, em Mensagem, Pessoa se permite um lugar, como profeta, ao lado de Bandarra e do Padre António Vieira.)

Ainda hoje se acredita que Pessoa foi um apoiante do Estado Novo (erro que o citado Pessoa Inédito veio denunciar). Se, de facto, Pessoa aceitou Salazar em 1928, dele foi desconfiando, pouco a pouco, sobretudo quando, em 1932, ele tomou para si praticamente todos os poderes, que o Estado Novo, instaurado no ano seguinte, consagrou. O ano de 1935 foi o da sua activa militância contra Salazar, através de poemas satíricos, que tinha a intenção de fazer circular, de textos de prosa, em português e francês, e até de uma carta ao Presidente da República a pedir a sua destituição. Pouco antes de morrer, escreveu a Adolfo Casais Monteiro, seu discípulo da revista presença, que, como protesto contra Salazar, nunca mais publicaria nada em Portugal.

A poliédrica personalidade de Pessoa continua a faiscar enigmas. Sumariamente, poderíamos passar alguns em revista:  Maçon, Templário? É certo que nunca pertenceu a qualquer agremiação. As suas relações nesse campo foram só intelectuais e espirituais. Homossexual? Não se lhe conheceram relações desse tipo, pelo contrário, desejou mulheres, se bem que à sua pessoal maneira. Louco, esquizofrénico? Soube gerir os transtornos psíquicos de que possa ter sofrido, dando-lhes expressão artística. Reaccionário? Execrou, declaradamente “os reaccionários portugueses”, mas também os outros: denunciou vigorosamente todos os regimes totalitários da época, o soviético como o alemão e italiano, Hitler como Mussolini e Salazar.

Apesar de tão aclamado e estudado, Pessoa continua a desafiar investigadores e exegetas. Dir-se-ia que, cioso do seu mistério, ele quer que continuemos a ter a ilusão de estar sempre a descobrir novos segredos…

 

Bibl.: PESSOA, Fernando, Correspondência, 2 vols., edição Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim,1999; LOPES, Teresa Rita, Fernando Pessoa et le Drame Symboliste: Héritage et Création, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1985; LOPES, Teresa Rita, Pessoa por Conhecer, 2 vols. Lisboa, Estampa, 1990; FREIRE, Luísa, Entre Vozes entre Línguas, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994.

      

 

Teresa Rita Lopes