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Pauis

Datado de «29-Março-1913», o poema é publicado n’ A Renascença em 1914, ao lado de “Ó sino da minha aldeia”, sob o título conjunto Impressões do Crepúsculo. Este título Pauis – que encontramos, por exemplo, quando o poema é enviado a Côrtes-Rodrigues, mas que se sabe ter curso na época – costuma ser considerado, com Dispersão (1913), de Mário de Sá-Carneiro, o ensaio inaugural do Modernismo português. Exemplo cabal da fase “modernista” de Pessoa, Pauis é um de seus poemas mais enigmáticos e conceituais.

Em que se pese o reconhecimento freqüente de sua importância histórica, o poema não é alçado à altura da melhor poesia de Pessoa. Segundo R. Bréchon, trata-se de um texto “importante para a história literária e para a biografia do autor, por transformá-lo no chefe de um movimento que vai mudar a sensibilidade de toda uma época, mas não lhe acrescenta nada de essencial à glória” (BRÉCHON 1998:172). Esse teor judicativo já está presente em J. G. Simões, cujo escopo pós-romântico das páginas da Presença dava preferência ao confessionalismo dito “sincero” em lugar da poesia mais “cerebral”: “são princípios filosóficos postos em verso com uma aplicação diligente, com muito maior aplicação, pelo menos, que espontaneidade ou intuição” (SIMÕES 1950, 1991:190).

Ligado a elementos da poesia dos finais do século XIX, o poema é uma composição pós-simbolista, em que tudo ao mesmo tempo sugere e recusa a interpretação. Com exceção ao uso de rimas emparelhadas (e alternadas nos quatro últimos versos), o poema abandona a forma fixa. Seu efeito é o de uma dispersão aparentemente incontornável de sentidos, provocada pela soma de certos recursos formais orientados por uma poética previamente programada. “Pauis” foi escrito com base num programa poético exposto no artigo de estréia de Pessoa, “A nova poesia portuguesa”, publicado n’A Águia, cujo intuito era encontrar um novo rumo para a arte. O caminho do paulismo passava pelo que Pessoa considerara a intelectualização do Saudosismo, ou, mais estritamente, a “intelectualização de uma emoção”, e “um enorme progresso sobre todo o simbolismo e o neo-simbolismo de lá fora” (Páginas Íntimas: 126). São exemplos da poética paúlica o poema de Sá-Carneiro, “Apoteose” (uma espécie de resposta a “Pauis”), e “Poente” (um texto à maneira de “Pauis”), de Armando Côrtes-Rodrigues.

Tal poética pautava-se, segundo seu criador, em três diretrizes fundamentais: a busca do vago, do sutil e do complexo. Daí o poema manifestar apreço por 1) termos e expressões sofisticados ou pouco usados, como “pauis” (plural de paul, pântano); “Balouçar de cimos de palma!” (balançar do cume da palmeira), 2) paradoxos e oxímoros, tais como “mudo grito”; “Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...”; “Onda de recuo que invade”; “E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...”, 3) uso de maiúsculas alegorizantes, que essencializam os termos (“Outros Sinos”; “Azul”; “Hora”; “Imperfeição”; “Tempo”; “Eu”; “Mistério”; “Aléns”), 4) associação entre termos concretos e abstratos (“Corre um frio carnal por minh’alma”; “Outono delgado”; “...põe garras na Hora”; “Címbalos de Imperfeição”; “Trepadeiras de despropósito”; “Fanfarras de ópios de silêncios futuros...”), 5) excesso de reticências e exclamações nos fins e meios dos versos, entre outros.

Esse virtuosismo lingüístico acentua o ar penumbrista que compõe uma atmosfera de irrealidade para o poema. Nesse momento da poesia de Pessoa, esse é o sentido com que a arte confunde-se com o sonho – em que não há exatidões, causalidades, valores morais ou clareza de propósito. Numa expressão, o mundo exterior é fragmentado e metamorfoseado em onírico. Por esse motivo, a ânsia do eu lírico pelo inatingível é a ânsia por realizar um desejo que nem mesmo ele pode identificar: “Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo / Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...” Seu anseio é maior do que a própria capacidade de realização – sua ânsia, vã por um estágio ideal. Daí o motivo do verso “Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os Aléns”: as tentativas de ascensão, de alienar o eu do tempo cronológico e psicológico e do espaço perceptível pelos sentidos, são infrutíferas, posto que materializam o intangível, temporalizam o que é por definição atemporal e indefinido. A obsessão pelo vago transcendente leva, contudo, o eu lírico a perder a consciência de si mesmo: “O meu abandonar a mim próprio até desfalecer”. O sentimento de insuficiência (“Címbalos de Imperfeição”) toma conta de si, transformando-se em tédio existencial: “Tão sempre a mesma, a Hora!” O poema se encerra, afinal, com imagens que impedem qualquer tentativa de escape: “Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de erro...” e “Portões vistos longe... através de árvores... tão de ferro!”

Se com “Pauis” as tentativas de “emocionalizar uma idéia” e “intelectualizar uma emoção”, tal como Pessoa teorizou, tendem a parecer demasiado tributárias, e dependentes, de um programa estético apriorístico, não resta dúvida de que, com o poema, Pessoa definia diretrizes poéticas para sua e outras poesias.

 

Bibl.: Bréchon, R. “Pauis”. In Estranho estrangeiro. Rio de Janeiro / São Paulo: Record, 1998. Pp. 169-191. Lind, G. Rudolf. “Duas tentativas de aperfeiçoamento do Simbolismo: o Paulismo e o Interseccionismo”. In Teoria poética de Fernando Pessoa. Porto: Editorial Inova, 1970. Pp. 35-74. Simões, J. Gaspar. “Do ‘paulismo’ ao ‘interseccionismo’”. In Vida e obra de Fernando Pessoa – história duma geração. 6ª. ed. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1991.Pp. 187-199.

 

Caio Gagliardi