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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Para além doutro oceano

Poema que faria parte do malogrado Orpheu 3, com o subtítulo Notas,que chegou a estar em provas finais de tipografia, e que é assinado por um misterioso C. Pacheco, durante muito tempo considerado um heteronimo menor de Pessoa, mas na verdade José Coelho Pacheco, jovem poeta do grupo de Orpheu.

Trata-se de um dos momentos mais radicais de todo o Modernismo português, e que demonstra, aliás, a sua natureza grupal, pois José Coelho Pacheco conhece por dentro a proliferação, então inédita, dos heterónimos de Pessoa. Assim, faz um levantamento de temas desde Campos, por exemplo o verso de abertura, «Num sentimento de febre de ser para além doutro oceano», até imagens do ortónimo, «Eu amo as alamedas de árvores sombrias e curvas / […] Elas são portas que se abrem no meu ser incoerente», até sugestões à Caeiro, como «O que eu penso duma vez nunca pode ser igual ao que eu penso doutra vez», ou mesmo até temas de Sá-Carneiro: «Sou naquele salão como qualquer pessoa / Mas o sobrado é côncavo e as portas não acertam». Em relação a certos temas de Caeiro, a cuja memória o poema é dedicado, o procedimento consiste em desarticulá-los, tratando-os à maneira interseccionista: «E quando todos pensem igual de uma coisa é porque ela é diferente para cada um», ou «Eu desejaria viver ou ser adentro de mim como vivem ou são os espaços».

De todo o modo, neste poema a ideia geral da composição é construir uma falsa sequência de estrofes, pois cada uma significa por si e não se liga com a seguinte. A perda dos nexos semânticos liga-se com a perda quase completa de sinais de pontuação, como só acontece em raros fragmentos das odes sensacionistas de Álvaro de Campos. E a temática do desdobramento aparece a demonstrar aquela que é a estranha proximidade deste poema com o coração do universo pessoano dos anos heróicos de Orpheu: «Quando me sinto isolado a necessidade de ser uma pessoa qualquer surge / E redemoinha em volta de mim em espirais oscilantes». O todo, poder-se-á dizer, é de uma incongruência desarmante, e a mais extrema paródia modernista.

 

 

Bibl.: Serge Fauchereau, «Para Além doutro Oceano. Rêverie Paresseuse sur un Poème», in Actas do I  Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, Porto, Brasília, 1979; Ana Rita Palmeirim, José Coelho Pacheco. O Falso Semi-Heterónimo de Pessoa, Lisboa, BNP, 2016.

 

 

 

Fernando Cabral Martins