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Palavra Perdida

O lexema “palavra” na pena de Pessoa reveste-se de uma forte ambiguidade: tão depressa significa ideia e pensamento, como designa a faculdade da linguagem, ou traduz o simples acto de fala, ou é, apenas, sinónimo de “vocábulo”.

Para melhor entendermos o conceito pessoano de Palavra, devemos ter sempre presente as diferentes perspectivas em que ele assenta: a religiosa ou Verbo, a filosófica ou Logos, e a esotérica ou Palavra Perdida. Contudo, subjacente a todas elas e à sua diversidade de sentidos, encontramos a ideia unificadora de palavra poética. Uma espécie de saber-matriz de onde teriam irradiado todas as razões do mundo. Podemos, assim, dizer que, para o nosso autor, o acto de criação literária se sobrepõe a toda e qualquer realização da palavra. Consequentemente, o objecto criado é, no seu ponto de vista, eternamente imperfeito: uma sombra, simples projecção de um saber superior ab origine. Daí, o acto criador ser, para o poeta, um acto cosmopolita e universal que se situa fora do espaço e tempo humanos.

Por esta razão, o vocábulo “palavra” na boca de Pessoa não significa simplesmente expressão do pensamento, mas o pensamento em si, já que a seu ver “a palavra, que é a abstracção suprema, e por essência, porque não conserva nada do mundo exterior porque o som – acessório da palavra – não tem valor senão associado – por impercebida que seja essa associação” (Obra Poética e em Prosa, II: 30). Ou seja, para o poeta, a “abstracção suprema” que é a palavra necessita de um apoio material acessório para se manifestar. Com ele se concerta de feição tal que a dualidade que a constitui, por ser tão subtil e complexa, cria, no espírito dos mais incautos, a ideia ilusória de unidade. E esta duplicidade, ainda que imperceptível, não só limita a plenitude da palavra e faz dela uma representação frustre do modelo original, cada vez que a transmuta em imagem acústica ou visual, como converte todo o acto de criação num acto de cisão. Por isso cindiu-se em muitos para poder ir ao encontro de si (esse ser uno e supremo cujo sopro dá vida à palavra criadora transformando-a em matéria).

Na sua cisão, o verbo pessoano deu vida à matéria criada, esses objectos-ser que são os seus heterónimos, semi-heterónimo e personalidades literárias. A energia recebida libertou-os do domínio tridimensional da palavra (“A palavra é, numa só unidade três coisas distintas – o sentido que tem, os sentidos que evoca, e o ritmo que envolve esse sentido e estes sentidos.” (Obra Poética e em Prosa, III: 81)) e, uma vez cortadas as amarras que os atavam à medida palavra-ideia, palavra-expressão, palavra-fala, projectou-os numa outra dimensão. Essa dimensão, onde os pensamento-personagem ganharam vida e, dotados do poder do verbo, encenaram uma outra realidade onde as suas vozes-palavra se movimentam, agem e interagem num palco-mundo onde ficção e realidade se confundem.

Com esta sua fragmentação, Pessoa, procurava realizar o movimento inverso ao da criação: extrair o todo do múltiplo, conceber o não-tempo a partir do tempo e reaver a unidade dispersa na diversidade. Na sua demanda, Pessoa buscava, talvez, conhecer a sua própria “substância” através dos outros para, assim, melhor entender a razão de ser do mundo e da vida. Ou seja, pretendia, como diz, tentar perceber o “universo, no mais alto ponto com que nós o conhecemos, que é o homem” (Obra Poética e em Prosa, III: 331). Portanto, a partir do efeito mais complexo, porque mais completo, o poeta pensa poder identificar a essência da causa, não numa perspectiva quantitativa, mas de um ponto de vista qualitativo em que o todo se define não pela soma dos possíveis, mas pela “concentração em um só […] do que se acha contido na diversidade de todos.” (Ibid.). Ante a sua consciência da uniformidade e indiferenciação do modelo primordial que pré-existe à criação e paira no vácuo em que o nada é tudo, em que o momento se define em todos os momentos, o sentimento em todos os sentimentos, o lugar em todos os lugares, o objecto em todos os objectos, Pessoa sente o abismo que qualquer acto de criação representa e, muito particularmente, o acto de criação feito com a palavra, porque nele vê projectado todo o “Mistério do Universo”.

Podemos, por isso, dizer que a demanda da “Palavra Perdida”, significa, para Pessoa, uma aproximação, ou mesmo comunhão com o conhecimento, ou espírito essencial. Na sua óptica, o Verbo ou Palavra, propriedade intrínseca do Espírito Primeiro, pré-existe e preside ao acto da criação, tal como o anuncia o Evangelho de S. João, que considera ser o único que enuncia a verdade do mistério do ser: “tudo quanto o Velho Testamento poderia ministrar de verdadeiro está fechado no 4º Evangelho.” (Obra Poética e em Prosa, III: 533). Os símbolos que nele figuram encerram, a seu ver, a génese e explicação do Universo: “No princípio foi (ou era) o Verbo. E o Verbo se tornou Carne." (Obra Poética e em Prosa, III: 514). O Verbo foi o ânimo que veio dar forma ao objecto, arrancando-o do estado de indiferenciação a que estava sujeito, dado que criador e criatura se confundiam nesse espírito único e informe. Ao dar-lhe forma, tornou-o múltiplo, diverso e distensível.

Sem o acto da criação o Verbo ou Palavra criadora, na perspectiva pessoana, fundia-se e confundia-se com a própria causa. Para ele, tal como o Verbo divino foi o princípio organizador do Caos, a palavra (linguagem por oposição a fala) é o princípio estruturador e estruturante do pensamento, pois com ela o homem cria a forma, diferencia os objectos e constrói “realidades”. A sua cosmogonia intrínseca confere-lhe a capacidade de “fazer”, ou seja, a palavra, uma vez liberta da voz que a prendia, segue, autónoma, o seu caminho. Tal como Deus, causa do Universo, se revê na imperfeição da sua obra, assim aquele que usa a palavra como expressão da sua arte, por ser simultaneamente efeito e causa, vê a sua obra como uma projecção difusa da sua unidade perdida.

O ser humano, por ter sido dotado com essa faculdade criadora que é a Palavra, representa, para Pessoa, um dos efeitos mais completo e complexo dessa causa que é o Verbo divino. E à sua imagem e semelhança cria, com essa Palavra que “herdou” a realidade que o rodeia. É também com ela que aceita e compreende essa mesma realidade. Como se, para Pessoa, a “realidade” se fosse construindo num permanente movimento de vaivém entre a actividade subjectiva do espírito que dá forma ao objecto e a possibilidade de sentido que o objecto fornece. E é neste jogo de “dança” e “contradança” que o homem procura chegar, segundo ele, à essência da Palavra que se perdeu.

Porém, os pressupostos pessoanos mostram, também, que o ser humano tem em si a capacidade de extrair da realidade perceptível (como fez com as muitas personagens que criou) não apenas a verdade sensorial, mas uma outra verdade, essa forma de conhecimento abstracto que se aproxima da realidade fundamental. “Somos espiritualmente fracos; quer dizer, unicamente somos capazes, enquanto não nos servirmos dos nossos poderes mais amplos e profundos, de uma compreensão material. No entanto temos em nós o poder de perceber a verdade, não a verdade fenomenal, mas a numenal.” (Fernando Pessoa Obra Poética e em Prosa, III: 232), afirma o poeta, dando assim o seu beneplácito à teoria kantiana em que o númeno, a realidade absoluta ou coisa em si, tal como existe independentemente de se ser capaz de a conhecer ou sentir, se opõe a fenómeno, o simples dado sensorial tal qual se nos apresenta. Logo, o fenómeno, simples dado sensorial, é-nos dado a conhecer pela experiência, enquanto númeno escapa à experiência, porque se situa no domínio da construção mental ou conceito.

Se, guiados pelo poeta, citamos Kant, foi por julgarmos que este princípio kantiano define bem qual a noção de palavra para Pessoa que, como vimos, obedece a um princípio ternário, visto a sua unidade, ser constituída por três aspectos diferenciados: o espiritual ou "sentido que tem", o experiencial ou "sentidos que evoca", e o material ou "ritmo que envolve esse sentido e estes sentidos."

Assim, no sentido primeiro, a palavra é a própria substância, o que quer dizer que palavra e objecto nomeado se pertencem mútua e intrinsecamente, numa relação intimamente necessária. Porém, essa correspondência nome/essência perde-se, já com a sua materialização sonora ou gráfica, já com o seu subsequente uso.

E, segundo o autor da Mensagem, é nesse espaço-entre (mundo experienciado e conceito), atraído pelo abismo que ele figura, que se encontra o espírito criador: "entre o Informe que o duplo mistério da Noite e do Caos [Destino ou Lei] representa e o Formado que começa com o primeiro deus, há um abismo causal" (Obra Poética e em Prosa, II: 1312). E esse Mistério que não pode ser dito ou, sequer tornado inteligível pela palavra por ser anterior aos próprios deuses, pode, na perspectiva pessoana, ser indiciado através da palavra-símbolo que é toda a obra poética.

A busca da palavra essencial pressupõe em Pessoa a convicção da existência de uma alma universal do mundo, da qual a alma individual seria, apenas, uma partícula. Uma vez que a razão humana (a ciência) não atinou com a resposta para este problema, Pessoa, perante a sua impotência face ao grandioso mistério da criação, foi encontrar a solução na analogia com o próprio acto de criação. Se o homem, que se considera o ponto mais alto da criação por ser dotado de consciência, é uma partícula da alma universal, então contém em si o poder, ou palavra, dessa alma. Por isso, para chegar até ela basta-lhe, por assim dizer, saber usar as suas capacidades superiores: intuição, imaginação simbólica e, sobretudo, a inteligência. Uma inteligência em que razão e analogia trabalhariam em complementaridade.

Quem pretenda chegar perto desse segredo oculto (no universo e no homem), terá, antes de mais, de perceber que tudo o que existe no universo, existe em função de “vibrações físicas” e “subtilizações intelectuais, ou seja, […] vibrações etéricas (e astrais)” (Rosea Cruz: 199). E, uma vez consciente desta “verdade”, deverá servir-se da inteligência para “reduzir a acção às solicitações da intuição” (Ibidem) e, assim, evitar enredar-se, na sua busca, no “fingimento de caminhos” que o levariam a afastar-se cada vez mais do seu encontro com a Palavra Perdida. E, sabendo ultrapassar aquelas “armadilhas” montadas pela própria inteligência, nela apoiado atingir um estádio superior de compreensão que lhe conferiria a Sabedoria da Palavra Perdida.

Portanto, segundo Pessoa, o lado desconhecido do cosmos, o lado de dentro da vida e do mistério do universo "não é passável para a ciência exterior que em livros e experiências se estuda e ensina” (Rosea Cruz: 29). O lado de fora das coisas pertence ao senso-comum, à ciência experimental, à vida prática; o outro, o oculto que Pessoa considera o "mundo real e íntimo" (Ibidem), esse lado desconhecido só pode ser compreendido pelos "iniciados ab origine" (Fernando Pessoa Obra Poética e em Prosa, II: 1074) que são os homens de génio que, depositários dessa capacidade inata de intuir a Palavra Perdida, pressentem essa verdade não presente, não actual, não inteligível, mas que desde sempre atormenta o homem.

A Palavra Perdida que desvenda os mistérios e aponta o caminho que o ser humano deve seguir para alcançar a Sabedoria, ou plenitude, manifesta-se, segundo Pessoa, por comunicação directa, sendo "esta provavelmente a razão porque tão facilmente significados profundos emergem de fábulas, mesmo as de povos sem cultura; porque a obra de grandes poetas revela tantos sentidos que é inconcebível terem sido conscientes de todas elas; porque obras escritas por crianças acabam por ser trabalhos que parecem saídos da cabala ou outro saber oculto; porque gracejos intencionais têm no fim de contas um significado terrivelmente sério" (Pessoa Por Conhecer, II: 107). Contudo, a sua interpretação, verdadeiro entendimento e transmissão só podem ser feitos por aquele que, também dotado "ab origine", esteja pronto a iniciar-se no caminho da decifração. O iniciado ou eleito possui "a técnica, natural ou adquirida, de ler nas entrelinhas […]" (Ibidem.), cabendo-lhe, portanto, extrair o sentido profundo oculto atrás da significação aparente da palavra. Só esse iniciado que aprendeu a cultivar a Arte Suprema do Pensamento que liberta o espírito da sujeição a qualquer dogma ou doutrina está superiormente habilitado a fazer uma leitura não literal, mas de interpretação simbólica do sentido superficial de todo o texto.

O mistério da palavra revela-se, conforme pensa Pessoa, pela linguagem dos símbolos, essa "linguagem das verdades superiores à nossa inteligência" (Obra Poética e em Prosa, II: 1035). Somente aqueles que se iniciaram na Arte Suprema do Pensamento sabem servir-se de forma esclarecida dessa inteligência e, consequentemente, compreender e interpretar a figuração do Transcendente. O mistério da Palavra Perdida está, para Pessoa, precisamente, no apelo constante à cultura da Arte de Pensar. Uma forma de pensar que obriga à reflexão livre de qualquer sorte de condicionante, quer religiosa, política ou social. Por isso a Palavra não pode ser dita, mas apenas sugerida, apresentada de forma velada sob a forma alegórica ou simbólica.

Seria, possivelmente, esta outra das razões que levou Pessoa a celebrar a arte da escrita, pois é a única que encerra em si o mistério da Palavra, visto que “ A arte envolve uma impressão, ou ideia, sobre a qual se trabalha; envolve uma interpretação dessa ideia ou impressão de modo a torná-la artística; e envolve, finalmente, uma coisa de que se tem essa impressão ou ideia.” (Obra Poética e em Prosa, III: 19).

Pessoa reconhece, portanto, que a linguagem deve ser considerada, por assim dizer, uma fonte de revelação porque, embora a palavra essencial tenha sido perdida, exprime, de certa maneira, uma relação directa entre o homem e o Sagrado.

A humanidade, no ver de Pessoa, está condenada, desde que a Palavra se perdeu, à condição peregrina de cavaleiro errante na demanda da sua busca (acesso a um conhecimento universal). E, muito embora saiba da sua existência, dela unicamente tem uma percepção imprecisa e vaga. A ânsia obcecada da busca da Palavra Perdida, qual beberagem mágica, domina-a com tamanho sortilégio e sujeição que a torna totalmente dependente desse tão poderoso líquen que a mantém num estado de permanente embriaguez: "O filtro da Palavra Perdida tornou-os seus amantes, e seguem atrás dela cavaleiros errantes sem dama certa, por vias e florestas de sonho e erro, na eterna selva escura do conseguimento imperfeito." (Obra Poética e em Prosa, III: 331)

Ao perder a Palavra, a condição humana, na opinião de Pessoa, perdeu "o Sentido, o Logos" (Obra Poética e em Prosa, III: 514), mergulhando na escuridão da ignorância de onde procura desesperadamente sair. Encontrar, no abismo labiríntico em que foi projectada, o caminho que porá termo à sua viagem errante e assinalará a passagem do estádio de ignorância ao do conhecimento é o fim da sua demanda sem tréguas. Para reaver a Palavra Perdida, o homem terá que descobrir o fio de Ariana na teia da entrosagem complexa de caminhos, que, eterno viajeiro, percorre na expectativa de um vitorioso regresso ao espaço que lhe foi interditado e no qual se encontra a Sabedoria essencial: (“desde que a Palavra se perdeu quantos maus caminhos e fingimento de caminhos não haverá que encontrar na sua busca?" (Obra Poética e em Prosa, III: 1052)). A busca da Palavra Perdida não é senão a demanda do Graal, a da taça que contém o sangue de Cristo, palavra incarnada, princípio de vida e de imortalidade. Como, porém, Graal etimologicamente significa não só taça, mas também o livro, o livro do universo, ou seja, a revelação e manifestação do Princípio e da Inteligência Cósmicas, pode dizer-se que a procura da Palavra é, para Pessoa, o objectivo que persegue, na esperança de encontrar a chave – esse tal código perfeito – que lhe dê acesso directo à Sabedoria.

Na sua opinião, sabedoria ou conhecimento não significa uma soma de informação que unicamente sobrecarrega inutilmente a memória, mas um ganho adquirido através da reflexão que leva à descoberta do novo, do tal ouro alquímico.

Como vimos, a busca da Palavra Perdida simboliza a procura da palavra criadora, figuração da plenitude do saber, espécie de modelo arquétipo onde toda a diferenciação se anula e onde diversidade e fragmentação se consubstanciam na unidade primordial. Palavra e Verdade são as duas faces da mesma moeda, uma e outra estão indissociavelmente ligadas por representarem o mesmo todo. Como diz Yvette Centeno, "A busca e revelação da palavra são o mesmo que a busca e revelação da verdade." (Os Trezentos: 9) A palavra é a chave da verdade "porque na palavra se contém todo o mundo, em parte porque na palavra livre se contém toda a possibilidade de o dizer e pensar." (Obra Poética e em Prosa, II: 571). O mundo material existe, logo que a palavra o diga. Segundo o nosso autor, a palavra, particularmente a palavra poética, ao materializar-se, na sua corporização incarna, ou melhor, transmuta em objecto parte do mistério do ser: "E há também na prosa subtilezas convulsas em que o grande actor, o Verbo, transmuda ritmicamente em sua substância corpórea o mistério impalpável do Universo" (Obra Poética e em Prosa, II: 572).

O poder transcendente da criação e revelação que a palavra desvela enunciou-o, sintética e exemplarmente, Pessoa na parte III – “A Voz de Deus” – do seu poema “Além-Deus”: “Ó Universo, eu sou-te…” (Obra Poética e em Prosa, I: 1071). Com este verso, o autor da Mensagem revela todo o mistério do acto criador que a palavra manifesta. Mostra esse complexo desdobramento que envolve todo o acto de criação. O próprio poeta, num texto inédito, explica a ideia que pretendeu transmitir ao enunciá-lo: “Quis eu uma vez dar, em uma só frase, a ideia – pouco importa se vera ou falsa – de que Deus é simultaneamente o Criador e a Alma do mundo. Não encontrei melhor maneira de o fazer do que tornando transitivo o verbo “ser”; e assim dei à voz de Deus a frase, que é um verso:

Ó universo, eu sou-te!

Em que o transitivo da criação se consubstancia com o intransitivo da identificação.” (E3 123-100).

O que Fernando Pessoa pretendeu dizer ao violar, com este verso, as regras mais elementares da gramática, foi que, no acto de criação, sujeito criador e objecto criado se pertencem inextrincavelmente, isto é, o “eu” que pré-existe à criação desdobra-se no “eu” criador e no “eu” criado.

Nesta ordem de ideias, para Pessoa, o poeta-escritor, é, ao mesmo tempo, causa e efeito, ou seja, reflecte a sua essência nas obras produzidas, porque como diz: “a causa do universo tem que conter mais que multiplicidade, ou seja, totalidade, mais que extensão, ou seja infinidade, mais que diversidade, ou seja plenitude.” (Obra Poética e em Prosa, III: 331), porque, precisamente, o seu efeito, imagem truncada da causa, é múltiplo, extenso e diverso.

A busca da Palavra Perdida, tal como Pessoa a entende, está subjacente a todo o acto de criação literária. Pessoa vê-o como um simulacro da criação transcendental. E tal como Deus que, no acto de criação, tinha na sua mão uma série de letras ainda não reunidas em palavras (e nunca chegou a reunir devido ao pecado de Adão), assim o criador literário tem, também, na sua mão as letras que combina para animar o microcosmo que, com elas, cria. Porém, o artista da palavra, na sua procura incessante de articular as letras como Deus as teria combinado (se Adão lhe tivesse dado oportunidade para isso), esfacela-se na multiplicidade e diversidade de caminhos que essa combinação permite e desdobra-se ad infinitum na esperança de um dia a encontrar.

 

 

BIBL.: Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa, I, II e III, ed. António Quadros e Dalila Pereira da Costa, Porto, Lello & Irmão, 1986; Fernando Pessoa, Rosea Cruz, ed. Pedro Teixeira da Mota, Lisboa, Edições Manuel Lencastre, 1989; Fernando Pessoa, Os Trezentos e Outro Ensaios, ed. Yvette Centeno, Lisboa, Presença, 1988.

 

Luísa Medeiros