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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Padre António Vieira

(1608-1697)

Pessoa cultivava uma viva admiração por esse virtuoso pregador e insigne prosador de personalidade complexa e exuberante que foi António Vieira. Via neste missionário de natureza enigmática e dúctil o homem de acção capaz de conciliar o realismo político com o idealismo utópico do Sebastianismo e Quinto Império. Quiçá, Vieira não seria, aos olhos do poeta, o tal “homem mais completo” por desenvolver em si “as duas inteligências a par, sendo, assim, dois homens em um. Só Deus, com o acréscimo da inteligência divina, que lhe é própria (e só indirectamente e em reflexo – imagem e semelhança – o homem pode possuir), pode ser, como é, três em um.” (E3125A-4V). As duas inteligências a que Pessoa se refere são a “inteligência analógica ou intuitiva” (ainda que noutros testemunhos estabeleça uma diferença entre elas) e a “inteligência racional” (E3 125B-20). São estas duas formas de inteligência que, na opinião do poeta, definem o génio, esse tal “prenúncio do estado futuro da humanidade, em que se opera a fusão das duas inteligências, ao mesmo tempo que se opera superiormente a vera fusão, no novo Cristo, das duas Naturezas” (ibid.). Esse tal ser humano capaz de conseguir “pela inteligência racional, o que verdadeiramente só a inteligência intuitiva consegue” (ibid.). Ainda, neste mesmo testemunho que encima com a indicação “Bandarra” – e que muito provavelmente deveria constar da introdução (onde se propunha, possivelmente, discutir e analisar a capacidade e qualidade dos intérpretes da profecia) ao tal livro que considerou editar, Comentários Maiores às Profecias de Bandarra – , enuncia que, para alcançar a condição de génio é necessário “atingir um estado de inteligência em que se vive na abstracção com a mesma vitalidade da alma com que se vive no concreto”. Em Vieira, reconheceu Fernando Pessoa esse estado superior de inteligência que caracteriza o génio. Por isso, o considerou o “supremo artífice da língua e do Império” (E3 14E-55).

Podemos, porém, avançar que o pedestal em que o autor de Mensagem coloca o Padre António Vieira vai além de reconhecer nesse orador grandiloquente e enigmático missionário o “Imperador da língua portuguesa” e o “Grão-Mestre” comentador das profecias do sapateiro de Trancoso, às quais conferiu uma outra amplitude actualizando a missão redentora de Portugal. Adivinha-se, ao ler as notas fragmentárias éditas e inéditas (podemos, mesmo, considerar algumas como uma espécie de “máximas”), bem como as muitas e sentidas emoções que Bernardo Soares regista no seu Livro do Desassossego sobre este pregador, a grande afinidade de Pessoa com este padre jesuíta: em ambos o sentimento de exílio surge com uma intensa densidade dramática, porventura por ambos terem sido, ainda crianças, apartados da sua pátria. Talvez seja por esta razão que, em ambos, a vivência literária caminha a par e passo com o sentimento nacionalista, em que “eu” e pátria se fundem numa conjugação de destinos. Ambos articulam o seu destino com o da nação portuguesa. Em ambos é difícil, se não impossível, delimitar as fronteiras entre a destreza intelectual e a crença profunda. Ambos foram patriotas empenhados em garantir a sobrevivência e o reconhecimento da nação portuguesa e, por isso, a alargaram a um império: O Quinto Império. Em ambos o Quinto Império (ainda que com características e objectivos diferentes) teria lugar neste mundo e seria realizado pela nação portuguesa. Em ambos, uma só língua seria um dos traços fundamentais do futuro Quinto Império (aqui, também, as razões são diferentes): a língua portuguesa. Ambos usam a figura de El-rei D. Sebastião para compensar o sentimento de perda da nação portuguesa e com ele traçarem uma expectativa futura (neste ponto as suas perspectivas também divergem). É precisamente inspirado pela ideia de que fora predestinada a Portugal a concretização do plano divino da conversão, que o rei-cruzado – D. Sebastião – parte para a campanha de África, onde desapareceu. A sua morte deu mais força ao mito, talvez como forma de compensação. O rei, garante da independência nacional, haveria de voltar para que a nação pudesse cumprir o seu destino providencial. O mito do Sebastianismo veio reforçar esse sonho mítico que já tinha alguns séculos de existência. António Vieira na sua História do Futuro confere-lhe outra amplitude, consistência e grandiosidade. Projecta-o no futuro, construindo, assim, o mito do Quinto Império, que Bandarra anuncia nas suas Trovas. Vieira actualiza desta forma a missão redentora de Portugal. No quadro mental depressivo ocasionado pela perda da independência, em que o povo destinado à glória se tornara num povo destinado à humilhação, António Vieira faz a exaltação triunfante do futuro.

E, tal como se deve a António Vieira a profecia de ser Portugal o reino para qual estava guardada a realização do Quinto Império, deve-se a Pessoa o vaticínio do futuro sublime que aguarda a pátria-língua-portuguesa: o tal universo “criador de civilização”, espaço atópico e, por isso, espiritual que “diz respeito a Portugal, e aos seus destinos, primeiramente aos destinos culturais, que são a promessa do Império, chamado Quinto, e o domínio (não necessariamente na matéria ou pela guerra) da universalidade dos homens” (E3 125-78). Contudo, esse tal Encoberto que levaria Portugal a constituir-se como Quinto Império, Pessoa não o via como Vieira na figura de D. Sebastião redivivo, “senão [na] substância que essa pessoa e o seu nome simbolizam” (E3 125-79), nem tão-pouco encarnado nesse tão esperado Messias (D. João IV, para Vieira). Fernando Pessoa interpreta a vinda desse Desejado “no seu alto  sentido simbólico” (Pessoa Inédito, p.229), isto é, esse Vindouro não seria o esperado portador da mensagem do além, nem a pessoa carnal do rei D. Sebastião, mas, sim, “qualquer coisa que ele representa” (Pessoa Inédito, p. 228). Talvez um guia, esse tal génio “prenúncio do estado futuro da humanidade” (E3 125B-20) cuja mensagem figuraria o beijo ressuscitador das almas adormecidas e cuja voz as guiaria no caminho até ao sonhado Quinto Império ou Império Espiritual.

Deve-se a António Vieira (Clavis Prophetarum e História do Futuro), a ideia de, na sua interpretação da profecia bíblica do Quinto Império, profetizada por Daniel ao interpretar o sonho de Nabucodonosor, ter posto nas mãos de Portugal essa grande empresa de ser o guia dos destinos da humanidade. O seu patriotismo empenhado fez com que usasse do seu verbo sortílego como forma de resistência aos usurpadores da pátria. Por isso, dedicou-se de corpo e alma, sobretudo nos tempos conturbados que se seguiram à Restauração de 1 de Dezembro de 1640, a vaticinar o advento muito próximo de um só poder temporal que ficaria sob o domínio de Portugal. O seu amor à pátria, aliado à sua forte convicção de que o destino de Portugal estaria prestes a cumprir-se transmutaram-no em paladino do sebastianismo e em arauto do Quinto Império. O seu delírio patriótico levou-o a sentar-se nas cadeiras da Inquisição e, aí, a ser acusado de heresia por, com base na sua interpretação das profecias de Bandarra, ter vaticinado, após a morte de D. João IV, a ressurreição deste rei que viria finalmente concretizar o sonho do Quinto Império. Um Império de um só poder espiritual no mundo, o do Papa, e de um só poder temporal, o do rei português. A visão de Vieira sobre esse futuro império que haveria de ser o quinto afasta-se bastante da perspectiva imperial pessoana. Vieira sofre do mal que Pessoa diagnosticou ao terceiro império espiritual, o Império Cristão. Para aquele pregador o futuro império seria constituído, vimos, por dois elementos não só distintos como opostos: o material (o poder do rei) e o espiritual (o poder do Papa). Segundo Pessoa, o Império Cristão fora o primeiro grande responsável por esta divisão. Inaugurara o princípio dual composto por elementos opostos, essa ideia da cisão do ser que até então o homem desconhecera. Com a sua máxima de mandar “dar a César o que era de César, e a Deus o que era de Deus” (E3 125A-75), não só abriu essa dualidade como a expandiu para todo o sempre. Desde então, o homem dividido entre o ser e o estar vive eternamente na demanda da unidade que sabe impossível. Divergem, também, Vieira e Pessoa, na sua interpretação sobre o regresso de D. Sebastião. O padre jesuíta acreditava, contrariamente a Pessoa, na vinda carnal desse salvador da nação portuguesa e do mundo. E quando o tempo provou já não ser possível esse regresso, dada a provecta idade que o rei teria, transferiu esse desígnio para o seu sucessor, e assim foi continuando… A ânsia de querer ver concretizada a missão, que, segundo a sua interpretação das Trovas de Bandarra, fora predestinada a Portugal, e que via como garante da independência futura do reino, justifica a sua grande ductilidade para ver sucessivamente o Encoberto em D. Sebastião, em D. João IV, em D. Teodósio, em D. Afonso VI, em D. Pedro ou até no primogénito deste. Porém, em ambos encontramos a conciliação entre o idealista utópico e o homem de acção, o fervor patriótico de homens comprometidos com a pátria, o virtuosismo da expressão, a primazia da razão, a fluidez de fronteiras entre o puro jogo de raciocínio e a convicção profunda, o interesse pela profecia e a “certeza” de Portugal ter uma missão a cumprir.

Disse Vieira que a história do futuro é escrita por aqueles a quem põe Deus nas mãos “a profecia como candeia”. A luz de António Vieira tem, por assim dizer, o seu equivalente no conceito de inteligência de Fernando Pessoa. Esse homem “criador de civilização” que se vê como “um deus ou semi-deus”, como aquele “que desenvolve em si – por anormalidade as duas inteligências a par” (E3 125A-4v) racional e a analógica ou intuitiva. Arvorou-se, portanto, em guia espiritual da nação portuguesa, tal como Vieira. O poder do verbo de ambos está na maestria com que se servem dos recursos que a língua lhes oferece, ainda que a sua atitude mental fosse fruto da relação de forças existente, quer no meio social, quer no meio cultural. Se Vieira foi o mestre da eloquência persuasiva, Pessoa foi, por assim dizer, o mestre de uma nova linguagem poética. O engendramento do discurso de António Vieira não obedece a uma ordem transitiva de causa a consequência, mas a uma ordenação estelar, em que a palavra se apresenta como o centro de uma constelação de onde irradiam correspondências e conexões, segundo um raciocínio analógico.  Na sua prédica, as ligações que estabelece não seguem de ideia a ideia, mas de ideia a palavra e de palavra a ideia, entrelaçando-se em múltiplos planos repetitivos, opositivos ou simétricos. É este movimento, aliado à insuperável propriedade, transparência, agudeza e precisão da palavra, bem como à extraordinária e faustosa imaginação, que Pessoa tanto admira e exalta pela voz de Bernardo Soares: “Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando ainda choro. Não é – não – a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica” (Livro do Desassossego, p. 230). 

De “movimento hierático” da língua poderíamos continuar a falar relativamente a Mensagem de Fernando Pessoa, essa obra de “arquitectura pensada e harmónica que torna este livro uma constelação de poemas”. Tal como em Vieira, encontramos em Pessoa a preocupação com a exactidão e concisão da palavra; com o rigor e propriedade do vocabulário; com a exploração dos possíveis da língua; com o equilíbrio arquitectónico do discurso e, sobretudo, com o fazer da sua obra, não o simulacro deste mundo, mas um mundo possível emanado do poder do seu verbo. Deparamos, também, nos dois os autores, com essa ideia de que dizer é fazer. O importante, para eles, é que quem ouça interiorize o que é dito. Por isso o seu discurso tem de ser convincente para poder agir sobre o estado das coisas, pois o que importa não é o dito em si, mas a coisa sobre a qual o dito age para poder vir a transformá-la. Portanto, podemos dizer que, apesar das diferenças existentes entre a linguagem destes dois autores (um poeta e outro pregador), a palavra, para ambos, é um acto que transforma o mundo.

 

BIBL.: Margarida Vieira Mendes, A oratória Barroca de Vieira, Lisboa: Editorial Caminho, 1989; António José Saraiva, A Cultura em Portugal. Livro I, (2ªed.) Lisboa: Bertrand Editora, 1985.

 

 

Luísa Medeiros