logotipo Modernismo

  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Ode Marítima

Considerado “um dos mais grandiosos e profundos poemas de que pode orgulhar-se a língua portuguesa” (Eduardo Lourenço) e até “um dos mais geniais poemas de qualquer época da literatura universal” (Adolfo Casais Monteiro), a “Ode Marítima” foi publicada por Fernando Pessoa no nº 2 de Orpheu (Julho de 1915), atribuída a e assinada por Álvaro de Campos, Engenheiro.

Constitui, à primeira vista, uma bem pouco portuguesa celebração efusiva do imaginário marítimo aventureiro que elege emblematicamente como sua primeira referência inspiradora o “marinheiro inglês, Jim Barns meu amigo” (v. 221) e o seu “grito antiquíssimo, inglês” (v. 222) capaz de resumir a “voz inédita e implícita de todas as coisas do mar, / Dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas” (v. 226-27). De resto, o outro refrão (ou espécie de refrão em segundo grau) mais ou menos regularmente repetido entre os versos 414 e 716, confirmando esta provocatória rotação em sentido anglófilo da poesia portuguesa, é extraído da célebre Ilha do Tesouro, de R. L. Stevenson: o estribilho de piratas “Fifteen men on the Dead Man’s Chest. / Yo-ho ho and a bottle of rum!” O próprio cenário que o longo poema constrói desenrola-se, quase narrativamente, entre a contemplação de um paquete que “vem entrando” na barra do Tejo e, nas últimas estrofes, a visão de um “tramp-steamer inglês” (embora “Muito sujo, como se fosse um navio francês”, escreve o humor intencional de Pessoa/Campos no v. 860) à “saída do porto de Lisboa, hoje!” (v. 877) Mas nem mesmo este final mais pragmático, mais próximo do que o próprio poema designa como “as coisas modernas e úteis” (v. 768) para também as celebrar homenageando de passagem a memória de Cesário Verde, basta para iludir o tom pouquíssimo modernista da “Ode Marítima”, que parece querer cantar as coisas que a modernidade condena ao desaparecimento ou ao anacronismo. Nesse sentido, o centro do seu insólito programa de operações figurativas é constituído por estes dois versos: “Todo o vapor ao longe é um barco de vela perto. / Todo o navio distante visto agora é um navio no passado visto próximo.” (205-6)

Pode conceber-se certa solidariedade entre a assimilação do imaginário lírico e ficcional de matriz inglesa, por um lado, e a suspensão dos entusiasmos futuristas que surgiam, apesar de já pouco programáticos, na “Ode Triunfal”, por outro lado. Na “Ode Marítima” é mais visível a dramatização da relação (ou da tensão) entre fenómeno exterior observado e sentimento íntimo experimentado, de acordo com o modelo retórico predominante na poesia oitocentista, estruturando mesmo as estrofes mais aparentemente caóticas ou histéricas. O dístico que constitui a segunda estrofe do poema resume e enuncia esse processo prolongado até ao último verso: “Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma, / E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.” Mais adiante (v. 272), este volante interior activado pelo olhar que contempla ou observa é expressamente designado como o “volante vivo da minha imaginação” — e a palavra “imaginação” tem aqui o triplo sentido sobreposto de uma máquina de criar (ou reproduzir) imagens, de um dispositivo de acesso ao inconsciente e de um activador de memórias culturais ou míticas para as quais a literatura é suporte ou mediador imprescindível.

A “Ode Marítima”, lida enquanto resposta ao “chamamento confuso das águas” (v. 225) ou expressão de uma possessão pelo “delírio das coisas marítimas” (v. 211), deixa-se interpretar a título de uma apologia da imaginação, bem mais consentânea com o universo literário inglês do que com a já então institucionalizada influência francesa nas letras portuguesas, e bem mais naturalmente orientada para a alegórica ressurreição de fantasmas oriundos do passado — “Porque os mares antigos são a Distância Absoluta, / O Puro Longe, liberto do peso do Actual...” (v. 200-01) — do que para o anúncio de futuros radicalmente novos. Mas trata-se, convém sempre sublinhá-lo, de uma apologia hiperconsciente de que a vida a que esta imaginação pertence é em tudo a negação daquilo que o “volante vivo” desencadeia interiormente, visto que é uma vida feita da “minha brandura de acções, / Meu medo inato das cadeias, / Minha pacífica vida, / A minha vida sentada, estática, regrada e revista!” (v. 345-48). Daí que o elogio final, a roçar a ingenuidade, da “Maravilhosa vida marítima moderna, / Toda limpeza, máquinas e saúde!” (v. 772-73) mal chegue a ser contraditório com a orgiástica série de invocações e apóstrofes desencadeada recorrentemente por aquele “grito inglês”, “sem forma humana nem voz”, o “grito tremendo” (v. 230) com que Jim Barns fingia, diz o texto, chamar por uma escuna: “Ahò ò-ò ò-ò-ò-ò-ò ò-ò ò----yyyy... / Schooner ahò-ò-ò ò-ò-ò-ò---yyyy...” O elogio da imaginação converte-se ou reconverte-se em discurso sobre a sobrevivência da poesia num mundo em que “Tudo isto hoje é como sempre foi, mas há o comércio” (v. 797), de tal modo que o uso da adversativa não implica qualquer antinomia, antes sendo inclusivo de um excedente, de um suplemento introduzido sem ruptura nem descontinuidade: “Nada perdeu a poesia. E agora há a mais as máquinas / Com a sua poesia também, e todo o novo género de vida / Comercial, mundana, intelectual, sentimental, / Que a era das máquinas veio trazer para as almas.” (v. 780-83)

Esta espécie de bonomia precocemente pós-moderna, ao mesmo tempo sensível às diferenças e insensível a qualquer dramatização da diferença, não deixa afinal de ser consistente com o modo como a “Ode Marítima” termina num registo, já não de ode, mas de elegia. Antes disso, porém, há que acentuar a muito específica intensidade trazida ao poema, no seu conjunto mas sobretudo nas suas sequências intermédias, por aquela dimensão do “volante vivo” da imaginação que o faz dar voz ou dar passagem ao que, sem ambiguidade, designa por “O cio sombrio e sádico da estrídula vida marítima” (v. 274). Foi Eduardo Lourenço quem melhor leu, contra o pano de fundo de uma deserotizada história cultural portuguesa moderna, o “excesso resplandecente da palavra sexual libertada” da “Ode Marítima”, para usar os seus próprios termos. É, com efeito, só no final de uma longa e apaixonada apóstrofe dirigida aos piratas (quer dizer, ao cabo de uma longa e inegável apologia da crueldade e da dor, sexualmente interpretada e exaltada), com cerca de cento e setenta versos de duração, que por fim “Decresce sensivelmente a velocidade do volante” (v. 622) e a “Ode Marítima”, através de um retrocesso falsamente compensatório à memória de infância, quase se descaracteriza no tom elegíaco que a conclui. A sabotagem interna a que a própria libertação da “palavra sexual” é sujeita, nessa sequência, foi também sublinhada por E. Lourenço e é indicativa do traço porventura mais original e inesperado do longo poema (e, eventualmente, da poética de Álvaro de Campos): o seu modo revisionista de composição, como se uma linha de sentido fosse perseguida até ao limite em que se esgota e uma dobra no texto impusesse a exposição, a frio, do seu reverso. A metáfora do fluxo e do refluxo, no movimento de uma onda, aplica-se, por isso, com fecundidade hermenêutica e crítica, à estrutura e à desestruturação que marcam, do ponto de vista composicional e figurativo, o abalo considerável representado pela “Ode Marítima” na poesia de língua portuguesa.

Estes movimentos contraditórios, no sentido em que fazem da experiência e da exploração da contradição o próprio motor ou alimento de que se sustenta o poema, lembram a que ponto a poética dita modernista instala as suas inovações na dependência, quase sempre conflituosa, das direcções abertas pelo romantismo. Em poemas como as duas grandes odes de Álvaro de Campos publicadas por Pessoa nos dois números de Orpheu, isto é imediatamente sensível no convívio estreito entre procedimentos de escrita tradicionalmente poéticos e toda a sorte de prosaísmos discursivos que vão permeando os versos. Nessa perspectiva, é inegável que não há lugar onde melhor se exprima, em português, o desejo (ou a necessidade) de inventar outra língua para a poesia, condição sem a qual seria absurdo falar de “modernismo”, do que na “Ode Triunfal” e na “Ode Marítima”.

 

BIBL.: Fernando Guimarães, O Modernismo Português e a sua Poética, Porto, Lello Editores, 1999. Eduardo Lourenço, Fernando Pessoa Revisitado: Leitura Estruturante do Drama em Gente, 2ª edição, Lisboa, Moraes Editores, 1981. Adolfo Casais Monteiro, A Poesia de Fernando Pessoa (2ª edição, org. de José Blanco), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985.

 

 

Gustavo Rubim