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Novelas Policiárias

As novelas policiárias constituem um grande grupo da ficção em prosa de Fernando Pessoa. O autor escreveu-as ao longo da vida, passando do inglês para o português e de projectos mais incipientes para outros mais desenvolvidos. Existem, no Espólio, numerosas referências a projectos de publicação destas narrativas, que foram sendo reformulados e reagrupados, e registos de ideias a desenvolver. Todas as novelas policiárias ficaram incompletas e em diferentes graus de desenvolvimento. Numa carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de Janeiro de 1935, acerca da génese dos heterónimos, Pessoa afirma o seguinte: Quando às vezes pensava na ordem de uma futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de Mensagem figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos grande – um livro de umas 350 páginas –, englobando as várias subpersonalidades de Fernando Pessoa ele-mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária, que ainda não consegui completar (Correspondência I 338). Noutra carta a Casais Monteiro, com data de 20 de Janeiro do mesmo ano, volta referir a sua obra policiária: Até à data, que indico como provável para o aparecimento do livro maior, devem estar publicados o Banqueiro Anarquista (em nova forma e redacção), uma novela policiária (que estou escrevendo e não é aquela a que me referi na carta anterior) e mais um ou outro escritos que as circunstâncias possam evocar (Correspondência I 349). Como a sua biblioteca e os registos de obras a adquirir ou já lidas indicam, Pessoa era um leitor entusiasta dos policiais ingleses, conhecia os principais autores da «Idade de Ouro» e desenvolveu, no ensaio Detective Story, as suas teorias sobre o género, com referências aos autores mais conhecidos. Pessoa reconhecia a importância de Edgar Allan Poe nesta área e planeou a tradução e publicação dos contos The Murders in the Rue Morgue, The Mystery of Mary Roget, The Purloined Letter e The Golden Bug, sob o título geral de Contos de Raciocínio. The Stolen Document, conto policial dos primeiros tempos, que deixou incompleto, pretende ser uma correcção de The Purloined Letter. Igualmente apreciador de Conan Doyle, encontramos nas novelas em português alguma influência da personagem Sherlock Holmes e do conceito da dupla formada pelo detective e pelo seu amigo e associado, que reconstituiu com Abílio Quaresma e Manuel Guedes. Pessoa refere e dá opinião sobre Arthur Morrison, Wills Croft, Austin Freeman e a Baroness Orczy e utiliza sugestões de Philip MacDonald e de Israel Zangwill para resolver alguns aspectos do enredo das suas novelas. Correspondem as novelas em inglês às obras escritas na primeira fase da sua vida, atribuídas à personalidade literária Horace James Faber. Os projectos de Faber são herdados, mais tarde, por Vicente Guedes, que imagina tradutor das obras de Merrick, Charles Robert Anon e Faber. Nos registos dessa época vemos que seleccionara, para o conjunto, o título geral Detective Stories, mas existe também o título Tales of a Reasoner, mais tarde traduzido e adaptado para Contos do Raciocínio, que substituiu por Ex-Sargeant Byng. Este último título das novelas em inglês encontra correspondência em Quaresma, Decifrador, pois em ambos surge o nome do raciocinador que é a personagem central das histórias. Os títulos das narrativas policiais em inglês são os seguintes: Case of the Quadratic Equation, Case of the Delmont Robbery, Case of Mr. Arnott, Case of the Holloway Code, Case of the Stolen Document e Case of the Science Master. Existe um projecto que indica a tradução, pela personalidade literária Navas, de algumas destas novelas para português. Alguns destes títulos surgem traduzidos e acrescentados, embora com indicação de dubitados, no final de uma lista de novelas da série Quaresma, Decifrador, pelo que se poderá pensar que as iria adaptar e incluir no conjunto. O Caso Arnott surge em vários projectos em português, com o título alternativo de O Assassínio no Chalet Heloísa. O processo de tradução e adaptação ficou, no entanto, no início. A figura central destas narrativas policiais dos primeiros tempos é o detective Ex-Sergeant Byng. As novelas policiárias em português, organizadas sob o título geral Quaresma, Decifrador, são as seguintes: O Pergaminho Roubado, O Caso do Quarto Fechado, O Roubo na Quinta das Vinhas, O Desaparecimento do dr. Reis Gomes/Dores, O Ouro do Banco da Galícia/O Caso do Triplo Fecho, O Caso da Janela Estreita/Pequena, O Crime da Ereira (Baixa), A Morte de D.João, Crime, O Roubo da Rua dos Capellistas, O Caso do Banco de Viseu, A Carta Mágica, Os Cúmplices e O Caso Vargas. Esta última novela é a mais ambiciosa pela extensão e pelos temas desenvolvidos. A figura de raciocinador e decifrador pertence, nestas novelas, ao Dr. Abílio Fernandes Quaresma. A análise das narrativas permite encontrar pontos comuns entre o projecto em inglês e o projecto em português, apesar da diferença temporal que os separa e do superior desenvolvimento das novelas em português. Ambas se centram na figura de um raciocinador incompetente para a vida do dia-a-dia e cada um dos conjuntos tem início num texto onde Byng e Quaresma são apresentados após a sua morte, o primeiro em Londres e o segundo em Nova Iorque. Para ambos os conjuntos, o seu autor previu, inicialmente, o título geral de Contos de Raciocínio, título também do conjunto dos contos de Edgar Poe que pretendia traduzir e publicar. A questão dos processos de raciocínio e a definição de uma personagem que personifica esse raciocínio é central aos dois projectos. Byng e Quaresma são homens excepcionais, mas obscuros, desconhecidos da generalidade do público. Byng possui an intellect of extraordinary acuteness yet slumberous and full of dreams, all things of inactivity. Também Abílio Quaresma possui um intelecto fora do comum, embora os traços de sonhador tenham perdido peso no seu carácter. Mais do que sonhar, Quaresma isola-se no raciocínio, nas charadas da vida real ou do Almanach de Lembranças, e nos problemas de xadrez. A causa da morte de Byng é general paralysis, com uma variante sobreposta: delirium tremens. Encontramos, nas descrições do Dr. Quaresma, a indicação do mesmo vício. Ambos morrem devido a doenças causadas pelo alcoolismo. Ambos se caracterizam pela incompetência para a vida, no caso de Byng definida como uma total incapacidade de raciocinar em relação às coisas comuns. Esta incapacity for reasoning on common things constitui também um dos principais aspectos da personalidade do Dr. Quaresma. É reflexo desta incapacidade um pormenor da construção destas personagens: o aspecto pós-profissional. Byng é  Ex-Sargeant Byng, o que já foi sargento, e Quaresma designa-se a si próprio como um médico sem clínica. A vulgaridade e a agitação de Byng, que não consegue estar quieto numa cadeira e é possuído por uma perpetual restlessness, não existem em Quaresma, estático por natureza, mas sim em Manuel Guedes, que vemos correr, pulinhar e gesticular com impaciência. De Byng se diz: He talked to himself, gestured to himself with a grotesque and enormous eloquence that had too much of madness. Yet he abhorred all society. É essa exclusão da sociedade e a incapacidade para lidar com coisas materiais que, para além  da inteligência raciocinadora, vai unir as duas figuras dos decifradores. Nas novelas policiárias, mais do que o mistério policial, a descoberta do criminoso e as circunstâncias do crime, assumem importância os temas que Fernando Pessoa  desenvolve ao longo de muitas páginas: o funcionamento da mente humana, a psicologia do criminoso, do louco e do homem de génio, as patologias da vontade, o suicídio, a arte de raciocinar, os tipos de inteligência e outras questões que lhe eram caras. Surge, nestas novelas, um roteiro especial de Lisboa, com os seus pólos na Rua dos Fanqueiros, onde morava Quaresma, e no Governo Civil, onde Guedes tinha o seu gabinete, e as fronteiras em Benfica, na Estrela e no Terreiro do Paço.

 

 

BIBL.: Fernando Pessoa, Quaresma, Decifrador, ed. Ana Maria Freitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2008. Fernando Pessoa, The Case of the Science Master, ed. Gianluca Miraglia. In Revista da Biblioteca Nacional, 2ª série, III, 3, 9-12/1988, pp. 43-47. Fernando Luso Soares, A Novela Policial-Dedutiva em Fernando Pessoa, Editora Diabril, Lisboa, 1976.

 

 

Ana Maria Freitas