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Na Farmácia do Evaristo

Título de um texto de Fernando Pessoa em que, a propósito da revolta militar de 18 de Abril de 1925, se discute a política portuguesa. A data refere-se a um movimento militar dirigido por oficiais de alta patente, no activo, que pretendiam lutar contra a instabilidade política do regime da Primeira República Portuguesa. Este movimento precursor do 28 de Maio de 1926 utilizava como modelo o golpe de estado de Primo de Rivera, em Espanha. Falhou por falta de adesão entre os militares e os seus dirigentes foram presos. O texto incompleto a que Fernando Pessoa deu o título «Na Farmácia do Evaristo» analisa, sob a forma de um diálogo entre várias personagens, a política portuguesa após 18 de Abril. Numa tarde de domingo depois do golpe, Evaristo, o proprietário, Mendes, um republicano democrático, o Justino dos coiros, o Canha das Barbas, também republicano, o coronel Bastos e José Gomes, mais conhecido por Gomes Pipa, reúnem-se na farmácia. Mendes regozija-se com o restabelecimento da ordem e considera que as tropas fiéis cumpriram o seu dever de fidelidade ao governo, à disciplina e às instituições. Gomes Pipa contrapõe com a revolução de 5 de Outubro, em que os militares revoltosos faltaram ao juramento que tinham feito. Para Mendes, a revolução republicana nasceu de um impulso nacional, de um mandato imperativo de uma nação inteira. Gomes Pipa contraria esta opinião, referindo a perpétua atitude de sobressalto em que se vive, os motins e as revoltas. Com intervenções pontuais dos outros intervenientes, Gomes Pipa analisa os factores que poderiam legitimar a revolução republicana: continuidade, justificação eleitoral e aceitação espontânea da parte do país. Refere a burla dos processos eleitorais e a falta de representatividade parlamentar. Utiliza, como termo de comparação, o sistema parlamentar inglês. Na sua crítica, utiliza o argumento de que a República mais não fazia que dar continuidade a aspectos negativos da Monarquia, como a incompetência e a corrupção. A datação deste texto, embora pareça clara, pois é declaradamente escrito após o 18 de Abril de 1925, levanta algumas questões. Com efeito, encontramos referências a este título em testemunhos de anos anteriores. Num dos casos, surge incluído numa lista de projectos para a Olisipo, em 1920. O título encontra-se igualmente referido num caderno de 1915, como alternativa ao título «O Eunuco». Coloca-se a hipótese de o autor ter iniciado o texto na sequência da revolta de 14 de Maio de 1914 contra Pimenta de Castro, última de uma série de revoltas que conduziram à ditadura de João Chagas, tendo-o adaptado após a revolta de 18 de Abril de 1925.

 

BIBL.: Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa, Vol. III, introd., org., bibliografia e notas de António Quadros, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1986.

 

 

Ana Maria Freitas