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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Monóculo

O monócolo é um sinal de distinção aristocrática no final do século XIX, mas vai-se banalizando ao longo do século XX, ao ponto de o Repórter X o definir já, num artigo da Civilização de Janeiro de 1930, «A Democratização do Monóculo», como a marca de uma «moda petulante pretenciosa». De qualquer modo, ao tempo de Orpheu parece manter ainda a conotação de elegância, com um forte valor sugestivo que terá ficado ligado ao ícone da ironia de Eça de Queirós, mas que, além disso, evoca uma imagem de Cesário Verde, de O Sentimento dum Ocidental: «E eu, de luneta de uma lente só, / Eu acho sempre assunto a quadros revoltados». Este elemento de humor e de vida citadina adequa-se bem ao figurino de Álvaro de Campos – a quem o monóculo fica ligado desde que aparece, envolto num vapor de tédio, em Opiário. A Campos o monóculo garante, segundo Leyla Perrone-Moisés, «ao mesmo tempo a aparência de dândi e um olhar, que ele pretendia ter, sem profundidade» (1988: 344), isto é, um olhar que corre veloz sobre todas as coisas. Depois, lê-se em Passagem das Horas: «E uso o monóculo para não parecer igual à ideia real que faço de mim» – em risco agora, como se percebe, que a máscara lhe fique colada à cara, e que aquela «lente só» de pose social se lhe torne no olho de um cíclope. O certo é que, na Carta sobre a Génese dos Heterónimos, Campos é, ainda e sempre, descrito como usando monóculo. Embora já não «de monóculo e de casaco exageradamente cintado» como aparece na Saudação a Walt Whitman, e, portanto, já não tão colado ao estereótipo do decadente. Aqui, o monóculo surge em Fernando Pessoa como o emblema  do seu ego alter, daquele eu outro que com ele contracena em várias polémicas de imprensa ao longo da vida, e até intervem nos debates amorosos com Ofélia ou em certos e traumáticos encontros com Régio, e, por fim, se distingue tão bem do elemento simbólico por excelência de Fernando Pessoa, os óculos – os mesmos ou os outros, por exemplo aqueles que Almada para ele desenhou no dia da sua morte, pequenas ogivas deitando sobre o infinito.

 

BIBL.: Leyla Perrone-Moisés, “Pensar é estar doente dos olhos”, in O Olhar, ed. Adaulto Novaes, São Paulo, Companhia das Letras, 1988

 

Fernando Cabral Martins