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Modernismo Espanhol e Ibero-Americano

No universo espanhol e ibero-americano, designa o movimento artístico que se manifestou ao longo do último quartel do século XIX e inícios do XX, no âmbito da corrente de renovação que foi denominada pelo mesmo termo na Europa transpirenaica, especialmente na Alemanha e em Inglaterra, e em França foi identificada através da nomenclatura das várias escolas que lhe corresponderam, Simbolismo, Parnasianismo, Impressionismo, Expressionismo. Colheu dessas poéticas europeias, em particular das francesas (especialmente, da parnasiana e da simbolista), fecundos veios de inspiração com os quais, recuperando a herança romântica, produziu uma decisiva renovação literária frente ao Realismo e ao Naturalismo vigentes.

Entre os seus mais destacados cultores, teve o peruano Manuel González Prada (1848-1918), o cubano José Martí (1853-1895), o mexicano Manuel Gutiérrez Nájera (1859-1895), o colombiano José Asunción Silva (1865-1896), o argentino Leopoldo Lugones (1874-1938) e o uruguaio Julio Herrera y Reissig (1875-1910) e, como seu mais célebre corifeu e divulgador, o nicaraguano Rubén Darío (1867-1916). No espaço peninsular, manifestou-se mesmo antes da primeira estância de Darío em terras espanholas, em 1892, e recebeu, em boa medida, a influência das novas tendências americanas, particularmente, da poesia estilizada e marcada por suaves tonalidades exóticas do seu mais destacado vate; floresceu, por exemplo, em significativa parte da poesia de Salvador Rueda (1857-1933), de Manuel Machado (1874-1947) e de seu irmão Antonio (1875-1939), de Francisco Villaespesa (1877-1936) e de Tomás Morales (1884-1921), nas Sonatas (1903-1905) de Ramón del Valle Inclán (1869-1936), especialmente na Sonata de otoño (1905), no teatro de Eduardo Marquina (1879-1946) e de Enrique López Alarcón (1891-1963). Maior independência relativamente à repercussão das criações americanas teve o movimento na Catalunha, embora a sua eclosão tenha coincidido temporalmente com a chegada do nicaraguano a Espanha – entre Setembro desse ano e o mesmo mês de 1893, ocorreram múltiplos sucessos de viragem cultural e artística, como a mudança da direcção da redacção de L’Avenç assumida por Jaume Brossa (1869-1919) e Alexandre Cortada (1865-1935) que funcionou, também, como tertúlia modernista, a publicação dos contundentes artigos de Joan Maragall (1860-1991) e Raimon Casellas (1855-1910) nos periódicos Brusi e La Vanguardia, respectivamente, a estreia das primeiras obras de Enric Morera (1865-1942) e, entre outros, a primeira festa modernista realizada em Sitges, sob inspiração de Santiago Russinyol (1861-1931), que congregou os grupos catalães mais progressistas de então. Entre os seus mais destacados protagonistas no plano literário, encontram-se Maragall, Casellas, Rusiñol, Gabriel Alomar (1873-1941) e Eugenio d’Ors (1881-1954) pelas suas criações – mas igualmente pelos seus textos críticos e programáticos.

No âmbito da historiografia literária espanhola, uma parte dos estudiosos consigna uma definição restritiva do movimento, pois considera que fazem parte desta renovação estética apenas as obras mais visivelmente influenciadas pela nova expressão surgida na América Latina, excluindo as dos autores que foram reunidos por José Martínez Ruiz, Azorín (1873-1967), num dos seus artigos coligidos em Clásicos y Modernos (1913), sob a designação de “Generación del 98”. Pedro Salinas, por exemplo, desenvolveu esta visão depois de ter exposto uma perspectiva inicial de integração dos dois grupos; na sua formulação, embora continue a admitir a coincidência genética de modernistas e “noventayochistas” (uma vez que uns e outros tinham nascido de uma clivagem, de uma reacção ao estado da literatura), advogou, em “El problema del Modernismo en España o un conflicto entre dos espíritos” (Literatura española. Siglo XX, 1970), a profunda dicotomia entre ambos, fundamentando-a nas características das respectivas produções: enquanto as dos primeiros denotavam um claro esteticismo e a procura de um novo modo de criação poética e da própria concepção de poesia, as dos segundos revelavam um acentuado intelectualismo e uma necessidade de uma profunda renovação não apenas literária, mas sobretudo da consciência nacional. Luis Cernuda também postulou a antinomia das criações dos dois grupos e Guillermo Díaz-Plaja, entre outros, explanou, sob um título tão sugestivo quanto o de Salinas, Modernismo frente a noventa y ocho (1951), a mesma visão, procurando demonstrar que o único aspecto comum entre as obras de uns e de outros fora a crítica à linguagem oitocentista.

Outra concepção emerge a partir das páginas da Antología de la poesía española e hispano-americana (1934) e da “Historia de la poesía modernista” (España en América, 1955), de Federico Onís, de El modernismo. Apuntes de curso, 1953 (1962), de Juan Ramón Jiménez, e, entre outras, de Los límites del modernismo (1964), de Rafael Ferreres. Destes e doutros estudos posteriores, resulta uma definição conciliadora dos dois grupos: alguns deles procuram demonstrar o carácter modernista de certos textos produzidos pela “Generación del 98” e apresentá-la como um ramo daquele movimento; no seu conjunto, tentam provar que as criações canonicamente consideradas modernistas e as “noventayochistas” manifestam o mesmo espírito de crise finissecular, a presença de iguais influências estrangeiras, uma semelhante atitude crítica relativamente à estética vigente, uma idêntica procura de renovação profunda, uma comum defesa da autonomia da arte e um similar repúdio pela sociedade burguesa. Identificam, em suma, como modernistas todas as expressões estéticas daquele período que surgiram com marcas inovadoras, sejam obra da “Generación del 98”, sejam produção dos que mais visivelmente acolheram as formas do Modernismo Ibero-Americano transplantadas por Rubén Darío para Espanha. Tendem, portanto, a considerar o movimento nas suas balizas mais alargadas.

Embora esta seja a concepção dominante na crítica mais recente, a questão não se encontra, ainda, dirimida – e inclui uma outra, a da revisão do próprio conceito divulgado por Azorín e logo contestado por Pío Baroja (1872-1956) –, pois uma historiografia mais tradicionalista continua a notar que, apesar da dificuldade em estabelecer fronteiras, a “Generación” apresenta aspectos individualizantes nesse panorama cultural e artístico – nomeadamente, a sua propensão para o aprofundamento da ideia de Espanha no contexto do fascínio cosmopolita moderno, à qual já se referira Pedro Salinas no estudo citado: “No se me oculta que la generación del 98 tiene un aspecto cosmopolizante [...]. Pero ese cosmopolistismo es instrumental únicamente: ven en Europa un surtido de afinadas herramientas con las que se podría reparar la maquinaria mental española de modo que aprendiéramos a pensar más claro, y desean importarlas. Nada más. Su meta no es ningún París galante ni Bagdad fabuloso, es España y siempre España” (p. 15).

A observação dessa especificidade distintiva não considera, porém, a presença no modernismo catalão de uma tendência equiparável, embora não identificável, para a reflexão sobre a identidade – por exemplo, não coteja a relação entre a formulação de Miguel de Unamuno (1864-1936) e a defesa e a afirmação do catalanismo de Maragall (autores que, aliás, mantiveram uma intensa correspondência epistolar) elaboradas no âmbito de uma mesma concepção de grande Ibéria formada por todas as culturas que fazem parte da Península. O modernismo catalão assumiu timbres mais bem radicais e uma feição especialmente universalizante – procurou a superação dos conteúdos regionalistas e do próprio estatuto da literatura como expressão regional de uma cultura mais ampla, de contornos nacionais, e lutou pela instauração de um modo de criação que consistisse numa manifestação autónoma, mas de dimensão universal (vide, por exemplo,alguns estudos de Joan Lluís Marfany). Contudo, também elaborou uma reflexão introspectiva, embora com uma feição, sobretudo em certos autores, acentuadamente anticastelhana, de reacção ao modelo imperial da Espanha peninsular.

No âmbito ibero-americano, o movimento teve também, do ponto de vista ideológico, um conteúdo anti-imperialista por ter estado associado, nas suas origens, a um programa político anticolonial e de afirmação da nacionalidade – sendo sintomático que um dos obreiros da independência cubana, José Martí, tenha sido um dos seus percursores – e por, posteriormente, ter continuado a exprimir os ideais desse programa e a partilhar protagonistas com outros sucessos e fenómenos de instauração do “americanismo”. Neste sentido, correspondeu à reacção aos velhos modelos espanhóis e à sua superação através da utilização das correntes francesas como matrizes inovadoras e da recorrência ao universo do “criollismo”; consequentemente, consolidou a instauração das literaturas nacionais americanas.

Muitos dos modernistas ibero-americanos e peninsulares estiveram, aliás, comprometidos com movimentos revolucionários, com o ideário anarco-socialista, e transpuseram para as suas obras – ou o inverso, de acordo com a atitude própria do esteticismo, do dandismo, do decadentismo  – a defesa de uma sociedade liberta das prerrogativas materiais e das desigualdades que a industrialização e o comércio tornavam exponenciais. O anti-materialismo e o anti-mercantilismo (e o correlativo repúdio pelo utilitarismo e pelo espírito burguês) deram mãos ao anti-imperialismo e promoveram a apetência pela experimentação estética.

Apesar da especificidade das suas vertentes e da que distingue os respectivos autores entre si, o Modernismo surgiu no mundo hispânico como resposta, ora predominantemente ética, ora sobretudo estética, a uma inquietude de época resultante da reacção aos modelos conservadores e aos valores da ascendente burguesia que dominavam as sociedades americanas e espanhola. Manifestou-se, simultaneamente, como notou Federico de Onís na aludida Antología de la poesía española e hispano-americana, enquanto expressão da crise ocidental denominada pelo epíteto de fin de siècle, assim como do espírito decadentista, mas também da necessidade de uma profunda renovação que atingiu todas as formas do pensamento e da criação. 

 

 

BIBL.:

GULLÓN, Ricardo, Direcciones del modernismo, Madrid, Alianza, 1990.

MARCO, Joaquim, “El modernisme literari a Catalunya”, in El modernisme literari i altres assaigs, Barcelona Edhasa, 1983, pp. 9-81.

PÉREZ, Julián Alberto, Modernismo, vanguardias, posmodernidad. Ensayos de literatura hispanoamericana, Buenos Aires, Corregidores, 1996.

 

 

Teresa Araújo