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Mediunidade

A mediunidade manifestou-se em Fernando Pessoa como modelo de inspiração poética e como fenómeno espiritista. Tanto numa como noutra vertente, o escritor foi mais longe do que qualquer outro modernista português e só entre outros europeus podemos encontrar termos de comparação. Os dois conceitos de mediunidade serão considerados separadamente, mas há evidentes ligações entre eles.

I.Desde a Antiguidade que era frequente os escritores, e em especial os poetas considerarem as suas produções como dádivas vindas de Deus ou de um qualquer além, e das quais não passavam de meros intermediários. De um modo geral, o Modernismo rejeitou a noção de inspiração segundo a qual o poeta seria um veículo passivo que, em momentos de consciência elevada ou alterada, «receberia» as suas ideias poéticas e até, por vezes, a própria expressão destas em palavras ritmadas. Um poema de Álvaro de Campos, datado de 1/3/1935, reflecte a crise de inspiração sentida pela sua época nos primeiros dois versos, «Os antigos invocavam as Musas. / Nós invocamo-nos a nós mesmos.», e nas duas palavras que servem de remate: «Que Musa!». Convencido de que a enunciação directa do que sentia, sem qualquer mediação, seria demasiadamente pobre para produzir uma arte com poder comunicativo (ver, por exemplo, a carta enviada a Adolfo Casais Monteiro, em 11/1/1930), Pessoa desenvolveu estratégias de despersonalização, tal como fizeram outros modernistas, nomeadamente os anglo-saxónicos William Butler Yeats (1865-1939), T. S. Eliot (1888-1965) e Ezra Pound (1885-1972). Na geração anterior à de Yeats, Robert Browning (1812-1889), um poeta lido e traduzido por Pessoa, já adoptara a técnica do monólogo dramático, e o drama — ou a dramatização, a encenação — era fundamental para a poética dos citados modernistas. Yeats e Eliot escreveram peças (Browning, significativamente, tornou-se poeta por ter falhado como dramaturgo) e Pound recorreu a uma variedade de vozes e até de línguas para narrar os seus Cantos, sem falar do seu alter-ego Hugh Selwyn Mauberley. Aliás, Yeats também teve o seu Michael Robartes e Owen Aherne, Eliot o seu J. Alfred Prufrock, e o expediente dos alter-egos estendeu-se a outros espaços linguísticos no início do século XX, sendo António Machado (1875-1939), Paul Valéry (1871-1945) e Rainer Maria Rilke (1875-1926) três de vários exemplos dignos de nota.

«Para mim (...) a arte é essencialmente dramática», escreveu Pessoa numa carta datada de 10/8/1925, o que se verifica mais nitidamente na poesia de Álvaro de Campos, mas todos os heterónimos propriamente ditos (Campos, Caeiro, Reis) e, em grau menor, os semi-heterónimos Bernardo Soares e o Barão de Teive, são monologadores dramáticos, com uma existência que ultrapassa, se for possível, as suas produções literárias. É como se o seu monologar existisse antes das obras a eles atribuídas; ou seja, são os seus poemas e textos em prosa que surgem em função das suas personalidades e não estas que são definidas por aqueles. Por isso Pessoa, para além de se caracterizar como «essencialmente poeta dramático» (numa carta enviada a João Gaspar Simões, em 11/12/1931) ou «essencialmente (...) dramaturgo» (numa carta para Adolfo Casais Monteiro datada de 20/1/1935), afirma ser um «médium», não de alguma Musa semidivina, mas de si próprio desdobrado em outros — isto é, dos seus heterónimos. É no inacabado Prefácio a Aspectos (projecto de publicação das obras heterónimas anterior ao projecto semelhante intitulado Ficções do Interlúdio) que o heteronimizador expõe mais claramente o seu conceito de mediunidade literária. Depois de avisar o leitor de que «nunca teve uma só personalidade, nem pensou nunca, nem sentiu, senão dramaticamente, isto é, numa pessoa, ou personalidade, suposta, que mais propriamente do que ele próprio pudesse ter esses sentimentos», o prefaciador explica a heteronímia como um fenómeno mediúnico que, começando por ser voluntário, se torna num processo espontâneo:

A cada personalidade mais demorada, que o autor destes livros conseguiu viver dentro de si, ele deu uma índole expressiva, e fez dessa personalidade um autor, com um livro, ou livros, com as ideias, as emoções, e a arte dos quais, ele, o autor real (ou porventura aparente, porque não sabemos o que seja a realidade), nada tem, salvo o ter sido, no escrevê-las, o médium de figuras que ele próprio criou.

Num outro texto destinado a este ou outro prefácio à obra heteronímica (ver Obra Essencial de Fernando Pessoa, vol. V, p. 149 e respectiva nota), Pessoa, depois de informar o leitor de que «quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor», descreve este seu papel nos seguintes termos: «Médium, assim, de mim mesmo, todavia subsisto. Sou, porém, menos real que os outros, menos uno, menos pessoal, eminentemente influenciável por eles todos.» Concebe-se, portanto, como um canal passivo, em conformidade com o conceito tradicional da mediunidade, com a diferença — fundamental — de que as entidades cujas palavras recebe e transmite provêm unicamente de si. Não há, em tudo isto, nada de propriamente místico, apenas o mistério comum a toda a criação artística de alto nível, desafiadora do nosso entendimento habitual das coisas. É o mistério assinalado por Pessoa no seu relato do «dia triunfal», quando supostamente compôs mais de trinta poemas de O Guardador de Rebanhos (o tal dia correspondeu, na verdade, a um período de dez dias de concentrada produção) «numa espécie de êxtase» indefinível. O facto é que o autor, embora sempre fosse aplicado e trabalhador, produziu muitas das suas obras mais notáveis de um jacto, como se um determinado heterónimo (ou o ortónimo) ditasse ao escrivão Fernando Pessoa. Se atendermos às datas das suas composições, podemos constatar que houve, ao longo da sua carreira, uma série de dias ou semanas «triunfais». Algo parecido se passou com Rilke, que, dedicando-se obsecadamente ao seu trabalho literário, escreveu boa parte das suas obras maiores em breves períodos de grande produtividade e exprimiu, mais de uma vez, o seu agradecimento por um poema lhe ter sido «dado». Contudo, e apesar dos anjos invocados pelas Elegias de Duíno, a poesia de Rilke estava profundamente enraizada no mundo natural. Foi também o caso de Pessoa, que, depois de defender a existência real dos heterónimos no já citado Prefácio a Aspectos, conclui dizendo: «Não me digais que sou médium de espíritos estranhos à terra. Com a terra me quero, e com o seu âmbito azul.»

II.Pessoa, no entanto, também tivera a experiência de ser médium «de espíritos estranhos à terra», segundo a carta que enviou à tia Anica (irmã de sua mãe), em 24/6/1916. Nela alude a vários fenómenos de mediunidade: a visão etérica, pela qual via a «aura magnética» de outras pessoas e também de si próprio, no espelho, ou irradiando-lhe das mãos, na escuridão; a visão astral, pela qual, com os olhos fechados, via «figuras estranhas, desenhos, sinais simbólicos, números»; a súbita e como que telepática «depressão vinda do exterior» que caiu sobre ele durante a crise mental que levou Mário de Sá-Carneiro a suicidar-se em Paris, a 26/4/1916; e a escrita automática, o primeiro e mais persistente fenómeno mediúnico experimentado por Pessoa.

A escrita automática, ou mediúnica, popularizou-se no século XIX, sendo praticada em pequenos grupos para comunicar com os espíritos dos mortos (geralmente antepassados), habitualmente com o auxílio de uma prancheta — pequena tábua onde se apoiava um lápis que deslizava pelo papel sob a ligeira pressão dos dedos dos participantes. O primeiro exemplo dessa escrita produzido por Pessoa, sozinho e sem prancheta, em fins de Março de 1916, foi a assinatura de Manuel Gualdino da Cunha, seu tio-avô morto em 1898. Antes disso, já participara com a tia Anica e a sua filha Maria (com quem viveu entre 1912 e 1914) em «sessões semiespíritas», nas quais fora, contudo, um «elemento atrasador», segundo diz na citada carta. O espólio de Pessoa inclui umas duzentas folhas com escritos automáticos. A grande maioria das comunicações «recebidas» por ele data de 1916-1917. O espírito comunicante mais loquaz era Henry More (1614-1687), um dos chamados Platónicos de Cambridge. Outro espírito assíduo, Wardour, assinou não só comunicações mas também alguns horóscopos e até dois poemas, um dos quais em sociedade com Pessoa (publicados em fac-símile, com transcrição, in Teresa Rita Lopes, Pessoa por Conhecer, Lisboa, Estampa, 1990, v. II, pp. 289-292). Estes e outros espíritos bem menos prolíficos, como Henry Lovell, escreviam em inglês, geralmente numa caligrafia infantil, mas havia pelo menos um, de nome Sousa, que comunicava em português. Também havia um espírito maléfico, «the Voodooist», que lutava com os «bons» espíritos para disputar a alma do seu discípulo Pessoa. Por vezes o Voduísta assinava «Joseph Balsamo», nome civil do Conde Alessandro di Cagliostro (1743-1795), divulgador do rito egípcio da Maçonaria, adepto do espiritismo e reconhecido, já no seu tempo, como um hábil charlatão.

Na sua maioria, as comunicações consistiam em respostas, ora sucintas ora bastante extensas, a perguntas que Pessoa não registou nos papéis, mas que podem ser intuídas. A sua virgindade e como superá-la era o assunto dominante da primeira e mais abundante fase da sua escrita automática. Algumas comunicações tratavam da sua carreira literária (que não podia avançar plenamente sem que o poeta se realizasse sexualmente, segundo advertiam os espíritos) e outras incidiam sobre a natureza do plano astral e a sua relação com o mundo terreno. (Ver uma selecção dos escritos automáticos in Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, ou in Pessoa, Obra Essencial, vol. V, Prosa Íntima e de Autoconhecimento, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007.)

Por volta de 1919, Pessoa elaborou o esboço, muito pormenorizado, para um ensaio intitulado «Um Caso de Mediunidade» (publicado nos dois volumes citados no parágrafo anterior e, pela primeira vez, in Teresa Rita Lopes, Fernando Pessoa et le drame symboliste, Paris, Fundação Gulbenkian, 1977, pp. 505-509), no qual desmentiria a validade das suas experiências mediúnicas, atribuindo fenómenos como a visão etérica e a escrita automática a elementos de sugestão exteriores — lê-se que «a mediunidade começou a seguir a uma leve hipnose» — e à auto-sugestão, estimulada «pela leitura de obras de ocultismo e de teosofia». Na rubrica «Análise das chamadas “comunicações” mediúnicas», o autor entende estas como um produto inferior (1) da «actividade imaginadora e baixa do subconsciente», (2) da «actividade do subconsciente no que resíduo de elementos do consciente» ou, ainda, (3) da «actividade memoriada do subconsciente, reproduzindo elementos gravados que o consciente não atinge». Apesar de ter renegado a existência de espíritos comunicantes, Pessoa continuou — embora com muito menos frequência — a produzir escritos automáticos durante o resto da vida, às vezes nas margens de um poema ou outro escrito. Terão sido, à luz das suas citadas análises, uma maneira de aceder ao subconsciente, não para fins directamente literários (como no caso dos surrealistas franceses) mas para se indagar e consolar. Ainda tomavam a forma de comunicações, pelas quais os espíritos aconselhavam e encorajavam o poeta.

O interesse de Pessoa pela mediunidade, enquanto método para contactar com os espíritos dos mortos e com o mundo astral, tem um paralelo em Yeats, que acreditou na magia e investigou as potencialidades desta ao longo da sua vida adulta. Não reivindicava, para si próprio, poderes mediúnicos, mas colaborou com mais de um médium e muito em especial com a sua mulher, Georgie Hyde-Lees. Esta começou a escrever automaticamente quatro dias após o casamento, em 1917, e Yeats passava horas, dia após dia, a formular perguntas a que vários «communicators» respondiam, pela mão dela. As comunicações, registadas num caderno, serviram para elaborar o livro (em prosa) A Vision (1925; versão revista, 1937), em que Yeats descreveu 28 tipos de personalidade humana, definidos pelas proporções relativas de subjectividade e objectividade, que decorriam ao longo de um ciclo de incarnações. Elementos dessa visão, bastante complexa, surgem como símbolos ou temas na poesia do escritor irlandês. A escrita automática de Pessoa, embora mais ocupada com assuntos pessoais e quotidianos (previsões de encontros com mulheres desvirginadoras, por exemplo), também incluía explicações sobre níveis de realidade espiritual que são igualmente mencionados nos seus poemas esotéricos. Contudo, não parece que as suas experiências mediúnicas — cuja legitimidade pôs em causa, como vimos — tenham sido uma fonte geradora do seu pensamento esotérico. Yeats, pelo contrário, insistiu na origem mediúnica do sistema metafísico que formulou e divulgou.

 

Richard Zenith