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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

José Gomes Ferreira

(1900-1985)

Importa considerar a obra de José Gomes Ferreira no contínuo constelar que une a tradição romântica (em particular, a de fundo simbolista-saudosista) à modernidade pós-Pessoa, absorvendo várias nuances e descontinuidades desse arco histórico-literário. Fernando Pessoa é, assim, uma referência (não exclusiva) a que o autor responde e se contrapõe, no sentido de construir a sua identidade poética.

 Distanciada da juvenília neo-romântica de Lírios do Monte (1918) e Longe (1921), a sua escrita amadurece em Poesia-I (1948) e nos cinco volumes poéticos que se lhe seguem até 1976, vindo todos eles a ser coligidos nos volumes de Poeta Militante (1977-1978-         -1983). O silêncio prolongado nas décadas de 20-30 é, todavia, interrompido por episódios marcantes, como a publicação na presença, em 1931, do poema «Viver sempre também cansa» e a inclusão, um ano depois, na «Antologia da Poesia Modernista» da revista Descobrimento. Também estimulada por via da música, do cinema e das artes plásticas, assim se torna efectiva a sua incorporação modernista, que Casais Monteiro e Jorge de Sena não hesitaram em reconhecer-lhe. No entanto, se, em 1920, publicou um inédito pessoano (o poema «Abdicação», 1913), na revista Ressurreição, de que era director literário, a verdade é que, nesse período, Gomes Ferreira estava ainda a salvo de Pessoa, cuja obra só conhece a partir dos anos 40. Ao ficar alheado do abalo órfico, privilegia, em contrapartida, o magistério brandoniano, na sequência de uma sólida cultura oitocentista: não admira que o seu sonho revolucionário corra sempre a par da solidão existencial, do visionarismo cósmico e do realismo caricatural, bebidos em Antero, Gomes Leal, Brandão e Pascoaes. Juntam-se-lhes Hugo, Dostoievski, Tolstoi, Strindberg ou Ibsen. Daí nascem, em Gomes Ferreira, a singularidade da estética do grito e o entendimento da linguagem poética como produtora da realidade. A movimentação imaginística permite-lhe, então, cruzar, segundo Gastão Cruz, «a posição de pioneiro de síntese do neo-realismo com as tendências mais amplamente renovadoras dos fins da década de 40».

Foi, entretanto, Carlos de Oliveira quem primeiro identificou o lugar de encruzilhada do poeta militante na modernidade novecentista, por diferença do projecto pessoano. Ao alterizar (sem impessoalizar) a figura autoral, este sujeito encena e interpreta o papel de poeta-autobiógrafo. Com recuo melancólico, interroga não só as condições e instrumentos do seu trabalho, mas também a desolação e os esplendores do século XX de que se diz testemunha. A par de Nemésio, Cinatti, Cesariny, Sophia ou Sena, a composição autobiográfica de José Gomes Ferreira (ampliada pela edição póstuma, ainda incompleta, do  diário Dias Comuns, 1990-2004) assimila e pretende superar o fingimento heteronímico. Mas, para a compreender, há que considerar que a sua modernidade pós-Pessoa vem, de entre outras matrizes, do sujeito alterizado rimbaldiano, em alternativa ao anonimato e ao desaparecimento ilocutório do sujeito, propugnados por Mallarmé.

A descoberta do verso livre, «paralelo e não descendente ou derivado de Fernando Pessoa-Álvaro de Campos», como o próprio diz em A Memória das Palavras (1965), traduz formalmente uma subjectividade dispersiva, tomada pelo ritmo das coisas banais e mutantes, pelo irreal quotidiano onde habitam o sonho, o devaneio e a transfiguração surrealizante. A reportagem sonâmbula da cidade, na crónica ou no relato memorialístico, de O Mundo dos Outros (1950) a Calçada do Sol (1983), é outro modo de fazer a militância da poesia total que inclui dentro dela a responsabilidade social e cívica e não o inverso.

A pertença moderna/ista de José Gomes Ferreira concretiza-se ainda na busca  (de origem whitmaniana) da coralidade e do diálogo comunitário por parte de um eu que nunca se apaga no palco solitário da escrita nem abdica de chegar aos outros. Formula, por isso, o desejo, comum aos poetas neo-realistas, do lirismo coral e heróico, enquanto, ao contrário destes, se multiplica em máscaras e timbres de voz, do sussurro ao grito, que o fracturam nos outros de si e dão força irradiante, auto-irónica e fantasmática à persona do autor.

 

BIBL.: Carlos de Oliveira, «Autor, encenador, actor» in O Aprendiz de Feiticeiro, 3ª. ed. corrigida, Lisboa, Sá da Costa, 1979: 163-164;Gastão Cruz, «Duas notas sobre José Gomes Ferreira» in A Poesia Portuguesa Hoje, 2ª. ed. corr. e aum., Lisboa, Relógio d’Água, 1999: 37-40; Carina Infante do Carmo, A Militância Melancólica ou a Figura de Autor em José Gomes Ferreira, Dissertação de doutoramento, Faro, Univ. do Algarve, 2006.

 

 

Carina Infante do Carmo