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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Jean Seul

Em 1908, o jovem Fernando Pessoa delineou, em The Transformation Book, or Book of Tasks (cf. Fernando Pessoa et le Drame Symboliste, ilustrações 10, 19, 20 e 21), uma côterie imaginária composta por Alexander Search, Charles James Search, Pantaleão e Jean Seul de Méluret. Com Seul atravessamos um período importante da formação literária e cultural de Pessoa. Nos anos que antecederam a implantação da República, o jovem Pessoa nunca deixou de acompanhar a realidade histórica de outros países, como a França e a Inglaterra, tendo projectado alguns «textos de intervenção» para esses públicos estrangeiros. Jean Seul trata de autores e de fenómenos vincadamente franceses ou associados com frequência à França, símbolo máximo da decadência da civilização ocidental, assinando ataques violentos ao que considera serem as causas dessa degenerescência.

Seul está encarregado da redacção de três textos, de acordo com a sua apresentação no Book of Tasks e que se caracterizam pelos seus intuitos científico-morais: Des Cas d’Exibicionnisme, La France en 1950 e Messieurs les Souteneurs (Pessoa terá ponderado a hipótese de atribuir-lhe também a tarefa de escrever poesia). Desses três projectos, só chegaram até nós fragmentos inacabados. Mas estes textos acompanharam Pessoa durante uma parte significativa da sua vida literária, pois a primeira referência a estes é de finais de 1907 e o título «La France à l’an 2000» – uma variante de «La France en 1950» – é ainda incluído no primeiro número da projectada revista Europa, em 1914.

Des Cas d’Exibitionnisme ensaia uma análise de matriz científica do exibicionismo, motivada pela notícia do sucesso da aparição de dançarinas pouco vestidas nos music-halls de Paris. Considerando estas manifestações teatrais perversas e decadentes, Seul adianta o papel civilizador que deveria distinguir a verdadeira arte. Os efeitos maléficos da arte são também o mote para a sátira Messieurs les Souteneurs: «Il faut bien que dans la société il y ait des excréments, mais il n’est pas nécessaire que l’on laisse à ces excrém[ents] le droit de parfumer tout. L’excrément, c’est la littérature qui aujourd’hui abonde». Considerando Portugal invadido por uma literatura kitsch, maioritariamente francesa, ataca-se aqui com violência contundente os autores desses romances massificados que desvirtuam a missão nobilitante que Pessoa atribuía à arte. La France en 1950 esboça o retrato do futuro da civilização ocidental, um terrível mundo às avessas, em que os horrores desse tempo a haver são desfiados num tom implacavelmente grotesco: «Dans cette satire», avisa o próprio texto,«il y a de la grossièreté énorme, très consciemment voulue». A França em 1950, como símbolo de toda a civilização ocidental do princípio do século, é a apoteose do efémero, em que o valor possível de tudo advém da assunção dessa efemeridade, e por isso o discurso do narrador constitui um irónico manual de instruções de mundanidade. Nestes fragmentos, traça-se um retrato de costumes, desenhando um quadro de imoralidade generalizada, em que em tudo se descortina a «pourriturre vivante», em que a luxúria e a doença dominam e em que proliferam escritores que corrompem a missão civilizadora da literatura.

A sátira sobre a França futura sobreviverá ao desaparecimento de Seul, constando ainda, já sem indicação de autor e com alterações de título, numa lista de projectos datável de 1914. Pessoa, já depois da saída de cena do autor francês (aliás, só «criado» depois de projectados os textos que viria a assinar), terá continuado a conceber este projecto, texto que lhe permitia criticar o mundo novo que via surgir e que era já o seu, onde tudo é moda e decadência.

As sátiras de Jean Seul constituem um exemplo interessante do uso deste género discursivo em Pessoa. A leitura destes textos possibilita um delineamento mais completo da juvenília pessoana e permite compreender algumas das linhas mestras que se manterão pela futura vida literária do autor: por um lado, é evidente a obsessão pela denúncia da decadência da sua contemporaneidade, o que aparece muitas vezes sob o signo da doença; por outro, a consciência da decadência da arte, consequência e causa dessa degenerescência social, desperta a necessidade de se ir esboçando uma poética cujos princípios apontassem para o cumprimento da alta missão civilizadora que Pessoa atribui e atribuirá à arte. Aqui, a condenação de formas artísticas menores e de temas como o sensualismo ou o erotismo conduz a uma reflexão sobre a relação entre arte e sociedade e entre arte e moral, preocupação que persiste na ensaística pessoana. Sob a fragmentariedade e a incompletude destes textos vive a mesma mundividência, a de Jean Seul, em que claramente se reconhecem características de Pessoa.

Os textos deJean Seul constituem tão só uma parte da abundante produção em francês de Pessoa. O escritor estudou francês, a par de latim, na África do Sul, e já em Lisboa, esteve inscrito na cadeira de Língua e literatura francesa (1905/1906; 1906/1907), durante a passagem pelo Curso Superior de Letras. O francês, que traduziu literariamente, foi ainda útil para Pessoa no seu trabalho como tradutor comercial. Em 1923, no n.º 7 da Contemporânea, surgem os poemas «Trois Chansons Mortes», os únicos em francês que publicou em vida. Postumamente foram encontrados e editados outros poemas em francês, muitos dos quais se encontram reunidos por Patrick Quillier, no volume Oeuvres poétiques (2001).

Teresa Rita Lopes, que já tinha dado relevo a produção em francês de Pessoa em livros anteriores, publicou em 1990 alguns excertos de Des Cas d’Exhibitionnisme e La France en 1950, no volume II de Pessoa por Conhecer. Até 2006, quando foram reunidas as Obras de Jean Seul de Méluret, no âmbito da Edição Crítica de Fernando Pessoa, permanecia desconhecida a terceira obra anunciada em The Transformation Book, or Book of Tasks: a sátira Messieurs les Souteneurs. Com a sua edição foi possível reunir pela primeira vez a prosa de Seul e tornar mais clara e visível uma das figuras do universo pessoano.

 

Rita Patrício

Jerónimo Pizarro