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Gnose

H. Leisegang é um dos primeiros eruditos modernos a oferecer uma definição do conceito, seus desenvolvimentos e cultores. A gnose é definida como “conhecimento da Realidade suprasensível, invisivelmente visível num eterno mistério, energia e força motriz de todas as formas de existência”. Num fragmento dos antigos gnósticos podemos ler que a gnose é “o conhecimento do que somos e daquilo em que nos tornámos; do lugar donde viemos e daquele em que caímos; do fim a que nos dirigimos e de que realidade somos resgatados; da natureza do nosso nascimento e da natureza do nosso re-nascimento” (Clemente de Alexandria). Noutro fragmento lê-se ainda: “o conhecimento do homem é o começo da perfeição; o conhecimento de Deus é a sua consumação” (Hipólito). Em 1966 a Conferência de Messina sobre as Origens do Gnosticismo estabeleceu a diferença entre a Gnose e o Gnosticismo. A Gnose foi definida como “conhecimento dos mistérios divinos, reservado aos iniciados”, sendo assim uma forma muito abrangente, onde cabem as múltiplas doutrinas esotéricas conhecidas; e Gnosticismo foi um termo reservado apenas às correntes gnóstico-cristãs dos séculos II e III da nossa era. É no ámbito do conceito mais geral de Gnose que devemos entender sistemas como o do Rosicrucismo ou da Teosofia, ou da Iniciação hermética ou maçónica. O conhecimento atinge-se por dupla via, pela Inteligência e pela Emoção, numa espécie de conjunção mística de opostos.

A abordagem ao pensamento de Pessoa é necessariamente complexa, por ser complexa e até contraditória a sua obra. Produto da cultura ocidental, assenta nos pilares da racionalidade grega e do misticismo bíblico e messiânico, algo a que ele mesmo se refere, dando como exemplo supremo o Padre António Vieira.   Entre uma e outra forma iremos encontrar a terceira via que é a Gnose (com múltiplas sub-divisões). Entende-se aqui por gnose o conhecimento íntimo de si mesmo e de Deus, obtido por súbita revelação. Na Antiguidade foram os gnósticos e filósofos herméticos que representaram esta tendência. Na Idade Média foram as várias seitas à margem da ortodoxia que atravessando o Iluminismo e o Renascimento conduziram, a partir dos séculos XVII- -XX a um conjunto de novas doutrinas sincréticas, como o Rosicrucismo (século XVII), a maçonaria (século XVIII), a Teosofia (séculos XIX e XX). O Modernismo sofrerá também as marcas desta evolução espiritualizante, de que Pessoa dá exemplo na multiplicação da sua obra heteronímica e artística.

Gnosticismo e filosofia hermética aproximam-se na Antiguidade pelo interesse na Gnose (Conhecimento) da natureza do homem e de Deus, por meio de uma revelção extática. Trata-se aqui de um Conhecimento de base religiosa e de uma experiência mística, vivida por um grupo de Iniciados (os Perfeitos). O evangelho de João (e nos nossos dias lidos os Apócrifos descobertos) dão testemunho de uma Verdade revelada e que só o iniciado pode alcançar. Esta noção já tinha sido elaborada por Platão e pelos neo-platonistas, seguidores de Plotino, autor que Pessoa também leu. “Na proporção em que Cristo é, não um deus ou um semi-deus judeu, mas o logos abstracto dos gnósticos, ponto intelectual por onde passa a emanação divina — o cristianismo é legítimo, porque é um complemento, um prolongamento, um aprofundamento do paganismo. Tanto é um prolongamento do paganismo que não entra em conflicto com ele. Pagãos eram os filósofos neo-platónicos da escola de Alexandria. Se os gnósticos são anti-pagãos é porque são já a absorção pelo cristianismo do neo-paganismo alexandrino; são, mais propriamente, o transcendentalismo contra o materialismo em que havia caído o paganismo decadente” (ms. s.d.). A poesia de Pessoa é ampliada à dimensão de um Eu, de um Universo e de um Deus cuja manifestação se adivinha, mas cuja realidade essencial sempre se desconhecerá.

Na secção 2, dedicada à Religião e Teologia, da Biblioteca de Pessoa encontramos uma extensa lista de obras que provam a sua curiosidade e conhecimento das matérias, ortodoxas e heterodoxas. No poema Além-Deus exprime-se a impossibilidade de conhecer, sendo a interrogação e a perplexidade perante o mistério do ser, as únicas vias abertas ao homem; feito o vazio na alma, e no pensamento, então de súbito Deus manifesta-se e pode ser encontrado: «

 

“Perde tudo o ser, ficar,

E do pensar se me some.

Fico sem poder ligar

Ser, ideia, alma de nome

A mim, à terra e aos céus…

E súbito encontro Deus.”

(Além-Deus, I)

 

A experiência do vazio e da revelação é uma experiência mística no pleno sentido do gnosticismo. Anulam-se o tempo e o espaço: “Passou, fora de Quando / De Porquê e de Passando […] Vasto por fora do Vasto / […] O Universo é o seu rosto … Deus é a sua sombra” (Além-Deus, II).

Anulados tempo e espaço, anulada a consciência de si, e de ser, cai-se no Abismo infinito — esse sim a única realidade a que se tem acesso. Pessoa vive a experiência de uma teologia negativa: conhecer pela ausência, pela negação, aceder à ideia de se por um não-ser absoluto, abismal, que não se recupera:

 

“Vácuo sem si-próprio, caos

De ser pensado como ser…

Escada absoluta sem degraus…

Visão que se não pode ver…

Além-Deus! Além-Deus! Negra calma…

Clarão de Desconhecido…

Tudo tem outro sentido, ó alma,

Mesmo o ter-um-sentido… (IV)

 

Nas Obras em Prosa, coligidas por Cleonice Berardinelli (ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1982) encontramos um texto sobre a Heresia da Gnose, que revela o pensamento do poeta sobre estas matérias:

“Assim, nós vimos que o cristianismo amalgamou elementos que a análise reduz a cinco, mas que, quanto à sua origem, são três: o monoteísmo judaico, o misticismo neoplatônico, e o paganismo da decadência romana… No conflito com o judaísmo, o mais rigidamente judaico cristismo refluiu para a origem, e perdeu-se. No conflito com o paganismo, este, quando não se integrou no cristianismo, morreu de todo. No conflito com o misticismo neoplatonico, outra cousa, porém, aconteceu. Esse misticismo produziu, entrando em conflito antessincrético com o cristismo, a heresia célebre da Gnose. Esta heresia não desapareceu nunca. Opressa, esmagada exteriormente, essa seita de ocultismo tornou-se secreta, desapareceu da evidência histórica, mas não da vida. Não é impossível encontrar, aqui e ali evidência da sua permanência secreta. E essa permanência oferece aspectos de  conflito com o cristismo oficial e sobretudo com o católico. A par do cristismo oficial, com os seus vários misticismos e ascetismos e as suas magias várias, nós notamos, episodicamente vindo à superfície, uma corrente que data sem dúvida da Gnose (isto é, da junção da Cabala judaica com o neoplatonismo) e que ora nos parece com o aspecto dos cavaleiros de Malta, ou dos Templários, ora desaparecendo, nos torna a surgir nos Rosa-Cruz para, finalmente, surgir à plena superfície na Maçonaria. Os maçons são os descendentes remotos, mas segundo uma tradição nunca quebrada, dos esotéricos spíritos que compunham a Gnose. As fórmulas e os ritos maçónicos são nitidamente judaicos; o substrato oculto desses ritos é nitidamente gnóstico. A Maçonaria derivou de um ramo dos Rosa-Cruz.

Pareceria absurdo citar esta subcorrente cristista, se a importância dela na história não fosse, apesar de ser oculta, enorme. Ela agiu fortemente na Renascensa e na Reforma; a sua ingerência na Revolução Francesa é assinalada. A natureza do assunto preclui, claro é, que se haja feito um studo certo dele; mas o que sai pelos interstícios da história não deixa dúvidas a este respeito. A moderna revivescência dos sistemas ocultistas, notável sobretudo pela importação, nos países de língua inglesa, do chamado budismo esotérico, atroz amálgama de superstições de selvagens, de humanitarismo decadente e de gnosticismo atrapalhado, trouxe outra vez à superfície o que pela Europa havia de restos da tradição oculta da Gnose” (p. 192).

A data atribuída a este texto é 1917. Mas por ele se vê o diálogo, poético e filosófico, que Pessoa estabeleceu com estas e outras matérias semelhantes.

 

 

Bibl.: MEAD, G.R.S., Quests Old and New, London, 1913; Bibliographies of Gnostic Works, U.S.A., s.d.

 

 

Yvette Centeno