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Giacomo Leopardi

(1798 – 1837)

Filho duma família nobre do Estado Pontifício, Leopardi dedicou a maior parte da sua vida aos estudos filosóficos e literários. Os seus escritos difundem-se na Europa, no início do século XX, com as teorias críticas de Benedetto Croce, que apresentavam o pessimismo de Leopardi como expressão directa da sua condição pessoal. Ele é considerado o “poeta da dor”, o homem corcunda cujo ódio à natureza é uma consequência natural da sua deformidade, que só conhece a vida através dos livros e do seu perpétuo olhar pela janela. A obra leopardiana chega a Portugal através de traduções francesas, e é através dum texto francês que, na segunda metade dos anos ’20, Pessoa entra em contacto com a obra do poeta italiano.

O livro de Leopardi presente na biblioteca de Fernando Pessoa (Giacomo Léopardi, Poésiecomplète, ed. francesa de Victor Orban. Notice biographique et bibliographique par Alphonse Séché, Louis Michaud Editeur, Paris [1--?]) insere-se neste contexto crítico, de facto a introdução evidencia as doenças e os defeitos físicos de Leopardi, apresentando-os como factor constitutivo da poética dele. Pessoa repercorre estes aspectos na Carta da corcunda para um serralheiro (Fernando Pessoa, Pessoa por conhecer vol.II, org. de Teresa Rita Lopes, Estampa, Lisboa 1990, p. 257). Maria José, a personalidade literária que Pessoa cria como sendo autora da carta, retoma a imagem do homem corcunda, que sofre de tuberculose e que passa a vida a ler e a olhar à janela. Tal como aquele, esta apaixona-se por uma pessoa que nunca chegou a conhecer e que só viu trabalhar através dos vidros da janela.

Na carta de Maria José, o nome de Leopardi nunca vem directamente citado. O nome do poeta de Recanati aparece pela primeira vez nos escritos pessoanos na segunda metade dos anos ‘20, em alguns fragmentos críticos (Fernando Pessoa, Barão de Teive, A educação do estóico, org. de Richard Zenith, Assírio & Alvim, Lisbona 1999, pp. 65-74) nos quais Leopardi é citado, juntamente com Antero de Quental e Vigny, poeta símbolo do pessimismo. Pessoa atribui a Leopardi e aos outros dois poetas a atitude romântica de serem incapazes de conceber a realidade como algo situado fora deles próprios, atribuindo essa atitude, no caso de Leopardi, à falta de relacionamento com o sexo oposto. Leopardi aparece pela última vez num poema que lhe é inteiramente dedicado: Canto a Leopardi (Fernando Pessoa, Obras de Fernando Pessoa vol. I, org. de António Quadros, Lello & Irmão, Porto 1984, p. 406).

Mas além da ironia e dos aspectos biográficos, a presença leopardiana em Pessoa é bem sintetizada no semi-heterónimo Barão de Teive que, tal como Bernardo Soares, encara muitas facetas do próprio Pessoa. O Barão encara os aspectos mais intelectuais de Leopardi, mais especificamente retoma a atitude estóica que o poeta italiano adopta nos últimos anos da sua vida. O fidalgo criado por Pessoa pertence à aristocracia, tal como Leopardi (que era conde), e tal como ele encara a nobreza como um elemento de distinção em relação ao homem comum, que o Barão observa pela janela e que desperta nele pensamentos mais altos, recalcando a estrutura da maior parte dos Canti de Leopardi.

O alívio existencial de olhar à janela, enfatizado em Maria José e no Barão, é uma constante de toda a obra de Pessoa: desde a janela em Rua dos Douradores de Bernado Soares àquela dos poemas de Álvaro de Campos; tal como em Leopardi, a janela é o elemento de separação/ligação com o mundo exterior e o mundo interior, confim entre realidade e fingimento, instrumento necessário à poesia.

Leopardi deixou em Pessoa uma marca importante, visto que Pessoa encontra em Leopardi um poeta inesperadamente parecido com ele, mais uma voz daquele desassossego romântico que Pessoa modernizou. Contudo, Pessoa assusta-se e exorciza os seus medos criando outros que possam sofrer em seu lugar.

 

 

Paolo Russo, Pessoa e Leopardi, duas almas à janela, in Mealibra, n°19, Viana do Castelo 2006, pp. 13 – 18.

Mariagraza Russo, Um só dorido coração, Settecittà, Viterbo 2003.

 

 

Paolo Russo