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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Friedrich Nietzsche

(1844-1900)

As referências directas de Fernando Pessoa ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche são bastante esporádicas e em geral muito pouco simpáticas. Assim, nos textos do heterónimo António Mora encontramos a figura de Nietzsche como um pregador da “crueldade contra si-proprio”, caracterizado pela “vontade de excedencia”. Ele aparece como um débil missionário da “Violencia e da Deshumanidade”, e o destino escreveu com claríssima letra quando lhe deu “a loucura por fim de vida e a incoherencia constante por modo de se exprimir.” (F. Pessoa, Obras de António Mora, INCM, Lisboa 2002, p. 217). Referindo-se aos movimentos modernos no sentido do paganismo, Ricardo Reis raciocina da maneira seguinte: “Em Nietzsche, em que mais parecia que se devesse falar, é melhor que não falemos, tão repelentemente cristã se contorce aquela débil e doentia mentalidade.” Para Reis, Nietzsche enganou-se na sua famosa interpretação de Dionísio e de Apolo, e as suas teorias eram desumanas e excessivas “tal como as cristãs” (F. Pessoa, Ricardo Reis – Prosa, Assírio&Alvim, Lisboa 2003, p. 94 e 81). Nos Escritos sobre Génio e Loucura podemosler que “Nietzsche era doido. Como Christo.” E pensando sob uma forma poética sem ser poeta, Nietzsche faz parte dos “mais degenerados” (F. Pessoa, Escritos sobre Génio e Loucura, INCM, Lisboa 2006,p. 130 e 307). Estas considerações podiam conduzir à ideia de que Pessoa nunca desenvolveu uma grande afeição por este filósofo alemão que tentou transformar todos os valores dos últimos 2000 anos. Porém, numa comparação global das suas obras, Fernando Pessoa revela um pensamento filosófico, estético, político e também sociológico muito mais nietzscheano do que ele próprio pensava e nos fez acreditar.

Para reconstruir o verdadeiro lugar de Nietzsche na obra de Pessoa, devíamos, em primeiro, saber de onde Pessoa tirou o seu conhecimento de Nietzsche. Olhando para as fontes mais seguras, podemos apenas confirmar que Pessoa teve relativamente poucos confrontos directos com as obras de Nietzsche. Georg Rudolf Lind afirmou que Pessoa leu “com toda a certeza” o Zaratustra e o Nascimento da Tragédia mostrando que a ideia do “eterno retorno” reaparece no soneto nº 20 dos 35 Sonnetos Ingleses e através da afirmação de Ricardo Reis que diz “Aquele Diónisos que (Nietzsche) contrapõe a Apollo, nada tem com a Grécia. É um Baco alemão.” (F. Pessoa, Ricardo Reis – Prosa, Assírio&Alvim, Lisboa 2003, p. 81). E de facto, não há dúvidas de que Pessoa, como jovem estudante, conheceu Assim falava Zaratustra numa tradução espanhola, e foi muito provavelmente leitor do Nascimento da Tragédia,o que se verifica também na sua introdução ao livro Canções de António Botto. O excerto “(…) o heleno, sentindo que a vida é imperfeita, busca aperfeiçoá-la em si próprio, (…); foi este conceito da vida o que criou a tragédia (…)” soa quase como uma tradução de uma passagem do Nascimento da Tragédia, e uma citação directa do Zaratustra (“A alegria quer eternidade, quer profunda eternidade.”) encontra-se curiosamente num outro ensaio sobre Botto (F. Pessoa, Crítica, Assírio&Alvim, Lisboa 2000, p. 178 e 183). Finalmente, evocando as referências de Pessoa à “transformação dos valores” podíamos dizer que ele foi ainda um leitor do livro Além do Bem e Mal embora cada confirmação neste sentido não deixe de ser uma mera especulação. Todavia, bastante atraente seria uma profunda reedificação da leitura secundária de Pessoa sobre Nietzsche. Neste caso podemos afirmar que Pessoa tomou conta de várias interpretações que oscilaram entre uma recepção bastante positiva e entre uma interpretação extremamente negativa. Sabemos seguramente que Pessoa conhecia Nietzsche através dos franceses Jules de Gaultier (De Kant à Nietzsche 1900) e Eugène de Roberty (Frédéric Nietzsche: Contribution à l’historie des idées philosophiques et sociales à la fin du XIXe siècle 1903), do inglês Alfred W. Benn (Revaluations 1909) e sobretudo do húngaro (alemão) Max Nordau (Dégénérescence 1894). Pelo menos no lado francês há uma imagem positiva de Nietzsche tendo em conta que Gaultier considerou a sua obra como “genial” marcada por uma precisão que actua como um “raio luminoso”. O ponto de vista de Eugène de Roberty é sobretudo sociológico, confessando abertamente a sua admiração por Nietzsche como uma força de saúde (assainisseur), embora Roberty tenha nele reconhecido uma falha que consiste numa interpretação errada da relação entre indivíduo e sociedade. A interpretação de Alfred W. Benn já é menos favorável, reconhecendo em Nietzsche uma “figura demónica e trágica”. E, não menos importante, temos ainda a opinião de Max Nordau cuja obra Dégénérescence teve uma enorme influência para Pessoa, especialmente na sua “terceira adolescência”. Em Nordau, a imagem de Nietzsche é simplesmente desastrosa, isto é, ele representa não menos do que a quintessência da degeneração intelectual e moral, e um leitor atento pode ouvir na obra nietzscheana da primeira até à última página os gritos de um louco com olhos relampejantes, com gesticulações selvagens e com uma boca salivante.

Embora a mera observação das leituras, dos comentários e das influências pudesse transmitir a ideia de que Pessoa rejeitou quase por completo a obra de Nietzsche, após um estudo comparativo chegamos a um resultado completamente diferente. Alguns textos de Pessoa aparecerão como uma rectificação criativa de Nietzsche, e o seu “drama em gente” muitas vezes como uma certa reincarnação de algumas ideias nietzscheanas. Assim encontramos em Nietzsche algumas reflexões que podíamos usar facilmente como uma introdução teórica à heteronímia: “Talvez a suposição de um Sujeito Uno não seja obrigatória; talvez seja também permitido aceitar uma pluralidade de sujeitos cujo conjunto e luta estão na base do nosso pensamento ou em geral da nossa consciência? (…) As minhas hipóteses. O sujeito enquanto pluralidade.” (Friedrich Nietzsche, Der Wille zur Macht, Körner, Stuttgart 1964, p. 341). Apenas alguns anos depois de Nietzsche, Pessoa declarou esta pluralidade como um imperativo “Sê plural como o universo!”, isto é, ele viveu-a „Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.” (F. Pessoa, Obra em Prosa, Nova Aguilar, Rio de Janeiro 1990, p. 81). Estas considerações não são apenas semelhantes mas quase idênticas, e revelam que existe entre Nietzsche e Pessoa um forte laço de parentesco. E para além da defesa da pluralidade, o parentesco entre os dois é sobretudo notório através dos seus retornos entusiásticos aos gregos antigos e, consequentemente, através de violentos e ardentes ataques contra o cristianismo. Os dois pensadores não só testemunham o declínio da função orientadora do cristianismo, como também utilizam as suas obras para expressarem um ardor bélico contra os valores cristãos.

Em primeiro lugar, Nietzsche e Pessoa encararam o cristianismo como uma religião niilista, ou pelo menos como uma negação de todos os valores humanos. Para Nietzsche, esta forma de niilismo religioso começa com uma rebelião dos escravos no seio da moral” (F. Nietzsche, Jenseits von Gut und Böse 195, W. de Gruyter, München 1988, p. 117), e o cristianismo revela-se cada vez mais como uma religião da recusa, da compaixão com o sofrimento do outro e da solidariedade passiva entre os fracos. Com a incapacidade da criação de valores próprios e activos, o cristianismo degenera numa existência com a missão moralizante de orientar o rebanho dos fracos e degenerados. Esta reflexão, que também é conhecida através da famosa psicologia do ressentiment, aparece quase de uma forma idêntica no heterónimo Ricardo Reis afirmando que a moral cristã é “uma moral de renúncia e de desapego” ou “uma moral da fraqueza e da incompetência” (F. Pessoa, Ricardo Reis – Prosa, Assírio&Alvim, Lisboa 2003, p. 88 e 90). Para Nietzsche, bem como para Pessoa (Reis), habita dentro desta incapacidade de criar activamente valores próprios um niilismo latente que o cristão tende a esconder ou a narcotizar: “Podia-se chamar ao cristianismo um grande tesouro cheio de consolações muito sofisticadas.” Ou por outras palavras, a religião cristã é para Nietzsche uma “criação de rebanhos [que] é um passo importante e uma vitória na luta contra a depressão.” (F. Nietzsche, Genealogie der Moral, W. de Gruyter, München 1988, p. 377 e 383). Também no heterónimo António Mora, o cristianismo é pensado como uma religião niilista que considera o mundo imperfeito, tentando aguentar essa imperfeição com promessas de um Além ou com outras narcotizações: “Foi o Christianismo que trouxe à civilização occidental a necessidade de substituir o universo. Não seremos injustos se dissermos que o Christianismo foi na civilização europeia a primeira forma conhecida do opio ou da cocaína.” (F. Pessoa, Obras de António Mora, INCM, Lisboa 2002, p. 191). Em torno desta atitude negativa, Ricardo Reis esboçou uma ideia semelhante. O traço niilista do cristianismo revela-se para Reis no repúdio da vida, enquanto existência real no mundo, e encontra-se claramente formulado na sequência seguinte: “A mentalidade cristã, constitucionalmente acostumada a encarar esta vida como prelúdio de outra e subordinada a ela, tanto como importância, como no que acção, criou, deixando-a herdada, na massa do sangue, a gerações já descrentes nela, uma atitude de sensibilidade que se pode definir como um desprezo da vida no que exclusivamente vida. O cristão despreza a vida propriamente tal.” (F. Pessoa, Ricardo Reis – Prosa, Assírio&Alvim, Lisboa 2003, p. 96-97). Doença, decadência, escravos, fracos, súbditos é uma terminologia comum a Nietzsche e a Pessoa (Reis e Mora) quando se referem à era do cristianismo. Os dois chegaram, partindo de caminhos diferentes, ao mesmo lugar onde se verifica a “morte de Deus” ao qual Pessoa se referiu na sua típica ironia sarcástica: “Há séculos que Deus morreu; mas tem levado tanto tempo a fazer-lhe o caixão que já infesta o ar do seu apodrecimento.” (F. Pessoa, Aforismos e Afins, Assírio&Alvim, Lisboa 2003, p. 68).

Ao testemunharem a “morte de Deus” nasce para eles um outro problema. Num universo sem Deus tudo perde o seu valor e a sua importância, e o mundo pode surgir como um lugar absurdo e grotesco. Neste sentido, a repetida referência a Pascal que falou do vazio de um mundo sem Deus, ou seja do “silêncio eterno dos espaços infinitos”, é também comum em Nietzsche e Pessoa. Todavia, Nietzsche e Pessoa nunca regressaram como pecadores arrependidos ao seio do cristianismo. Pelo contrário, eles têm de encontrar uma vida possível face à “impossibilidade de ser cristão” e desenvolvem, como alternativas, uma certa concepção pagã de um “regresso dos deuses” ou de um “Super-Homem”. Mas nem o alemão nem o português pensaram seriamente numa verdadeira reconstrução dos antigos templos pagãos. A famosa concepção nietzscheana entre Apolo e Dioniso foi sempre mais uma base fundamental de um pensamento filosófico bastante notável do que uma autêntica adoração a estes dois deuses. Sendo especialmente Dioniso um deus estét ico, o seu discípulo afirma positivamente a existência do mundo, sem altares de sacrifícios sangrentos. Neste sentido, Nietzsche desejou que o homem europeu recordasse as suas origens na Grécia antiga, ao contrário do cristianismo que chegou do Oriente. Quase o mesmo aconteceu com Fernando Pessoa. Embora Ricardo Reis e António Mora tenham declarado que são verdadeiros crentes nos deuses, o paganismo não ultrapassa em Pessoa um fenómeno estético. Pessoa desenvolve, neste sentido, uma concepção filosófica bastante complicada que tem o seu ponto culminante em algumas afirmações inesperadas: “Sensationism stands for the aesthetic attitude in all its pagan splendour.” ou “(…) paganism is the sensationist religion.” (F. Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Ática, Lisboa s.d., p. 208 e 340). Pessoa atingiu com o sensacionismo a “essência subjectiva” e “o sentido interior do polyteismo” (F. Pessoa, Fernando Pessoa e o Ideal Neo-Pagão, Acarte, Lisboa 1996, p. 7), e, de facto, Álvaro de Campos já parece ter “interiorizado o paganismo” pelo menos no seu poema Passagem das Horas que pode ser entendido como manifesto do sensacionismo: “Sentir tudo de todas as maneiras, / Viver tudo de todos os lados, / (…) / Multipliquei-me para me sentir, / Para me sentir, precisei sentir tudo / (…) / E há em cada canto da minha alma um altar a um deus differente.” (F. Pessoa, Álvaro de Campos – Livro de Versos, Estampa, Lisboa 1997, pp. 165ss).

Por outro lado, também podemos verificar que o conceito pessoano do “Super-Homem”, desenvolvido no Ultimato de Álvaro de Campos, é ao mesmo tempo nietzscheano e anti-nietzscheano. Em primeiro, tanto para Nietzsche como para Pessoa, o “Super-Homem” é uma figura que pode viver sem a orientação de um deus singular, ou seja dentro de uma multidão de mundividências. Por outro lado, enquanto o “Super-Homem” de Nietzsche recusa todas as orientações exteriores, confiando apenas nas suas próprias criações de sentido, o “Super-Homem” em Pessoa (Campos) vive todas as mundividências, tendo ao mesmo tempo várias crenças religiosas, diferentes convicções políticas ou divergentes guias estéticos. Neste sentido encontramos em Pessoa, mais uma vez, uma das suas típicas rejeições irónicas de Nietzsche: “O conceito de superhomem de Nietzsche é um conceito pagão (…). Mas compare-se o anti-intelectualismo d’elle.” (F. Pessoa, Obras de António Mora, INCM, Lisboa 2002, p. 273).

Mas seja como for, é óbvio que o filósofo alemão e o poeta português tiveram posturas diferentes. Porém, Fernando Pessoa revela em várias ocasiões um pensamento filosófico e estético muito mais nietzscheano do que ele próprio pensava e fez acreditar. Em caminhos diferentes, com origens distintas e chegando a conclusões muitas vezes quase idênticas, Friedrich Nietzsche e Fernando Pessoa alcançaram hoje em dia o seu lugar seguro dentro da literatura mundial como atentos interpretadores da sua época e como grandes defensores das pluralidades da vida.   

 

 

BIBLI.: Dix, S., “Pessoa e Nietzsche: deuses gregos, pluralidade moderna e pensamento europeu no principio do século XX”, in: Clio V.II, Lisboa 2004. Sena, J. de, “«O Poeta é um Fingidor» (Nietzsche, Pessoa e outras coisas mais)”, in: Fernando Pessoa & C.ª Heterónima (Estudos coligidos 1940-1978), Lisboa 1999. Lind, G.R., “Nietzsche em Pessoa”, in: Encontro Internacional do Centenário de Fernando Pessoa, Lisboa 1990. Lourenço, E., “Pessoa e Nietzsche”, in: Marques A. (org.), Nietzsche: Cem Anos após o Projecto “Vontade de Poder – Transmutação de Todos os Valores”, Lisboa s.d.        

 

 

Steffen Dix