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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Francisco Cabral Metello

Amigo comum de António Botto e Fernando Pessoa, dos tempos da revista Contemporanea. Duas conhecidas cartas de Pessoa para Metello,  de 31 de Agosto e 23 de Outubro de 1923, revelam familiaridade (Metello é tratado por «Meu querido Chico») e dão conta de um convite de Cabral Metello para que Pessoa passe alguns dias na casa da sua família, no Minho. Pessoa acaba por recusar, afirmando: «Pode ser, realmente, que Lisboa esteja insuportável. Eu não sei. Para mim é Europa em toda a parte, e não Lisboa ou qualquer simples local. É uma questão de estado mental sem necessidade de estado social. Mas compreendo que insuportável isto deve ser para quem quer manter relações de convivência com o que o cerca» (Correspondência, II, p. 21). O jovem Cabral Metello é, de facto, um frequentador assíduo dos círculos sociais da capital. A sua novela Sachá retrata mesmo a alta sociedade lisboeta, decadente, homossexual e cocainómana, através de personagens que alguns terão identificado com pessoas das suas relações. Esta «novela-filme» foi objecto de uma crítica de Fernando Pessoa, em forma de carta aberta, publicada na Contemporanea, nº 8, Fevereiro de 1923. Considerando a obra literariamente pouco notável, Pessoa diz que o autor «escreveu sem pensar que escrevia, escreveu pensando só em si», incapaz de se distanciar da sua própria personalidade, «fútil, feminil, escandalosamente europeia, complicadamente social». Fazendo ressaltar o contraste entre o seu próprio espírito especulativo e desgracioso e a «futilidade triunfal» de Cabral Metello, acaba por nos dar uma das suas raras e públicas auto-análises. Colaborador da Contemporanea, Metelo é ainda autor de Entrevistas (1923), com um posfácio de Fernando Pessoa que mais parece a continuação da carta anterior: «O autor deste livro é dos que não sabem que as bocetas existem para abrir-se. (...) Viveu por fora o que, afinal, não vale a pena ser vivido por dentro. E escreveu como viveu, porque sentir é não abrir bocetas».

 

 

Manuela Parreira da Silva