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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Fradique

A 8 de Fevereiro de 1934, começou a publicar-se, em Lisboa, este semanário que se prolongou, durante dois anos, por 99 números. Foi dirigido por Tomás Ribeiro Colaço, que se afirmava “monárquico e conservador” (nº 18), e editado por Manuel Caiola.

No domínio da política, manifestou empatia relativamente ao Estado Novo, que vira, pouco antes, aprovada a Constituição de 1933, criticou Hitler, fez a apologia de Mussolini e condenou a Sociedade das Nações.

Privilegiou a polémica num período em que a censura intervinha com celeridade, cerceando os apologistas da heterodoxia. Neste contexto, dialogou criticamente ou entrou em inconciliável colisão com periódicos de todos os quadrantes: O Gládio, O Diabo, A Verdade, Diário de Notícias, Revolução Nacional, Momento, Bandarra e Presença. Outras polémicas tiveram como intervenientes Alfredo Pimenta, João Paulo Freire, Joaquim Paço d’Arcos e, como assinalaremos, alguns escritores modernistas. Nas suas páginas reacendeu-se – uma década depois do seu início – um importante diferendo, sobre a natureza do sebastianismo, que opôs António Sérgio a Carlos Malheiro Dias.

O Fradique divulgou a realidade colonial (coordenação de Henrique Galvão), fez incursões de âmbito filológico (T. R. Colaço, Fidelino de Figueiredo, Serras Pereira), denunciando designadamente a forma incorrecta como se escrevia a nossa língua, equacionou o desporto, apresentou uma página juvenil, entrevistou personalidades de vulto (Egas Moniz, Afonso Lopes Vieira), arquivou documentos inéditos relevantes (cartas do Padre António Vieira, D. João V, Mouzinho de Albuquerque e de Camilo Castelo Branco), perfilou-se a favor da pena de morte, dissecou o “Caso Angola e Metrópole”, exerceu crítica musical, teatral, literária, cinematográfica e apresentou caricaturas de, entre outros, Amarelhe, Jorge Colaço e Emmérico Nunes.

O Fradique apresenta colaboração de alguns autores modernistas: Almada Negreiros subscreveu a nota de abertura; Adolfo Casais Monteiro retorquiu a uma crítica às Cartas Inéditas de António Nobre feita por Tomás Ribeiro Colaço (nº 87); José Régio saiu em defesa da sua obra, bem como das subscritas por António Botto, António Pedro e Fernando Pessoa. Deste escritor foi publicado “O Homem de Porlock” (nº 2), uma condenação do estrito racionalismo na avaliação da obra literária, sendo enfatizado o papel do onírico – “fragmentos do que não sabemos que seja; mas que seria, se houvesse sido, a mesma expressão da nossa alma.” Ainda de Fernando Pessoa foi divulgada uma carta inédita (nº 97), redigida a 10 de Outubro de 1935, ou seja, um mês antes do seu falecimento, dirigida ao director deste periódico. Nela lamenta o “já longo corte de relações entre mim e a mais elementar decência social”, do qual decorria a sua incapacidade de publicar e o consequente não cumprimento da promessa de envio de colaboração: “desde o ano passado, tenho estado sob o influxo de estados nervosos de diversas formas e feitios, que por um longo período me arrancaram da vontade até o desejo de não fazer nada.” O poeta deplora ainda o facto de Colaço não ter compreendido o seu artigo “As Sociedades Secretas”. Recordemos que este escritor – que fizera uma crítica elogiosa a Mensagem – avaliou, de forma severa (nº 54), o mencionado texto: “Li a estirada página em que Você traçou, no Diário de Lisboa, de 4 do corrente [Fevereiro de 1935] um dos seus costumados pregões de competência própria e uma defesa apaixonada da Maçonaria. Página triste, errada, ela foi enlutar o sector mental para quem o nome de Fernando Pessoa representava, não sem base, bandeira de primeiro plano. Porque é impossível que não repudie este desvairado rumo do seu pensamento quem nele não encontra sequer a fulguração de inteligência que foi sua em outras horas.”

António Pedro publicou textos de índole diversa bem como uma “Feuille Internationale d’Art Moderne paraissant toutes les quinzaines” (nº 98), com colaboração inédita de Hans Arp – o poema “Histoire Arabesque” –, de Camille Bryen e de Fernand Marc, na qual valoriza a liberdade de criação e o desiderato de nela coexistirem todas as correntes estéticas.

Tal como fizera Fernando Pessoa na Contemporânea (nº 3), José Régio advogou o inequívoco esteticismo da obra de António Botto, em oposição a Tomás Ribeiro Colaço, que o considerava “um poeta pouco menos que nulo”. O director da Presença regressou, mais tarde, ao jornal, desta vez para se defender da acusação de imoralidade, feita por Telmo Felgueiras, do seu romance O Jogo da Cabra Cega (nº 44). 

 

 

Bibliografia: GUIMARÃES, Fernando – A Poesia da Presença e o Aparecimento do Neo-Realismo. Porto: Editorial Inova, 1969; PIRES, Daniel – Dicionário da Imprensa Periódica Literária do Século XX. Vol. I – 1900 - 1940. Lisboa: Grifo Editores, 1996; RÉGIO, José – “Semanários Literários” e “Ainda os Semanários Literários” in Presença (Coimbra), nº 46 e 47, Out. e Nov. 1935.

 

 

Daniel Pires