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Ficções do Interlúdio

A existência dos heterónimos é menos real que as coisas, mas mais real que os sonhos. Caeiro consegue ter uma influência decisiva sobre os outros heterónimos, mas também sobre o próprio Pessoa. Assim, podemos dizer, segundo Pessoa, que Caeiro existe. Onde? Ele, como os outros, existem nesse «interlúdio» ou intervalo entre os mundos vivido e sonhado. Como se lê num esboço de uma carta para Gaspar Simões, ao descrever a escrita dos textos heterónimos: «lembrei-me depois que o entusiasmo do discípulo e a grandeza, ali expressa, do mestre, se tinham passado exclusivamente em mim, que eram ficções do interlúdio, áleas da confusão e do descaminho» (Correspondência I, 81).

Entretanto, esse mundo entre-os-mundos pode não estar definido, e ser, como em Bernardo Soares, um mundo-sonho pós-simbolista: «Talvez porque eu pense de mais ou sonhe de mais, o certo é que não distingo entre a realidade que existe e o sonho, que é a realidade que não existe. E assim intercalo nas minhas meditações do céu e da terra coisas que não brilham de sol ou se pisam com pés - maravilhas fluidas da imaginação» (Livro do Desassossego, 341). Mas que de outras vezes se definem, até usando a expressão exacta: «Ficções do interlúdio, cobrindo coloridamente o marasmo e a desídia da nossa íntima descrença» (Livro do Desassossego II, 125). O título Ficções do Interlúdio, de resto, existe nos anos 10 para diferentes tipos de texto poético na órbita do Paulismo, aparecendo, por exemplo, a integrar o conjunto Itinerário, ou a integrar o conjunto Episódios, publicado no Portugal Futurista.

O mesmo título foi pensado por Pessoa, no princípio dos anos 30, para uma publicação conjunta de vários livros. Por exemplo: «Ficções do Interlúdio // 1. O Banqueiro Anarquista. / 2. Poemas Completos de Alberto Caeiro (1889-1915). / 3. Manuscrito de um Sibarita» (Pessoa por Conhecer, 388). Mas, sobretudo, é numa carta a Gaspar Simões, em 1932, que Pessoa apresenta o seu nunca concluído projecto de publicação dos três heterónimos: «Formarão uma série intitulada Ficções do Interlúdio, ou outra coisa qualquer que de melhor me ocorra» (Correspondência II, 270).

O certo é que chegou a escrever alguns fragmentos de um prefácio para essa publicação. Por exemplo: «O traço constante de uma vida dispersa – a solidão que me acompanha sempre por mim e por isso me define e sempre definiu. // De todas as formas com que se o homem entretém em viver, nenhuma deveras me foi dada. Tenho passado pela vida como um espectro da minha vida, feito d'outra matéria que em [?] nós há [?] e pensando com o meu espírito, irmão gémeo da negação de mim mesmo» (Pessoa por Conhecer, 114). Mas há outros exemplos, como este fragmento em que explica que há dois graus para o «desdobramento de personalidade», e que só ao segundo grau caberia o título de Ficções do Interlúdio: «Nestes desdobramentos de personalidade ou, antes, invenções de personalidades diferentes, há dois graus ou tipos, que estarão revelados ao leitor, se os seguiu, por características distintas. No primeiro grau, a personalidade distingue-se por ideias e sentimentos próprios, distintos dos meus, assim como, em mais baixo nível desse grau, se distingue por ideias, postas em raciocínio ou argumento, que não são minhas, ou, se o são, o não conheço. O Banqueiro Anarquista é um exemplo deste grau inferior; o Livro do Desassossego e a personagem Bernardo Soares são o grau superior. […] Nos autores das Ficções do Interlúdio não são só as ideias e os sentimentos que se distinguem dos meus: a mesma técnica da composicão, o mesmo estilo, é diferente do meu. Aí cada personagem é criada integralmente diferente, e não apenas diferentemente pensada. Por isso nas Ficções do Interlúdio predomina o verso. Em prosa é mais difícil de se outrar» (Páginas Íntimas, 105-106). Ou, ainda, um fragmento intitulado, em que Caeiro é definido como um libertador para os heterónimos e o ortónimo (Páginas Íntimas, 109-110).

Este «interlúdio» é, em suma, o nome dado por Pessoa ao mundo onde os heterónimos são gente. Esta noção desloca a tónica colocada no «mundo interior», que tinha sido a tradição romântica acentuada pela visão de Baudelaire do mundo como um texto feito de símbolos. A introjecção do mundo provoca em Sá-Carneiro, ou Guisado, ou, diferentemente, em Pascoaes, uma situação de deriva num labirinto sem saída, ou num jogo de sombras que só pela força do espírito visionário ganha um sentido. Em suma, esse «interlúdio» em que se passam as ficções heterónimas não é um espaço interior, mas, antes, um espaço nem interior nem exterior, um espaço entre.

 

 

Bibl.: GIL, José, O Espaço Interior, Lisboa, Presença, 1994

 

 

Fernando Cabral Martins