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Fausto

FAUSTO

 

Desde 1908 até 1933, Fernando Pessoa foi acumulando poemas e esboços de poemas, fragmentos, notas e planos para um ou mais poemas dramáticos em torno da figura de Fausto. Entretanto, um outro projecto de escrita irá também crescendo por fragmentos, neste caso desde 1912 até pelo menos 1934. Ambos os projectos ficarão inacabados e inacabáveis, textos fragmentários, livros que não chegaram a ser ordenados para publicação pelo seu autor e que só existirão como tal, como livros editados, graças à mão de outros e a um trabalho de selecção, montagem e ordenação dos seus editores. É provável que o Livro do Desassossego tenha vindo a tornar-se um projecto mais importante para o seu autor do que o projecto do livro sobre Fausto. Em carta de 28 de Julho de 1932, a João Gaspar Simões, referindo-se ao Livro do Desassossego, Pessoa admitia que o trabalho que o esperava - «muita coisa que equilibrar e rever» - não lhe permitia calcular decentemente que lhe levasse menos de um ano. São poucos os fragmentos para o(s) poema(s) sobre o Fausto datados pelo seu autor, não dispomos de dados cronológicos sficientemente seguros para determinarmos os efeitos ou os impactos da eclosão heteronímica em 1914 sobre este projecto, mas o que podemos admitir é que embora ela lhe possa ter trazido deslocações, o projecto manter-se-á  longamente, mesmo se de forma intermitente.

Em 1952, Eduardo Freitas da Costa publica na Ática, com o título Primeiro Fausto, uma primeira edição de alguns extractos dos originais existentes no espólio de Fernando Pessoa. A edição é muito lacunar, por via da selecção dos fragmentos a editar e de algumas transcrições amputarem sem explicação os originais disponíveis. Para além disso, embora inclua alguns fragmentos em diálogo, a edição desiste de sugerir a dimensão dramática que Pessoa pretendia e organiza os fragmentos segundo quatro pólos temáticos: I - «O mistério do Mundo»; II - «O Horror de Conhecer»; III - «A Falência do Prazer e do Amor»; IV - «O Temor da morte»; a que acrescenta «Dois Diálogos». Teresa Sobral Cunha, responsável pelo estabelecimento e ordenação do texto da edição Fausto, Tragédia Subjectiva (Fragmentos), dá conta das limitações dessa 1.ª edição e do aparecimento de uma outra tentativa editoral, escrevendo na “Nota” à sua edição: “Esse acervo maior, que na edição da Ática fora reduzido aos extractos de 90 originais e no espólio se totaliza em 227 documentos variamente dimensionados, conheceria, em 1986 uma primeira exumação a que procedeu Duílio Colombini [no Brasil]” (XVII).

A edição de Teresa Sobral Cunha é até hoje aquela que mais intensa e meticulosamente tenta não só restituir mas ordenar o texto em busca da forma dramática que Pessoa teria imaginado. Entretanto, a autora desta edição tem clara consciência das características do texto que edita e da sua eventual diferença em relação a um texto editado pelo seu autor: o “informismo de alguns dos versos (cuja eliminação não poderia nunca caber-nos), [a] existência de propostas alternantes para soluções de natureza dramatúrgica [...] ou para a formulação duma mesma ideia [...] ou ainda [as] analogias entre alguns dos poemas que no Acto I se dispõem na orla de Fausto perante o povo alegre” (XXIV). Já o seu caracter fragmentário, atribui-o a um “propósito e [...] uma idiossincrasia autorais” (XXIV), designadamente, “a sua particular poética do fragmentário” (XVIII), o que a leva a colocar a menção (Fragmentos), a acompanhar as marcas do título.

Fausto. Fernando. Fragmentos é o título da versão de António S. Ribeiro do texto de Pessoa estabelecido por Teresa Sobral Cunha. A versão editada teve depois “um tratamento dramatúrgico” pelo seu autor e pelo encenador, Ricardo Pais, “do qual resultou a versão cénica do espectáculo”, com o mesmo título, que teve estreia mundial no Teatro Nacional D. Maria II, no dia 4 de Janeiro de 1989. No texto que escreveu para o Programa, “Fausto, esse caos pré-textual”, António S. Ribeiro apresenta e justifica o modo com construíu a sua versão em torno de dois princípios. Um deles levou-o a escolher uma lição textual quando havia variantes, a inserir personagens que apenas surgem nas notas do projecto de Pessoa, e recusou inserir nesta versão o repetitivo, o menos literário e damaturgicamente válido, o inócuo. O outro é o do respeito pelo “caracter fragmentário, disperso e diverso de Fausto. Como nos fragmentos Pré-Socráticos, em Novalis, nas estátuas gregas, ou Beckett, foi a dissidência das significações, a negação da causalidade narrativa que prevaleceu sobre a imposição de qualquer texto primeiro, porque este nunca existiu”. Tomando o texto do Fausto como um caos pré-textual, António S. Ribeiro constrói a partir dele um texto, o da sua versão, “próximo da escrita íntima e pulsional do Diário”.

O Fausto, Tragédia Subjectiva de Pessoa é um texto marcado pelo inacabamento, pela escrita fragmentária, a repetição e a retomada variante, a indecisão, a hesitação e a incapacidade de decidir, de travar o movimento da glosa e da variação. Essas suas carcterísticas dão-nos a ler a profundidade e extensão do afastamento do Fausto de Goethe, que constituiria um paradigma que teria deixado de ser operatório ou viável. A negatividade fáustica em Goethe ainda pode contar ser reabsorvida pela transcendência, Pessoa mostra que isso deixou de ser possível. As grandes dimensões do mundo e do teatro que o representa reduzem-se e retraem-se, fragmentando-se, no espaço de um sujeito clivado, a crença heróica nos valores da consciência, da razão e da linguagem é substituída pelo orgulho impotente de quem habita um labirinto, um abismo ( um “Maëlstrom”), um intervalo, e descobre à sua volta a ruína desses valores.

No Fausto de Pessoa, apesar das personagens esboçadas, mas que funcionam apenas como espelhos ou outros modos de mostrar uma solidão essencial, como o observa Teresa Sobral Cunha, apenas emerge “uma única dramatis persona”. Essa personagem única experimenta uma tripla impossibilidade: a impossibilidade de confiar na linguagem, a impossibilidade de conhecer e de se (re)conhecer, e a impossibilidade de viver e de amar que radica na incapacidade de integrar o corpo próprio e os seus desejos ou de atribuir sentido à morte.

Neste universo desolado, a experiência dessa tripla impossibilidde é a experiência do irrepresentável e do interdito, do insanável conflito entre a inteligência e a sensibilidade, da incapacidade em se abrir ao outro e da separação interior do sujeito em relação a si mesmo.

O Fausto de Pessoa é assim, por um lado, a matriz enterrada ou soterrada de onde surgirá a pluralidade heteronímica e, por outro, o subsolo que recolherá o que decai ou sobra das suas vozes; o teatro em ruínas, em que se dá a ler a necessidade dessas vozes heteronímicas,enquanto jogos de linguagem e formas de vida que diferentemente ensaiam tentativas de sair daquela tripla impossibilidade e como que vão reenviando de umas para as outras, como sub-texto não dito, o texto inacabado e inacabável do Fausto.

Assim também, e pondo um termo àquilo que é propriamente interminável, podemos dizer que o Fausto é um poema que tinha deixado de ser possível enquanto Drama, um poema que não foi possível, mas cuja impossibilidde mostra a contra-luz a condição de possibilidade da poesia pessoana (&C.ia).

 

Bibl.: Fernando PESSOA, Fausto, Tragédia Subjectiva (texto estabelecido por Teresa Sobral Cunha, prefácio por Eduardo Lourenço), Lisboa, Editorial Presença, 1988; Manuel GUSMÃO, “O Fausto – um teatro em ruínas”, Românica, nº 12, 2003; pp. 67-86; José Augusto SEABRA, “O trágico pessoano”, in Encontro Internacional do Centenário de Pessoa. Um Século de Pessoa, Lisboa, Secretaria de Estado da Cultura, 1990, pp. 171-174.

 

 

 

Manuel Gusmão